Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Para trabalhador informal, efeitos do coronavírus serão ainda piores

Entregador que trabalha com aplicativos diz não saber se maior temor é ficar doente ou ficar sem renda

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 11h25

"Eu já nem sei se tenho mais medo de ficar doente ou de ficar sem trabalho", resume o entregador Daniel Aprigio, de 27 anos - três deles trabalhando com aplicativos. "Não consigo ficar sem os R$ 2 mil que ganho por mês. É pouco, mas é o que sustenta a minha família hoje. Os pedidos ainda continuam, mas podem cair. Estou bem preocupado."  

Os efeitos do coronavírus na economia, que têm derrubado mercados ao redor do mundo, devem ser ainda mais cruéis para o trabalhador informal. A estimativa inicial é que os brasileiros sem carteira assinada tenham uma queda de no mínimo 10% na renda neste trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Mas essa queda, claro, pode crescer muito com o avanço dos casos.

O cálculo é de Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Ele ressalta que a epidemia não vai afetar formais e informais da mesma maneira. "Quem é formal tem salário fixo e é mais fácil a empresa receber do governo alguma medida para compensar a perda de demanda."

Já os informais, ele lembra, têm remuneração associada ao aquecimento do comércio e dos serviços. "Como ganham proporcionalmente ao serviço que eles prestam, o impacto na demanda vai afetar a remuneração dessas famílias. E a falta de vínculos legais dificulta a adoção de medidas compensatórias."  

Esses trabalhadores têm tentado buscar alternativas. Professora de yôga há 12 anos, Valéria Serafim, de 35 anos, passou a oferecer a opção de aulas online, para quem está preocupado com o coronavírus. Ela também vai oferecer descontos para quando o pico da doença passar, caso algum aluno decida parar as aulas por enquanto. "Ontem (terça-feira), mandei uma mensagem para eles, dizendo que vamos tomar as precauções, disponibilizar álcool em gel para todos, mas tenho de respeitar a decisão de cada um. As pessoas estão realmente preocupadas."

Valéria conta que tem recorrido aos ensinamentos da yôga para manter a calma neste momento em que a epidemia se espalha e o Brasil já registrou a primeira morte pelo coronavírus. "A gente tem uma preocupação com o domínio da mente. É preciso seguir as recomendações dos médicos, tomar as medidas corretas. Mas, na medida do possível, não se estressar, para não sofrer em dobro."

Euzébio Santos, de 31 anos, tomou uma decisão: fez uma compra grande no supermercado, arrumou as malas e vai sair da capital paulista para passar pelo menos 15 dias em um sítio em Cunha, interior de São Paulo, com a esposa e o filho, de três anos. Os alunos a quem dava aulas particulares de redação em casa de agora vão fazer o curso pela internet.

Ele conta que já é visível a redução no número de interessados, por conta do atual delicado. "Geralmente, dou aula a 35 pessoas por semestre. Neste começo de ano, estou com 19 alunos. Minha esposa, que é nutricionista, também perdeu pacientes. A nossa renda caiu duplamente: a demanda diminuiu e também perdemos com os investimentos que fizemos na Bolsa, por conta da quedas recentes."  

Aplicativos

No caso dos brasileiros que dependem do trabalho via aplicativos, como Rappi, iFood, Uber e Cabify, o impacto é grande, já que o número de brasileiros nessa situação explodiu nos últimos anos. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), antes da recessão, entre o primeiro trimestre de 2012 e o último de 2014, a média de crescimento de trabalhadores informais era menor para os trabalhadores de aplicativos (0,6% ao ano) do que para os demais conta-próprias (1,9% ao ano).

Depois da recessão, do primeiro trimestre de 2015 ao quarto trimestre de 2019, no entanto, esse movimento se inverteu: com o trabalho em aplicativos registrando taxas de ampliação bem maiores (9,7% ao ano) que as dos demais categorias de trabalho por conta própria (2% ao ano).

Um exemplo é o engenheiro mecânico André Oliveira, de 45 anos. Demitido durante a recessão, ele passou a usar o carro para transportar passageiros, usando aplicativos com Uber, Cabify e 99. "Como muitas empresas grandes já estão adotando um esquema de home office, a gente já sente uma queda de movimento."

"Temos de olhar o setor de serviços, que é o que mais emprega e que terá o maior dano nessa crise. A gente já está vendo restaurantes fechados, imaginar que apenas a entrega em residência vai garantir os empregos dos milhares de restaurantes não é verdade. O governo precisa pensar em soluções. E espero que possa apresentá-las ao parlamento nos próximos dias ou nas próximas semanas", afirmou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).  

Sem direitos

Em quatro anos, o total de trabalhadores de aplicativos de transporte e entrega de produtos aumentou em 700 mil postos de trabalho, passando de 1,23 milhão em janeiro de 2015 para 1,99 milhão em abril de 2019. Graças a esse segmento, o número total do universo de trabalhadores por conta própria atingiu o montante de mais de 24,5 milhões de pessoas.

Entre eles está Nicolas Roberto, de 23 anos. Fazendo entregas de bicicleta há um mês, ele espera o próximo pedido em um ponto de encontro de entregadores na avenida Paulista, em São Paulo. "Está vendo esse monte de gente aqui? Todo mundo tem família, contas para pagar e nenhuma garantia. Se a gente fica doente, fica sem receber. Simples assim. O meu medo é o número de pedidos cair."

Alison Xavier, de 22 anos, reconhece que quem trabalha informalmente com entregas e transporte de passageiros está mais vulnerável ao coronavírus. "As empresas têm mandado recomendações para evitarmos contato e lavarmos sempre as mãos. Um dos apps ficou de enviar álcool em gel e máscara para os entregadores, mas no fim, a gente só pode contar com a gente."

O entregador Adriel Azevedo, de 28 anos, diz que a preocupação com os cuidados pessoais aumentou desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou que havia uma pandemia do novo coronavírus, na última semana. "A gente, que trabalha na rua, acaba ficando mais exposto. Eu tento cuidar da saúde, porque minha família precisa de mim. Muita gente depende do emprego informal agora, o desemprego ainda está alto e as pessoas se viram como podem."

O sociólogo Clemente Ganz Lúcio, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), lembra que os impactos da parada da economia mundial devem levar a uma queda no consumo das famílias, das empresas e dos governos. "E quem é informal não tem a rede mínima de proteção com a qual o trabalhador formal ainda pode contar."  

Empresas

Procurado, o Uber disse que é possível que ocorra a suspensão temporária de contas de usuários ou motoristas parceiros após a confirmação de que contraíram ou foram expostos ao covid-19. A empresa também afirmou que irá dar ajuda financeira por até 14 dias a motoristas ou entregadores parceiros diagnosticados ou que estiverem de quarentena.

Segundo a Cabify, têm sido feitas recomendações de fontes oficiais sobre o coronavírus para promover a colaboração de todos e evitar que o vírus se espalhe.

O iFood anunciou a criação de um fundo de R$ 1 milhão destinado a entregadores que venham a contrair o coronavírus. Para os funcionários diretos, a empresa tem adotado o regime de home office.

Já o Rappi afirma que incentiva a opção de pagamento via aplicativo, para que exista o menor contato possível. "Também estamos com uma política para disponibilização de álcool em gel." A empresa registrou um aumento nos pedidos de compras de supermercado, o que reflete a preocupação dos clientes em estocar alimentos.

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