Para Vale, preços 'exuberantes' do minério de ferro não vão mais existir

Segundo diretor da mineradora, cotações muito altas refletiam o descompasso entre a oferta e demanda por minério no mundo

RAQUEL LANDIM , FERNANDA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h10

O diretor de Finanças e Relações com Investidores da Vale, Luciano Siani, afirmou ontem que os preços "exuberantes" do minério de ferro ficaram para trás, mas que o cenário ainda é benigno pelos próximos 10 a 15 anos. "Os anos de exuberância, com crescimento acima de dois dígitos, acabaram", disse o executivo, ao participar de conferência realizada ontem pelo Conselho Empresarial Brasil China (CEBC) em São Paulo.

O preço da tonelada do minério de ferro está hoje em cerca de US$ 120, mas chegou a atingir um patamar próximo a US$ 190 no ano passado. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, a cotação média da tonelada de minério exportada pelo País ficou em US$ 97,59 de janeiro a outubro, 25% abaixo dos US$ 130 praticados no mesmo período em 2011.

Segundo Siani, os preços "exuberantes" refletiam o descompasso entre a oferta e demanda por minério no mundo. Com a China crescendo mais lentamente, o mercado estaria mais "equilibrado". O executivo disse que a Vale ainda aguarda crescimento da economia chinesa, mas em porcentual mais baixo do que aquele já observado no passado.

"A urbanização da China ainda está no meio do caminho", disse Siani, para enfatizar que o gigante asiático vai precisar de volumes significativos de minério de ferro. Principal cliente da Vale, a China registrou alta de 10% no Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos. Em 2012, o aumento deve ser de 7,5%.

O gigante asiático foi atingido pela crise global, mas também está em um curso uma mudança estrutural no eixo de crescimento chinês. Ao invés de focar em exportações e investimentos, a China tenta incentivar o consumo doméstico. Para analistas, essa mudança vai provocar uma desaceleração no ritmo de crescimento da demanda chinesa por commodities metálicas.

De acordo com Siani, a produção de aço na China deverá crescer cerca de 3% entre cinco e dez anos. Ele afirmou que a produção siderúrgica chinesa já está crescendo abaixo do PIB do país "há algum tempo". A China possui uma grande capacidade instalada de produção de aço, mas muitas siderúrgicas são pequenas e com tecnologia obsoleta.

"A Vale hoje depende mais da China do que a China da Vale", disse Siani. Ele explicou que a mineradora brasileira fornece 20% do minério adquirido pelos chineses, mas que o país representa 40% a 50% das receitas da empresa. A Vale tem hoje 100 clientes na China, mas, quando começou a operar no mercado, em 1994, atendia apenas uma siderúrgica.

Segundo Siani, a produção de minério de ferro do Brasil não acompanhou o crescimento da produção australiana, e essa é a razão para a Vale ter perdido parte de sua participação de mercado na China, embora toda a sua produção esteja sendo colocada no mercado internacional. De janeiro a setembro, o volume de minério de ferro adquirido pela China no mundo cresceu 8,4%, mas as vendas do Brasil para o país caíram 1,6%.

Eficiência. Siani afirmou que a nova realidade de preços do minério de ferro impõe à Vale o desafio de se tornar mais "eficiente". Segundo ele, a empresa está cortando custos para conseguir entregar um minério mais competitivo. "O ideal para a Vale é ter navios, centros de distribuição e estoques na China", disse.

O executivo disse ainda que a Vale tenta hoje "fazer mais com menos" e, por isso, seus investimentos deverão cair em 2013 em relação a 2012. Até setembro, os aportes da companhia somaram US$ 12,4 bilhões. A intenção da mineradora é manter os investimentos em minério de ferro, seu carro-chefe, e buscar parceiros nos demais negócios.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.