JF Diorio/Estadão
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'Para tudo! Vamos ver o que fazer para mudar'

Para presidente da McKinsey, Brasil tem urgência em corrigir deficiências que travam produtividade e crescimento

Entrevista com

Nicola Calicchio Neto

Alexa Salomão, Ricardo Grimbaun, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

A McKinsey & Company tornou-se referência na prestação de consultorias à alta gestão de grandes empresas. Ocorre que ela também destrincha virtudes e deficiências dos países, em áreas tão variadas quanto a qualidade da educação e a oferta de água. O Brasil aparece em vários de seus estudos. Segundo o presidente da McKinsey para América Latina, Nicola Calicchio Neto, no que se refere ao crescimento, o diagnóstico não é alentador. “O Brasil praticamente jogou os últimos 50 anos no lixo”, diz. Para retomar o rumo, a prioridade é acelerar ações que elevem a produtividade e, a reboque, adotar valores como a meritocracia: “O empresário de sucesso precisa ser admirado, não levar a comentários como “ahh, esse cara deve ter roubado”. A seguir os principais trecho da entrevista que concedeu ao Estado

O que o Brasil precisa fazer para voltar a crescer após a crise?

Para ter um bom plano, é preciso um bom diagnóstico. Uma pesquisa mundial recente do MGI (Mckinsey Global Institute) traz um dado muito interessante sobre o Brasil, que passou batido. Essa pesquisa avalia o que ocorreu em vários países nos últimos 50 anos e estima o que pode acontecer nos próximos 50. Detalhe: De 1900 a 1964, o Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo, junto com o Japão. Mas a conclusão é dramática em relação ao período de 1964 a 2014. O Brasil praticamente jogou os últimos 50 anos no lixo. 

Por que no lixo?

Imagine que em 1964 um trabalhador nos Estados Unidos produzia 50 unidades de um produto. Em comparação, o brasileiro produzia 10 unidades – o equivalente a 20% do trabalhador americano. Em 50 anos, o americano dobrou a produtividade. Passou de 50 para 100. O brasileiro dobrou também. Foi de 10 para 20. Eram necessários cinco trabalhadores brasileiros para fazer o mesmo que um americano. Passados 50 anos, continua igual. O que houve na China? O chinês produzia uma unidade do mesmo produto e foi para 20 – aumentou a produtividade 20 vezes. O brasileiro, 2 vezes. Há 50 anos, o brasileiro produzia 10 vezes mais que o chinês. Hoje, a relação é de um para um. Isso tem um impacto enorme sobre o crescimento. Nos últimos 50 anos, o Brasil cresceu 4% ao ano: 1,4% veio da produtividade e 2,6% do aumento da massa trabalhadora, por duas razões. Houve a entrada das mulheres no mercado de trabalho e o “boom” demográfico (aumento elevado e repentino da população). Qual é a péssima notícia? Nos próximos 50 anos, se não tivermos o aumento de 1,4% ao ano na produtividade, vamos crescer apenas 1,7% ao ano – isso porque o efeito da força de trabalho feminina e do “boom” demográfico vai cair para 0,3% ao ano. Dito isso, a única maneira de o Brasil crescer de forma sustentável é aumentando a produtividade. As pessoas falam muito isso, mas o que temos aqui são dados.

Nesse período, o Brasil teve inúmeras crises políticas e econômicas, os dados são de longo prazo... 

É verdade. Em 50 anos acontece muita coisa. Mas perdemos o vento a favor: os 2,6% de crescimento ao ano que vieram do aumento da massa de trabalhadores. Agora não adianta o Brasil apenas estar na direção certa. Precisa aumentar a velocidade. O bônus demográfico (quando o número de jovens em idade produtiva é muito maior que o de velhos) está chegando ao fim. É praticamente impossível virar um país velho e depois ficar rico. Ou a gente fica rico logo ou vamos ter uma dificuldade imensa. Todo mundo quer mais saúde, mais qualidade na educação, trabalhar menos, viver mais e melhor. Mas, para ter tudo isso, é preciso um nível de produção maior, que suporte os benefícios. Não dá para ter os benefícios da Europa com a renda da África. A conta não fecha. O imperativo é acelerar a taxa de crescimento da produtividade.

