Nilton Fukuda - Estadão
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Para vender helicóptero, vale até trocar por carro

Empresários que compraram aeronaves próprias durante o período de bonança da economia agora se esforçam para vendê-las

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2016 | 04h00

Em 2010, quando o Brasil vivia o quase pleno emprego e crescia em ritmo chinês, o empresário Renato Fernandes de Oliveira Júnior, de São José dos Campos, começou a pôr em marcha um sonho alimentado desde a infância. Apaixonado por aviação, ele seguiu a rota dos brasileiros endinheirados que decidiram aproveitar a bonança da economia para comprar o primeiro helicóptero. O gosto pelas máquinas foi tanto que ele comprou cinco aeronaves – uma por ano.

Cada máquina fica num ponto para atender as necessidades do empresário, seja para ir a uma reunião de trabalho, passar o fim de semana no Rio ou para uma simples visita ao cabeleireiro, na capital paulista. “Não sou rico. Sou um viciado por aviação que sabe aplicar bem o dinheiro.” Hoje, entretanto, Oliveira faz o caminho inverso daquele iniciado em 2010 e quer se desfazer de parte de sua frota. Três helicópteros foram colocados à venda por US$ 750 mil – quase R$ 2 milhões.

O dono da metalúrgica Metalvale, setor que tem sido fortemente abalado pela crise econômica, Oliveira garante que a decisão de vender as máquinas não foi por falta de dinheiro, mas pela quantidade de aeronaves disponíveis. Os quatro helicópteros e um avião são usados para os negócios e para o lazer da família (ele, a mulher e duas crianças) e dos amigos. O hobby excêntrico, porém, tem custos elevados, especialmente se a máquina ficar parada. “A despesa aumentou muito e a receita caiu. Pensei comigo: para quê tudo isso?”, questiona o empresário, que também é piloto.

A mesma pergunta tem sido repetida por dezenas de empresários, que colocaram seus helicópteros à venda no último ano. A lista inclui nomes de peso, como os sócios da Natura, Guilherme Leal e Antonio Luiz Seabra; o filho do fundador das Casas Bahia, Michael Klein; acionistas da 5R Properties, da família Rossi; a rede de varejo Riachuelo; o Banco Pine; e empresas de vários setores, de serviços gerais a taxi aéreo. Basta visitar sites de venda de aeronaves nacionais e internacionais – ou até mesmo sites de classificados, como OLX – para se deparar com centenas de anúncios de aeronaves.

Entre 2010 e 2012, com a forte expansão da economia e otimismo em alta, a venda de helicópteros – objeto de desejo e símbolo dos tempos de pujança do País – bateu recordes consecutivos. Foi a partir desse forte movimento que São Paulo se transformou na capital dos helicópteros, com a maior frota do mundo, superando Nova York.

Nessa época, com o crédito farto e barato, a compra vinha em dobro. Não bastava ter apenas um helicóptero, era preciso deixar uma máquina em “stand by” para qualquer eventualidade. “Estudos mostram que a aviação anda lado a lado com a evolução do PIB (Produto Interno Bruto). Se a economia cresce 2%, a aviação cresce 4%. Mas se tem uma retração, o movimento é de desinvestimento”, afirma o conselheiro da Associação Brasileira dos Pilotos de Helicópteros, Rodrigo Duarte.

Custo. Foi o que ocorreu a partir de 2014 e se intensificou no ano passado. Com a economia em recessão, queda nas vendas e fluxo de caixa debilitado, quem tinha duas aeronaves decidiu vender pelo menos uma para cortar despesas. Para ter ideia do tamanho da conta, um helicóptero simples custa mais de R$ 10 mil por mês, sem considerar o salário de um piloto, que pode chegar a R$ 20 mil. Para uma máquina como a de Michael Klein, que está à venda por US$ 8,5 milhões, o gasto mensal supera os R$ 100 mil.

Na 5R Properties, além de colocar um helicóptero à venda, os empresários decidiram reduzir os custos com o aluguel de hangar. Hoje, uma das aeronaves fica estacionada na casa do proprietário. A família tenta há dois anos se desfazer da máquina – financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e que ainda está sendo paga. Embora o preço inicial já tenha sido reduzido em 10%, o helicóptero continua à venda.

De um lado, a oferta de helicópteros aumenta a cada dia e, do outro, os compradores desaparecem com a queda do poder aquisitivo. Uma alternativa tem sido anunciar as máquinas no mercado internacional, especialmente se o valor do ativo é alto. Outra forma é aceitar contrapartidas em forma de bens. Para se desfazer das aeronaves, alguns vendedores têm aceitado de tudo, de imóveis a carros.

“Estamos fechando um negócio de R$ 900 mil, em que o vendedor aceitou como forma de pagamento um Mercedes e um Porsche e o resto em dinheiro”, afirma Gualter Garcez Pizzi, dono da Gualter Helicópteros, que faz a comercialização das aeronaves. Oliveira Júnior já recebeu proposta semelhante: “Queriam que eu aceitasse um outro helicóptero como forma de pagamento. Não vou vender por qualquer coisa.”

Pizzi conta que a primeira reação é repudiar as propostas, mas, com o passar dos meses, os proprietários acabam aceitando. Além disso, com a dificuldade e encarecimento do crédito, alguns negócios têm sido parcelados diretamente com o dono, diz Pizzi, que hoje tem 160 aviões e helicópteros à venda. Vinicius Pires, profissional que vende às aeronaves brasileiras nos Estados Unidos – tem cem aeronaves à venda.

Ele afirma que do ano passado para cá, a oferta de helicópteros cresceu 30%. “Aqui fora quem tem interesse nas máquinas brasileiras são os americanos, mexicanos, australianos, austríacos e alemães. Mas tem muita máquina no mercado, isso dá mais poder de negociação aos compradores.”

O presidente do grupo CB, Michael Klein, afirma que, com a crise do País, é melhor vender as aeronaves no mercado externo, porque no Brasil não há compradores para alguns tipos de modelos. Segundo ele, o helicóptero de dez lugares foi comprado em 2008 para o uso do pai Samuel Klien (morto em 2014). A aeronave só faz voos regulares de 15 em 15 dias paramanutenção.

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