Para variar, rivais de Murdoch estão certos

Murdoch abriu caminho para a mídia ao enfrentar os sindicatos e o poder da BBC, mas agora sua tentativa de comprar toda a BskyB é uma ameaça à livre concorrência

SIMON JENKINS, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Uau. Guardian, Telegraph, Mail, Observer e Mirror, a BBC e o Channel 4, até a BT - todos de acordo e todos furiosos. Quem poderia ter sido o responsável por conjurar essa aliança angustiada? Você adivinhou: Rupert Murdoch.

Murdoch é a melhor coisa que já ocorreu na mídia britânica, e ela o odeia por isso. Sem ele e sua revolução na Fleet Street (endereço tradicional dos jornais britânicos), é muito improvável que ainda tivéssemos hoje jornais como o Guardian e o Independent, um terceiro canal de notícias e até uma Sky Arts 2. Quando Murdoch chegou os especialistas previram um número máximo de 3 jornais britânicos até 1980, como na maioria dos países sindicalizados.

Durante 25 anos Murdoch desafiou a oposição à transformação do aspecto econômico dos jornais e emissoras de TV, resgatando os primeiros do monopólio sindical e as segundas do duopólio BBC/ITV. Em cada frente bateu rivais e os deixou choramingando pela ajuda do governo. Agora quer comprar toda a BSkyB e eles voltam a choramingar. Escreveram uma carta a Vincent Cable, exigindo que a oferta seja investigada.

Dessa vez eles têm razão. A lei de ferro do capitalismo determina que todos os mercados apresentam tendência à formação de um monopólio. Em relação a isso, Adam Smith e Karl Marx concordavam. Leis que promovem a concorrência podem castigar o sucesso, limitar os empreendimentos e sustentar a incompetência. Mas a concorrência é mais importante do que tudo o mais. Ela deve ser sustentada no curto prazo se, no longo prazo, desejarmos a sobrevivência dos empreendimentos legítimos.

Murdoch chegou à imprensa britânica em 1968 e emergiu de um turbilhão na indústria numa posição dominante, mostrando-se mais astuto que rivais como os Carr, os Thomson e Robert Maxwell. Em 1978 Roy Thomson enfrentou os sindicatos na Times Newspapers e foi derrotado, passando a tocha a Murdoch. Sete anos mais tarde ele abriu suas instalações em Wapping, recebendo a hipócrita hostilidade dos concorrentes que rezaram pelo sucesso dele para que pudessem imitá-lo. Quando ele conseguiu, os demais o seguiram, entre eles o Guardian. O número de páginas aumentou muito, os suplementos proliferaram, e o jornalismo desfrutou de duas décadas de boa vida. Ainda há mais leitura num jornal britânico do que antes da chegada de Murdoch.

Ao mesmo tempo ele estava lançando a TV via satélite, diante de previsões segundo as quais os britânicos jamais contratariam seu serviço de parabólicas. Eles o fizeram aos montes. A verdade é que a mídia tem cambaleado e se queixado enquanto segue o caminho aberto por Murdoch, permitindo que ele arque com os riscos para então se aproveitar de seus sucessos. Sua mais recente inovação, tão ridicularizada, é pedir aos leitores de seus jornais na internet que paguem por uma assinatura. A indústria declarou que a gratuidade das notícias na internet é uma questão de princípios - a menos que e até que Murdoch obtenha sucesso, momento a partir do qual todos se apressarão em segui-lo.

Como já fiz parte das forças de Murdoch no passado, conheço bem suas virtudes e seus defeitos. É verdade que ele manteve vivo o jornalismo britânico, mas pouco fez para melhorar a posição dessa indústria na vida britânica. Sua competitividade ao tentar comprar o FT, ameaçar os concorrentes e atormentar a BBC foi muitas vezes motivada mais por travessura do que por questões estratégicas. Jornalista por instinto, tinha dificuldade em abrir mão de interferir nos seus jornais. Murdoch adora o exercício do poder e não hesita em usar sua liberdade de circulação para defender suas empresas - apesar de às vezes fazer o contrário, como Beaverbrook, Maxwell e Conrad Black. Murdoch não é um político frustrado.