Pode dar exemplo?

O modelo de crescimento Brasil foi baseado no aumento do consumo. O investimento em infraestrutura é muito baixo: 17%, 18% do PIB (Produto Interno Bruto). A China tem uma taxa de investimento superior a 40%. O investimento tem efeito multiplicador. Faz o país crescer mais e mais rápido. O Brasil tem uma oportunidade aí. Se aumentar o investimento, vai ter um efeito multiplicador.

E como se faz isso?

Atraindo capital ou economizando para investir mais. Independentemente de o dinheiro ser público ou privado, nacional ou internacional. A gente precisa investir mais. Ponto. Não dá para escolher este ou aquele dinheiro. Precisamos de diversas fontes. O dinheiro está aí pelo mundo buscando oportunidades. O Brasil precisar criar as oportunidades.

O País cria, mas não atrai o suficiente.

Aí entra um outro problema: incerteza regulatória. Capital gosta de regras claras e de longo prazo. Se não fizer isso, ou não atrai capital ou atrai a uma taxa mais alta. Como se calcula o retorno sobre o investimento? Tomando como base o risco. Quando tem mais incerteza, tem mais risco. Então, é precisos ter um retorno maior. Por que o mundo está disposto a emprestar para os Estados Unidos a 0, 25% e para o Brasil a 14%? Porque o risco percebido aqui é maior. É preciso reduzir a incerteza no Brasil. A terceira coisa a atacar são as amarras. O Brasil criou muitas.

O sr. poderia dar exemplo de amarra?

Para fazer um investimento, precisa de uma licença. Para ter a licença, precisa de um projeto aprovado, que precisa da licença. Muitas vezes entra num processo circular. São muitos órgãos, com responsabilidades não tão claras. Um entra no espaço do outro. A gente precisa de uma simplificação da máquina pública. Quarto ponto: carga tributária elevada. O setor público precisa fazer uma dieta. Não estou falando que é fácil. Muitas das alavancas que ajudam na gestão do setor privado não existem no setor público, como a gestão de consequência...

O que é gestão de consequência?

No setor privado, se eu não estou satisfeito com a sua performance, te dou um retorno. Você não melhora, eu troco. No setor público, eu te dou retorno, você não faz nada e eu também não faço nada. O setor público precisa ser mais eficiente, porque já temos carga tributária alta e investimos pouco. A única forma de sobrar mais para o investimento é gastando menos. Não estou falando em tirar serviços da população. Falo de melhorar a qualidade e a eficiência dos serviços: fazer mais com menos. Isso é produtividade. As empresas privadas fazem o tempo todo. 

E o quinto ponto?

Melhorar a qualificação da mão de obra. É inegável que a educação melhorou no Brasil. Mas o ritmo é tão insuficiente que não dá para falar que estamos melhorando. No ritmo atual, vamos chegar a um nível educacional bom daqui a 50, 70 anos. Sexto item: informalidade. De novo: o Brasil reduziu a informalidade. De novo: a questão é a velocidade disso. As grandes empresas formais, com condição para crescer, têm dificuldades. As informais têm barreiras para crescer porque não aguentam ser formais. 

Voltamos ao problema das regras?

Sim! Precisamos mudar tudo isso para gerar um novo círculo virtuoso. Há um outro tema que é pouco discutido, mas fundamental: o da meritocracia. O debate no Brasil está concentrado em dar direitos para todo mundo, quando a gente precisa discutir como premiar quem faz mais e melhor. 

O sr. fala em fomentar a meritocracia no setor público ou na cultura nacional?

