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Aceleradoras, grandes empresas, fundos e movimentos ganham corpo e tendem a reduzir os desafios do empreendedorismo feminino

Dell Technologies e Microsoft, Media Lab Estadão e Aladas
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19 de novembro de 2020 | 18h24

O Brasil nunca viveu um cenário tão favorável para o empreendedorismo feminino. Há menos de duas décadas, as mulheres abriam menos de um terço dos novos negócios no País. Atualmente, elas já são responsáveis por metade das inaugurações, e são consideradas essenciais para a retomada econômica do Brasil, que sofreu queda de 10% no segundo trimestre em meio à pandemia. Ainda assim, os desafios são grandes e políticas de incentivo focadas em mulheres são essenciais para fomentar negócios mais longevos e com maior potencial de crescimento. “Com o que estamos passando nesse momento, com o desemprego estrutural e as perdas de postos de trabalho, o empreendedorismo é a solução para a economia. E a mulher empreendedora agrega ainda mais, porque olha seu entorno, e pode ser grande indutora nesta retomada econômica”, afirma Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Empreendedorismo do Itaú.

Atentos a este potencial, investidores estão ampliando as ações focadas em negócios liderados por mulheres. Surgem cada vez mais iniciativas públicas para impulsionar o empreendedorismo feminino em diversos extratos, olhando recortes de raça, classe social e segmento econômico. Apoio de grandes companhias na capacitação de mulheres empreendedoras, fundos dedicados a empresas com lideranças femininas, programas de aceleração, incubadoras e núcleos de inovação estão cada vez mais presentes e ativos, oferecendo capacitação e acesso a capital. “Não estamos falando de filantropia. Isso é estratégia de negócios”, comenta Luciana.

O movimento é impulsionado também por uma pressão da sociedade por políticas de governança corporativa com foco em diversidade de gênero e raça. Há uma conscientização social que está fazendo com que iniciativas isoladas passem a ter uma abordagem sistêmica. “Quando isso acontece, o diagnóstico dos problemas fica atrelado a uma jornada de resolução deles”, diz Kika Ricciardi, membro do conselho do Aladas, sócia-investidora e mentora de Scale-Ups, estágio em que as vendas são aceleradas após o processo de desenvolvimento.

Especialistas apontam quatro fatores que mais influenciam a trajetória das mulheres no empreendedorismo: a capacitação, principalmente em questões financeiras e socioemocionais; a formação de redes de apoio, o que tem efeito ainda maior quando composto somente por outras mulheres; exemplos de sucesso; e acesso a capital, ainda muito restrito aos empreendimentos liderados por homens. “As discussões que aconteceram no passado foram responsáveis por iniciativas que hoje estão sendo criadas de forma intencional e mais estruturada, e são fundamentais para construir este futuro”, afirma Fernanda Ribeiro, cofundadora e diretora comercial da Conta Black e líder de Diversidade na Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). “A conversa na mesa de reunião hoje é muito diferente.

Crédito e a barreira psicológica

No Brasil, onde mais de um terço das empresas estão sob o controle de mulheres, elas recorrem menos a crédito, tomam empréstimos menores e pagam taxas de juros maiores, mesmo tendo um perfil de boas pagadoras, segundo pesquisa do Sebrae. “É um misto de duas coisas. Primeiramente a responsabilidade, porque elas não querem se endividar e pedem o valor justo do que precisam. Segundo, é a crença de que não vão conseguir, então pedem menos para aumentar as chances de obter crédito”, conta Stéphanie Fleury, presidente e fundadora da fintech Din- din, que acaba de ser comprada pelo Bradesco. “O problema é sistêmico e individual. Há uma tendência de a mulher terceirizar as finanças para os homens, porque o sistema financeiro não é amigável. A maioria dos gerentes de banco é homem, e a comunicação é árida”, acrescenta Renata Malheiros, coordenadora nacional de Empreendedorismo Feminino do Sebrae.

Dados do Banco Central mostram que mais mulheres estão pedindo crédito e que elas têm obtido valores maiores, mas o percentual tomado ainda está abaixo de 40% do total. As mulheres que se consideram chefes de família representam 46% das empreendedoras do País, e já são mais numerosas do que as que se classificam como cônjuges. Mas, entre as empreendedoras, somente 31% possuem CNPJ, o que dificulta o acesso a crédito, segundo dados do Sebrae. Essas condições levam as mulheres a tomarem empréstimos que não necessitam de negociação, e são consequentemente mais caros, como linhas pré-aprovadas. “As mulheres buscam as operações com a menor intervenção humana porque acreditam que o gerente do banco não vai ser claro, não vai explicar. As equipes precisam estar capacitadas para lidar com as mulheres”, conta Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Empreendedorismo do Itaú. “Quanto mais informações e preparo tiverem, mais elas estarão confortáveis para agir.”