Mas uma coisa é reconhecer um inovador, e outra é eximi-lo dos limites habituais da regulação. O papel do governo é preservar a diversidade na mídia, o pluralismo na indústria e o direito de escolha do consumidor. A regra tem determinado que nenhum grupo deve controlar mais que um terço de um setor do mercado. Mas enquanto o mercado dos jornais pode ser medido pela tiragem, a TV é mais difícil de quantificar.

As novas plataformas de transmissão via satélite, via cabo e via transcodificador se combinam e confundem acesso com conteúdo, meio com mensagem, poder com proliferação. Conceitos como participação de mercado, integração vertical e precificação predatória são opacos. Como descobriram os reguladores americanos da internet no caso da Microsoft, um mercado em plena atividade pode se transformar num miasma de práticas monopolistas como pacotes, incorporações e precificação microscópica. O alvo dos reguladores está sempre em movimento.

O secretário da cultura, Jeremy Hunt, quer promover um número maior de veículos de mídia locais, hoje circunscritos por estatutos e leis de livre comércio. Com o número de jornais locais fechados aumentando todos os dias e a BBC sufocando os canais locais de notícias, ele quer relaxar as restrições contra a propriedade sobre veículos de diferentes mídias. Levando-se em conta o estado lastimável do setor, a medida parece razoável. As regras sempre podem ser alteradas posteriormente.

Por outro lado, as relações entre veículos de diferentes mídias mudam suas características diariamente. Práticas que pareceram aceitáveis, como a concorrência entre BBC e imprensa pelas notícias na rede, são agora consideradas injustas. Plataformas distintas agora se misturam numa só por meio da internet. Pode ser que logo haja apenas duas gigantes: a News Corp, de Murdoch, e a BBC. E apesar de aqueles que estão furiosos com a insolente oposição da BBC aos cortes orçamentários desejarem um pouco mais de equilíbrio na cobertura, eles ficariam desagradados com o ousado partidarismo do canal de Murdoch, Fox News, nos EUA.

A melhor abordagem é se manter longe das emoções políticas e ater-se às questões econômicas. Numa indústria de mídia cada vez mais integrada, tornou-se claro que a tecnologia apresenta uma tendência ao domínio do mercado. O trabalho do governo, portanto, é regular o pluralismo. Os executivos de Murdoch dizem querer os 60% restantes da BSkyB, que na prática estão sob seu controle, não por questões de poder, e sim pelo fluxo de renda. Mas renda é poder. Uma tentativa da Sky de entrar no ramo das transmissões locais, associada a um pacote de canais por assinatura e jornais impressos e digitais, conferiria às empresas de Murdoch uma preponderante penetração na mídia. Jogadas como essa devem ser alvo de atenta vigilância.

A carta a Cable é o maior elogio já feito a Murdoch pelos grandes e melhores. Ele reduziu seus adversários à condição de implorar pela ajuda do governo. Ele deveria estar saboreando seu triunfo. Mas Murdoch não pode negar que foi beneficiado pelo ambiente de pouca regulamentação promovido por Thatcher na década de 80, quando recebeu liberdade para enfrentar sozinho os sindicatos e os gordos oligopólios da BBC, da ITV e da mídia impressa. Agora que emergiu no topo, Murdoch deve aceitar que o mercado se prepare para ajudar os outros a concorrer com ele.

A indústria está mudando tão rápido que ninguém é capaz de dizer que a compra da BSkyB seja um golpe contra a concorrência. Mas ela certamente merece investigação constante, bem como o resto da indústria. A preservação da diversidade na mídia é um elemento crucial para a democracia. Quanto a Murdoch, o sol brilhou para ele e lhe proporcionou consideráveis ganhos. Agora é hora de ele dar ouvidos ao regulador que bate à sua porta. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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