Na cultura nacional. Na escola, o aluno que vai melhor precisa ser admirada, não ser visto como nerd. O empresário de sucesso precisa ser admirado, não levar a comentários como “ahh, esse cara deve ter roubado”. Professor que ensina melhor deve ser premiado financeiramente e ter reconhecimento. A gente precisa despertar nas pessoas, na sociedade brasileira, o desejo de fazer e ser melhor. 

E as empresas privadas, como estão?

As empresas também precisam melhorar a gestão constantemente. Muitas empresas nacionais têm boas tecnologias e metodologias de gestão, mas precisam melhorar. 

Comparando internacionalmente, como é o nível de gestão das brasileiras?

É sempre difícil fazer paralelos pegando pela média. Comparando a empresa A com a B, no Brasil, existe uma dispersão muito grande. Há inúmeras técnicas que não são difundidas e até coisas novas pouco conhecidas. Vou dar dois exemplos simples. A evolução digital é um tema super importante. Vai ter um impacto enorme sobre a produtividade da economia como um todo. No entanto, ainda não está na pauta como precisaria. O big data (sistema de grande armazenamento de dados com maior velocidade). Eu falo em inglês porque nunca vi tradução para este termo, o que indica que nem está na pauta. Com a proliferação da informação, a redução do custo de processamento e de transmissão – essas três coisas juntas – é possível manipular uma imensa base de dados para tomar decisões melhores. Poucas empresas utilizam o big data com eficiência. Se nos colocássemos nessa vanguarda, poderíamos dar saltos de produtividade. 

Esta não é uma lista de novos temas, mas o Brasil não avança. Por quê?

Tenho dúvidas se a população tem tanta consciência sobre este diagnóstico claro e o caminho a seguir. Precisamos estabelecer prioridades nacionais. A prioridade número um, para o Brasil crescer de forma acelerada e sustentável, é fazer um aumento dramático de produtividade. Quando todos tivermos consciência disso, como sociedade, a gente faz. 

Qual o caminho para alcançar isso?

O caminho é ter em mente que até pode ser popular dizer “vamos dar benefícios para diferentes grupos da sociedade”. Ah, esse grupo merece: dá. Esse grupo também: equipara. Tem uma lógica do direito adquirido no Brasil que é perversa. E qual é a obrigação adquirida? Aqui, o direito é sempre para mais e o dever, para menos. A conta nunca fecha. Tem um estudo recente, do economista Marcos Lisboa, Ajuste Inevitável, também assinado pelos pesquisadores Mansueto Almeida e Samuel Pessôa) mostrando que é preciso criar uma nova CPMF a cada quatro anos para cobrir direitos adquiridos. Cada um consegue o seu, mas, no todo, perdemos. A narrativa precisa ficar clara: temos de elevar a produtividade atacando as questões que mencionei. 

Por tudo que foi falado, na corrida pelo crescimento no século 21, o Brasil hoje é um País atrasado? 

Atrasado, não sei, mas com certeza não é o mais proeminente. Nós não estamos capturando o nosso imenso potencial para ter um desenvolvimento maior e mais acelerado. O Brasil é democrático, tem recursos naturais abundantes, uma população com massa crítica e até ajuda divina – Deus é brasileiro. Deveríamos estar muito melhores. Mas estamos vivendo em berço esplêndido. Temos de ir à luta. 

Algum país, que esteve na situação do Brasil hoje, deu a volta por cima?

Analogias são difíceis. Você fala e alguém diz: mas este país é menor, este é uma ditadura, este aqui está em outro hemisfério. Verdade. Cada país tem um contexto. Mas vários países com problemas estão crescendo rapidamente. Na África, Nigéria e África do Sul. Na Ásia, Cingapura. Quer melhor? Estados Unidos, uma economia madura, cresce mais que o Brasil. Não dá para aceitar isso. Para tudo! Vamos ver o que fazer para mudar.


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