Fintechs são dominadas por homens

O mundo das fintechs é masculino. Tanto no número de projetos criados quanto nos investimentos feitos nas empresas. Só 1,4% dos recursos investidos em fintechs foi destinado a empresas fundadas por mulheres nos últimos cinco anos, segundo estudo da Delloite. De 2008 a 2019, as mulheres criaram 95 empresas, enquanto os homens lançaram 2.648, e os projetos liderados em conjunto por homens e mulheres somaram 274. “Dentro do processo para captar recursos, as mulheres são tão bem-sucedidas quanto os homens, mas há menos mulheres no início do funil”, conta Renato Mendes, professor do Insper e autor de “Mude ou Morra - Tudo que você precisa saber para fazer crescer seu negócio e sua carreira na nova economia”. “Precisamos aumentar a base de mulheres empreendedoras para ter mais projetos no início do funil. E para isso

precisamos de inspiração.”

Mulheres fundadoras de fintechs são resilientes e capazes de gerar ganhos maiores sobre os investimentos, em parte porque enfrentam maiores desafios em acessar fundos. E, em muitos casos, não têm acesso às mesmas oportunidades. Como em outros segmentos, elas estão gerando ideias inovadoras para suprir demandas não atendidas, como suas próprias e frustrantes experiências financeiras, comenta a Delloite em seu relatório.

Na hora de pedir o crédito...

Elas falam de perdas, eles de ganhos, diz pesquisadora

Empreendimentos liderados por mulheres são quase um terço do total nos Estados Unidos, mas receberam apenas 3% dos fundos de venture capital (investimentos de risco) em 2019, enquanto os negócios liderados por homens ficaram com 89%. Essa é a realidade de diversos países, diz Dana Kanze, PhD e professora assistente de comportamento organizacional na London School of Business. Os investidores perguntam às empreendedoras sobre perdas e retenção de clientes, e aos homens sobre ganhos e crescimento, diz. “Isso leva a uma disparidade nos números de financiamento de cada gênero”, conta sobre o resultado do estudo que fez após notar esse viés quando ela e seu sócio buscavam recursos para uma empresa. Confira a entrevista exclusiva com a pesquisadora.

Sua pesquisa mostra que as mulheres recebem menos crédito quando buscam financiamento de venture capital. O que acontece?

A pesquisa que eu e meus colegas fizemos mostra que isso acontece em países do mundo todo. Um dos fatores que contribuem para isso é que as perguntas que os investidores fazem para homens e mulheres empreendedoras são diferentes. Os homens respondem a perguntas focadas em promoção (no campo dos ganhos), e as mulheres são questionadas sobre prevenção (relacionadas às perdas). Essa diferença resulta em uma disparidade nos volumes de financiamento para cada gênero.

As empresas de mulheres são menos atrativas?

Nosso estudo analisou a qualidade do fundador e do negócio, a necessidade de capital e o potencial de crescimento que os recursos permitiriam, e descobrimos que a diferença de perguntas e resultados persiste independentemente desses fatores principais. Não encontramos nenhuma diferença significativa nessas variáveis entre os gêneros dos fundadores, e também percebemos que todos usam a mesma linguagem para falar de ganhos e perdas, mostrando que a maneira como se apresentaram não induziu às perguntas que receberam.

O que as mulheres podem fazer para mudar o resultado deste processo?

Os investidores precisam atualizar seu processo de tomada de decisão para que obtenham o mesmo tipo de informação de todos os candidatos. Notamos que as empreendedoras que respondem às perguntas de prevenção ajustando suas respostas a um perfil de promoção conseguiram captar mais recursos.

No Brasil, as mulheres detêm 34% das empresas, mas obtêm menos crédito. A jornada ainda é longa?

Esses percentuais são similares nos EUA e no Reino Unido. E o crescimento dos negócios liderados por mulheres é o dobro daqueles comandados por homens nos últimos cinco anos nos EUA. Sabemos que, com o mesmo capital, os empreendimentos liderados por mulheres

têm desempenho igual ou superior aos dos homens em termos de receita e lucro. A questão é como nivelar o jogo para garantir que tenham os recursos de que precisam.

A jornada delas para delinear o seu propósito

"Nunca foi tão fácil empreender. Tecnologia é fácil e acessível, marketing não é mais barreira com as redes sociais. O grande diferencial é a gestão”, diz Renato Mendes, professor do Insper e autor do livro “Mude ou Morra - Tudo que você precisa saber para fazer crescer seu negócio e sua carreira na nova economia”. A jornada do empreendedor no Brasil é desafiadora, mas a mulher enfrenta alguns obstáculos específicos que têm sua origem em elementos culturais, como a relutância em assumir a gestão financeira da empresa.

