Nilton Fukuda|Estadão
Nilton Fukuda|Estadão

Paradeira e desmoralização

População tenta se adaptar às novas carências, mas esse processo produzirá desgaste e tende a estocar descontentamento

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2018 | 07h11

Mais cedo ou mais tarde, os caminhoneiros voltarão a rodar pelas estradas do Brasil porque eles também têm família e precisam garantir o leite das crianças.

Mesmo desorganizados e sem comando, perceberam que podem se empoderar, como hoje se diz de tanta coisa. São capazes de tomar o governo e o País inteiro como seus reféns. Basta que haja disposição para isso, que sobrevenha uma fagulha e que o WhatsApp comece a coordenar as ações gerais.

A intervenção nas estradas, tal como anunciada sexta-feira, leva enorme risco de desmoralizar as Forças Armadas, que também não estão mostrando o serviço prometido em outra área: a da intervenção na segurança do Estado do Rio de Janeiro.

Ou os caminhoneiros voltarão mais ou menos espontaneamente ao trabalho e, nesse caso, a intervenção terá sido (também mais ou menos) dispensável; ou, então, não vai funcionar essa história de botar sargento para dirigir caminhão. Afinal, levar para onde? Descarregar em que condições? Reabastecer o caminhão onde? Existe um velho provérbio siciliano que diz que ninguém pode exigir o que não pode tomar. O resto é teatro e ameaças vazias.

A afirmação de que a conta adicional para a população se restringirá aos R$ 5 bilhões dos subsídios ao diesel desconhece a paulada sobre a economia popular. Tudo parou, as vendas caíram no País inteiro, a renda foi estancada, o faturamento de todos os setores da economia foi achatado e a arrecadação de impostos também mergulhou. Ou seja, há muito mais prejuízo a levar em consideração. Com a faca no pescoço, o governo agravou o rombo, que já estava insustentável. E depois que se esgotarem os 30 dias de trégua, como ficarão os preços? Que regra seguirão?

O único avanço aí é que afinal se reconhece de que se trata mesmo de um subsídio que tem de ser incorporado ao Orçamento. Em outras épocas tentava-se disfarçar e pedalar imponderáveis desse tipo.

As refinarias brasileiras não produzem todo o diesel queimado nos motores e nas caldeiras das termoelétricas. No ano passado, foi necessário importar mais de 80 milhões de barris, por US$ 5,3 bilhões, uma fatura que poderá chegar mais perto dos US$ 10 bilhões neste ano, dado o aumento das cotações internacionais que estão sendo transformadas em reais com um dólar bem mais caro. É um combustível que também precisa ser subsidiado.

E se o Brasil não consegue craquear todo o petróleo de que precisa para seu consumo, mais claro fica que precisa de novas refinarias. Mas como buscar sócios lá fora ou aqui dentro para esses novos projetos se o governo acaba de quebrar as regras de preços cobrados na entrega de combustíveis pelas refinarias?

O governo Temer dormiu no ponto, reagiu tarde demais e, ainda assim, seus figurões agiram como baratas tontas. E fez concessões também demais. Tentou endurecer, como pedra dura que não funciona em água mole.

As consequências eleitorais do desastre ainda estão para ser avaliadas. O governo, que já estava esfarrapado, sairá disso sabe-se lá em que condições. Os oportunistas de sempre se dão ao capricho de fazer um gol atrás do outro pelo vão das pernas do governo central. Os dirigentes do Congresso só aparecem para se trombarem uns com os outros, como se viu pelas atuações do presidente do Senado, Eunício Oliveira, e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Os governadores passaram a sofrer de surdez súbita, porque, em grande maioria, ignoraram os apelos para reduzir o ICMS sobre o diesel. E, pior, deram-se bem nesse jogo, porque não foram punidos.

E não é só o governo federal que está no escuro. A oposição também se mostra perdida. Segue apontando o dedo para os pretensos golpistas de sempre, mas sabe que o movimento dos caminhoneiros nada tem a ver com as esquerdas.

A população ainda não se manifestou. Por enquanto aturdida, tenta se adaptar às novas carências. Mas esse processo produzirá desgaste e tende a estocar descontentamento. Vá se saber se diante das urnas não acabará exigindo linha dura para garantir a vida de cada dia...

Sabe-se como esses movimentos começam. Não se sabe como terminam. Mas consumidor e contribuinte já sabem que lhes sobrará a conta da incompetência alheia.

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