coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Parada nos cortes da Selic é praticamente certa

Pela primeira vez depois treze meses, a taxa de juros básica da economia brasileira, a Selic, pode parar de cair. Em setembro do ano passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) começou a reduzi-la e não parou mais, derrubando-a de 19,75% ao ano até os atuais 11,25%. Porém, no mês passado, o ritmo de corte nos juros foi reduzido e os diretores do Banco Central, que integram o Copom, deram todos os sinais que pisariam mais fundo no freio diante dos sinais de superaquecimento da economia e risco de inflação elevada. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que os ganhos da estabilidade de preços podem "ir pro quiabo" se a indústria não investir o suficiente para sustentar o consumo crescente. Mas a parada nos cortes da Selic, tida como praticamente certa até a semana passada, foi posta em xeque na última quinta-feira, com a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, que foi de 0,18%. A variação ficou abaixo do esperado pelos economistas, que calculavam algo entre 0,19% e 0,29%. Ou seja, a inflação parece não estar tão em alta como se temia.Com isso, as apostas começaram a mudar: em vez de nenhum corte, uma redução de 0,25 ponto porcentual na Selic. Essa é a previsão que corre pelos bastidores do governo, no circuito fora do Banco Central. A decisão, porém, cabe ao Copom, que se reúne terça e quarta-feira para fixar a taxa Selic."Eu achava que não ia ter corte, agora estou mudando de opinião", disse o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves. "Praticamente estou com a turma que aposta em 0,25." A parada, porém, não está descartada. "Há argumentos para os dois lados, e essa será uma decisão difícil."O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), antigo crítico da forma parcimoniosa como o Banco Central corta os juros, também acha que surgiram novos elementos desde que o Copom divulgou a ata repleta de alertas de sua última reunião. "A decisão é do Copom, que sempre teve total independência operacional", disse. "Minha opinião é que há condições para manter a trajetória de queda."Não foi só o IPCA que lançou dúvidas sobre a parada dos juros - embora seja esse o elemento mais importante, pois o que determina a calibragem dos juros é exatamente a inflação medida por esse índice. O objetivo do Copom é manter o IPCA dentro da meta, que é de 4,5%, podendo variar dois pontos para cima ou para baixo.Fed ajudouAté mesmo o Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, deu uma contribuição para ajudar o governo brasileiro a manter os juros internos em queda. Os juros nos Estados Unidos foram cortados em 0,5 ponto, passando para 4,75% e ata da reunião indicou que a taxa não subirá nos próximos nove meses. "E como vamos continuar em 11,25% se lá eles cortaram meio ponto? É uma pressão muito grande", comentou Gonçalves.A decisão do Fed aliviou o efeito da crise financeira sobre as bolsas e demais ativos financeiros. "A turbulência financeira mais pesada já passou", disse Mercadante. Esse é outro elemento que joga a favor de mais um corte nos juros.O IPCA abaixo do previsto, por sua vez, deu força aos analistas que apontavam os alimentos como principal fonte de pressão nos preços. Para eles, os sinais de alta da inflação logo passariam.Há outro grupo, no qual se inclui o Banco Central, que vê na inflação em alta sinais mais graves. Para eles, há risco de a produção estar crescendo a um ritmo insuficiente para fazer frente à febre de consumo que tomou conta do País. Isso levaria à alta dos preços pela escassez de produtos, a chamada inflação de demanda.Esse risco foi traduzido do "economês" por Lula em um discurso no início do mês, em Florianópolis. "E se a gente, agora, não começar a fazer os investimentos necessários, nós corremos o risco de ter uma demanda maior do que a oferta, e aí tudo vai para o quiabo outra vez, porque a inflação volta, o mercado paralelo surge."Lula, mais do que muitos de seus auxiliares mais próximos, preza os ganhos econômicos, políticos e eleitorais da estabilidade de preços. Sua explicação sobre a inflação de demanda foi interpretada nos bastidores como um sinal que, bem justificada, uma futura parada no corte dos juros será mais bem tolerada do que na época do "fogo amigo". A explicação está na taxa de crescimento da economia, escolhida como prioridade de seu segundo mandato. As projeções para este ano são de 4,7% e, conforme mostra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), taxas em torno de 5% nos anos seguintes até a próxima eleição são satisfatórios.

LU AIKO OTTA, Agencia Estado

12 de outubro de 2007 | 15h54

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.