Especialistas em empreendedorismo elencam três pilares que servem de base para a formação das empreendedoras. O primeiro é a capacitação, que engloba conteúdos técnicos e socioemocionais, aliada a mentorias que ajudam de forma mais específica no direcionamento de seus projetos. Atualmente há diversas organizações que oferecem cursos, inclusive gratuitos, dentro de uma jornada de preparação, como o Movimento Aladas. “É preciso estudar finanças, vendas digitais, governança, ao mesmo tempo em que a empreendedora fortalece sua autoestima e a comunicação assertiva”, comenta Kika Ricciardi, membro do conselho do Aladas, sócia-investidora e mentora de Scale-Ups, estágio em que as vendas são aceleradas após o processo de desenvolvimento.

A capacitação fortalece as empreendedoras para lidar com elementos em que há deficiências. Quando planeja seu negócio, a empreendedora tem de pensar em fluxo de caixa, planejamento de receita e despesa e em como vai investir estrategicamente. Mas questões culturais levam muitas mulheres a delegar as finanças das empresas a homens. “A conversa do financeiro é intrínseca ao negócio. Se não tiver familiaridade, como vai falar de sua empresa?”, indaga Izabella Mattar, presidente da Xpeed, escola de negócios da XP Investimentos. “Desde cedo é imposta a

ideia de que a mulher não vai ser capaz de ter controle sobre o seu negócio.”

O segundo pilar é formar redes de relacionamento com outros empreendedores, especialmente as compostas exclusivamente por mulheres. Estes canaisservem de base para troca de informações, indicações e experiências vividas por outras pessoas. O Dell Women’s Entrepreneur Network (DWEN), criado pela Dell, é uma rede de capacitação de mulheres que existe há mais de dez anos para facilitar o crescimento de seus negócios por meio do poder da tecnologia, da expansão do networking entre as participantes no mundo todo e do acesso a benefícios especiais.

O banco Itaú, quando criou um programa de mulheres empreendedoras há cinco anos, notou que a falta de redes de conexão era uma desvantagem das mulheres. “A rede de sororidade feminina é o maior terreno de fertilidade para empreendedoras”, comenta Kika. O terceiro pilar da jornada do empreendedorismo para mulheres é inspiração. É preciso, dizem os especialistas, ter referências que mostrem aonde é possível chegar e quais espaços podem ser ocupados. Como no esporte, o campeão incentiva muitos jovens a praticarem uma modalidade, compara Mendes. “Você não pode sonhar com o que não vê, e, à medida que enxerga possibilidades com pessoas que ocupam estes espaços, você abre espaço para se imaginar em posições maiores do que está hoje”, diz Isabella, da Xpeed.

É possível empreender no próprio emprego

Abrir uma nova empresa não é a única forma de empreender. A oportunidade pode existir dentro da organização em que você está trabalhando, movimento conhecido como intraempreender. Diversas empresas estão desenvolvendo e ampliando programas que incentivam os colaboradores a empreender na tentativa de criar novos serviços e resolver gargalos. “Intraempreender pode dar uma visibilidade altíssima

para uma promoção, e te dá também uma visão mais ampla para abrir sua empresa em um segundo momento”, afirma Stéphanie Fleury, fundadora e presidente da fintech DinDin, que acaba de ser comprada pelo Bradesco. Para propor um novo negócio dentro de um ecossistema estabelecido, é preciso ter capacidade de articulação e provar numericamente que esse projeto faz sentido dentro daquela estrutura, diz Izabella Mattar, presidente da Xpeed, escola de negócios da XP.

Tecnologia como fator essencial

Presidente da Dell no Brasil, Diego Puerta afirma que a digitalização é fundamental para impulsionar o empreendedorismo feminino

Em um momento de crise como o que estamos vivendo, qual o papel das mulheres na recuperação da economia?

A pesquisa “Empreendedoras e Seus Negócios 2020”, do Instituto Rede Mulher Empreendedora, mostra que, durante a crise, cerca de 36% das mulheres aumentaram o faturamento e 66% estão confiantes com o futuro dos negócios. Isso mostra que o papel das mulheres na recuperação da economia é muito importante. Acreditamos que empoderar as mulheres e promover a equidade de gênero é garantia para o efetivo fortalecimento das economias, para a melhoria da qualidade de vida e para um desenvolvimento sustentável.

A Dell há muito tempo auxilia a impulsionar o empreendedorismo como um todo. Como isso ocorre em relação às empresárias?

