Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Para Trabuco, Bolsonaro precisa dar um choque na Previdência; e rápido

Presidente do conselho de administração do Bradesco diz que o tema da reforma é o sinal mais aguardado pelos investidores estrangeiros para voltarem a colocar recursos no País

Célia Froufe, enviada especial

21 de janeiro de 2019 | 19h49

DAVOS - Pela primeira vez em Davos como presidente do conselho de administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, que completa 50 anos de casa em 2019, tem um recado bastante claro para o presidente Jair Bolsonaro: é preciso fazer um "choque" nas regras da Previdência, sem gradualismos. "Não dá para deixar de ter senso de urgência", afirmou em entrevista concedida ao Estadão/Broadcast nesta segunda-feira, 21, no centro de convenções do Fórum Econômico Mundial de Davos.

Para ele, ainda que Bolsonaro tenha dito quando chegou aos Alpes que seu discurso na terça-feira, 22, será curto, o presidente deve tocar no tema da reforma da Previdência, que é o sinal mais aguardado pelos investidores estrangeiros para voltarem a colocar recursos no País. "O novo governo, por si só, já é suficiente para mudar a percepção dos agentes – por um tempo. Senso de urgência é uma palavra de ordem. Temos que despautar esse tema este ano", afirmou.

Passado esse obstáculo, o executivo acredita na retomada do grau de investimento pelo Brasil, ainda na atual administração. Trabuco também falou sobre desaceleração da economia global, tensão comercial entre Estados Unidos e China, empoçamento da liquidez mundial e recuperação do mercado de crédito doméstico, entre outros temas. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Estadão/Broadcast: Temos o discurso do presidente brasileiro, que está atraindo bastante curiosidade aqui em Davos. Qual é a sua expectativa? 

Trabuco: O que eu já vi passar de gente por aqui (no Fórum), de lideranças que eclipsaram... Esta é a oitava ou nona vez que venho, já são quase 10 anos, e nesse período o mundo mudou muito, principalmente a liderança dos países. Aqui passaram David Cameron, Angela Merkel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas neste eu não estava, a presidente Dilma Rousseff, o Mauricio Macri, que foi estrela daqui por dois anos. Ao interpretar a história, vimos que um dos lugares em que a Argentina errou foi em acreditar no gradualismo. Nos últimos dois anos, Xi Jinping e Donald Trump. Era inimaginável na ocasião uma guerra comercial tão intensa. A única coisa boa que essa guerra hoje tem é que eles ainda estão dispostos a dialogar. Uma radicalização poderia jogar o mundo num processo recessivo.

Estadão/Broadcast: O FMI diminuiu suas projeções para o crescimento global e a diretora-gerente, Christine Lagarde, fez vários alertas sobre o aumento dos riscos. Como o senhor vê isso? 

Trabuco: Eu interpretaria essa colocação assim: o mundo caminha para a recessão? Pode. O mundo caminha para a desaceleração? Sim. O ajuste americano já é de favas contadas. Nem os ciclos da economia e nem os da vida foram revogados. Então, essa ascensão dos líderes que por aqui passaram é parte de um processo natural de substituição. Os EUA devem ter expansão de 3% em 2018 e 3,2% de desemprego. Não tem como continuar melhorando. E a desoneração fiscal e tributária imposta à economia americana vai cobrar um preço, que deve ser um déficit fiscal por volta de 6% em 2022. Aí ou se provoca uma recessão brutal ou tem política monetária agressiva. Como estamos saindo de uma frouxa, é previsível que tenha uma reação nessa linha agora.

Estadão/Broadcast: Mas o Federal Reserve já vem tirando o pé do acelerador, não?

Trabuco: Sim, porque há sinais de que o calor da economia vai diminuir.

Estadão/Broadcast: O senhor ressaltou os líderes, mas não estamos justamente em um momento de falta de líderes? 

Trabuco: O mundo tem uma carência de lideranças. Na Inglaterra está faltando uma liderança forte. A Alemanha está saindo de uma liderança forte, mas não tem um sucessor. O Emmanuel Macron está sendo testado, pois pode ser uma liderança muito de aparência. A busca por lideranças é um fato necessário. No Brasil, que tem lições de casa muito fortes a fazer, a eleição deu a possibilidade de ter uma liderança determinada, forte, em um hora de mudança do modelo econômico. Esse ambiente é que faz o pessoal de Davos olhar o Brasil com interesse. Um País que tem densidade territorial e populacional, bônus da agricultura e das commodities, a discussão sobre seu futuro provoca atenção em todos. Parece que estamos sempre postergando esse encontro marcado com o futuro do País. Mas agora mudou. Com a mudança do governo, do modelo econômico, da recusa da chamada nova matriz econômica, tudo isso deu um hálito novo, um clima de esperança. Vivemos mais do que uma lua-de-mel. Isso está no preço do dólar, da bolsa e dos bônus. Então, somos um objeto de desejo.

Estadão/Broadcast: Muitos investidores parecem interessados no Brasil, mas não têm confiança suficiente para colocar recursos, de fato. Quando chegou a Davos, o presidente disse que seu discurso será curto. Não seria jogar fora uma oportunidade de falar para a elite financeira do mundo que, se não investe, faz intermediação dos investimentos? 

Trabuco: Acho que teremos esses sinais amanhã, com o almoço do ministro da Economia, Paulo Guedes, e o discurso de Bolsonaro. Vamos acabar ouvindo isso. Investidores estrangeiros chegaram a ter 18% da dívida interna brasileira, num gesto de confiança. Hoje, está por volta de 11%. Então, há espaço para investidores internacionais que acreditam na solvência do Estado brasileiro. E, se isso acontece, a redução do custo de capital no Brasil é uma coisa formidável.