Nós temos uma história de apoio aos empreendedores como um todo, faz parte do DNA da Dell. Há cerca de 10 anos criamos o Dell Women’s Entrepreneur Network (DWEN), que facilita capacitação de mulheres empreendedoras, troca de ideias, aprendizados e experiências global e regionalmente, além de impulsionar negócios e oferecer atendimento consultivo e benefícios especiais para adquirirem soluções de tecnologia

para transformar e expandir seus negócios.

A Dell tem um grupo interno dedicado ao desenvolvimento de suas colaboradoras e à igualdade de gênero. Por que um projeto desses?

A Dell sempre teve uma cultura de valorização e respeito às pessoas. E um dos diferenciais é a cultura inclusiva entre os colaboradores por meio de grupos de diversidade. Em 2008, criamos o Women in Search of Excellence (WISE), focado em promover ações para atração, retenção e desenvolvimento de mulheres dentro da empresa. Em 2017, o grupo foi renomeado para Women in Action, com iniciativas mais voltadas a proporcionar desenvolvimento profissional e condições de igualdade para todas as mulheres.

É preciso coragem para empreender

Empresárias de sucesso destacam necessidade de determinação e preparo para iniciar a jornada

Luiza Helena Trajano começou aos 12 anos a trabalhar na loja dos tios que, depois, ela transformaria em um dos maiores varejistas do País, o Magazine Luiza. Sonia Hess já era a melhor vendedora de camisas na loja dos pais aos 9 anos. Foi o início da jornada que a levou à presidência da Dudalina, maior fabricante de camisas do País. Zica Assis era babá e faxineira nos anos 1970 quando a inquietação com a exigência de manter seus cabelos lisos a levou a desenvolver produtos que cuidassem de cabelos crespos. Hoje a rede Beleza Natural atende 100 mil clientes por mês. Carolina Caliari sabia que havia 5 milhões de brasileiros com feridas crônicas no Brasil que eram tratados com produtos que não resolviam o problema com eficiência. Quando terminou o doutorado, criou a In Situ, uma empresa de biotecnologia que atenderia essa demanda e resolveria um problema do sistema de saúde.

Essas são histórias de mulheres que logo cedo se agarraram a oportunidades para crescer e empreender, tornando-se exemplos do empreendedorismo feminino. No Brasil, a maioria das mulheres lançam negócios por necessidade, e não por oportunidade, o que contribui para uma baixa taxa de longevidade dos empreendimentos. “Para iniciar qualquer negócio é importante entender bem e amar verdadeiramente o ramo no qual vai atuar ou pretende investir”, diz Zica, fundadora do Beleza Natural. “Não perca o foco do que é realmente o seu objetivo, ou seja, fique de olho no todo, mas sempre com o foco em seu negócio.

A jornada do empreendimento se inicia por descobrir um produto ou serviço que atenda a uma necessidade real das pessoas, conta Renato Mendes, professor do Insper. Em seguida, é preciso ter capital e se cercar de pessoas que complementem suas habilidades, mas compartilhem dos mesmos valores. “A gente teve coragem de tomar algumas medidas, como fazer sociedade com um banco no crediário quando ninguém fazia isso. Fizemos coisas que muitas vezes representavam abrir mão do lucro de curto prazo”, diz Luiza Trajano, em recente entrevista ao Estadão.

PREPARO COMO PREMISSA

Uma das palavras mais recorrentes nas conversas entre empreendedoras é coragem – seja por conta dos desafios que a economia brasileira cria, seja pelas barreiras culturais impostas às mulheres. A solução mais defendida entre elas é o preparo. Para muitas, a mulher empreendedora tem de estar mais bem preparada do que o homem para disputar capital ou atrair investimentos. “É preciso deixar a síndrome de impostora de lado. Tem gente que fala que sorte é estar preparada quando a oportunidade chega, mas a maioria das pessoas não está 100% pronta. Você tem de estudar sempre”, diz Fernanda Ribeiro, cofundadora da Conta Black e líder de Diversidade na Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs).

A síndrome do impostor é o medo de ser descoberta uma fraude intelectual, seja no trabalho, seja na vida pessoal. Pesquisa do LinkedIn mostrou que mulheres se candidatam a vagas de emprego somente quanto cumprem 100% dos requisitos. Para os homens, basta atender 60%.

“Participei de vários processos de aceleração e fui melhorando a cada um, em um processo de aprendizado constante”, conta Carolina Caliari, cofundadora da In Situ , que desenvolveu um tratamento para feridas crônicas com o uso de células-tronco. “A primeira coisa que eu e minha sócia, também bióloga, aprendemos é que não daríamos conta de fazer tudo. E ter uma equipe complementar é fundamental.”

 

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