Estadão/Broadcast: O senhor falou que a Argentina pode ter pecado pelo gradualismo. No caso da Previdência, se vier uma reforma gradual pode ser um risco? 

Trabuco: Sou um crítico dos mecanismos de gradualismos porque no trato dos desafios econômicos eles eram adequados quando o mundo era mais simples, com o padrão ouro, Breton Woods... Mas após a globalização, que é um conceito econômico, a digitalização, a moeda internacional, os ratings internacionais ficaram muito presentes. Então, não se pode contentar em fazer transformações muito gradualistas. Tem que dar um choque. O que se propõe no Brasil deste momento é um choque de liberalismo, em que o capital privado possa ter protagonismo. Até porque o capital estatal ficou diminuto porque estamos em déficit.

Estadão/Broadcast: E em que prazo isso precisa acontecer? 

Trabuco: Chegamos a um nível de consciência tão grande da necessidade da reforma da Previdência, que não haverá um governador que não vá se empenhar para a aprová-la. O novo governo, por si só, já é suficiente para mudar a percepção dos agentes – por um tempo. Senso de urgência é uma palavra de ordem. Temos que despautar esse tema este ano. Por isso que a reforma ficou emblemática, necessária e temos que desenhar um sistema que seja autossustentável no longo prazo.

Estadão/Broadcast: O senhor está falando da proposta de capitalização? 

Trabuco: Sim. Para os entrantes, essa proposta é possível, necessária e desejável. Para o pessoal que já está, é preciso fazer regra de transição. A reforma da Previdência tem de ser feita, está umbilicalmente ligada ao conceito do País. Tem de ser colocada no gerúndio, no sentido de se trabalhar em etapas, com implantação gradual. A reforma da Previdência é colocada porque é uma mudança de gerações. Ela tem duas vertentes: uma é dos ajustes gerenciais, como combate à fraude, aumento de arrecadação, espaço para formalização de trabalhadores que sejam contribuintes.

Estadão/Broadcast: Mas como formalizar trabalhadores com uma reforma trabalhista indo na outra direção? 

Trabuco: A flexibilização e terceirização não eliminam a possibilidade de se formalizar trabalhadores. A outra vertente é estrutural, quando se mexe no que os cálculos atuariais demonstram que não é sustentável no longo prazo. A Previdência brasileira precisa de um choque atuarial. O déficit fiscal é o único ponto que nos torna distante do grau de investimentos. O que nos amarra é a perspectiva de solvência pública para o médio e longo prazos.

Estadão/Broadcast: O senhor acredita no retorno do grau de investimento nesta gestão? 

Trabuco: Acho que tem condições. Parece que estamos saindo de uma espécie de círculo vicioso e a nova gestão e a equipe econômica devem migrar isso para um círculo virtuoso.

Estadão/Broadcast: O senhor é sempre um otimista. Também fez avaliações positivas no governo anterior. O senhor é daqueles que olham o copo meio cheio? 

Trabuco: Sabe por quê? Porque o Brasil oferece possibilidades. Não podemos ficar presos aos gargalos da infraestrutura, isso é uma verdade, mas do outro lado do copo há uma grande oportunidade. Há um portfólio de obras que pode atrair muitos investimentos. Para isso, é preciso ter modelo econômico de muita coerência, se não fica no stop and go. Isso prejudica muito o Brasil. O País é viável, tem estrutura produtiva, é diversificado, então é de oportunidades. Mas não dá para deixar de ter senso de urgência. Chegamos ao fundo do poço com a recessão.

Estadão/Broadcast: O senhor chegou hoje a Davos. Como sente o clima em relação ao Brasil? 

Trabuco: A demanda por contatos é muito grande. O mundo está líquido ainda e a mudança da política monetária, de mais frouxa para mais restrita, pode gerar o voo para a segurança. O Brasil tem condições, no entanto, de apresentar taxa de retorno muito adequada. O dinheiro precisa trabalhar e o mundo tem um empoçamento de liquidez muito grande e esse capital precisa de taxa de retorno. O Brasil tem condições de oferecê-la.

Estadão/Broadcast: Mesmo com a Selic em patamar historicamente baixo? 

Trabuco: A Selic está formidável, não podemos subestimar a capacidade de uma política monetária que trouxe o juro para 6,5% ao ano. Isso dá resultado no crescimento. Mas mesmo com essa taxa e com o câmbio controlado, é um retorno excepcional.

Estadão/Broadcast: O senhor falou de crescimento. Com as mudanças no BNDES, os bancos estão preparados para oferecer mais crédito às empresas? 

Trabuco: A liquidez do sistema bancário brasileira também é muito alta e tem outra liquidez alta, que é a dos fundos de investimento. Então, a retomada da economia fará com que esse dinheiro vá trabalhar. O crescimento da economia este ano, em torno de 2,6%, pode surpreender. Se a economia cresce 2,5%, o crédito geral cresce a 10%, o melhor período do crescimento do crédito dos últimos cinco, seis anos. Os bancos estão preparados: têm indicadores de Basileia, têm solvência, liquidez...

Estadão/Broadcast: Falando em Basileia, o senhor acredita ser possível uma flexibilização das regras que vieram com a crise internacional de 2008?

Trabuco: Sim, e sem causar bolhas. Os ciclos não foram revogados e os de crédito historicamente imitam o movimento do coração, de sístole e diástole, se retraindo e se expandindo. Nos EUA, houve o movimento a favor. 

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