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Paradoxo da produtividade

Quando uma tecnologia surge, as pessoas demoram algum tempo para descobrir como usá-la. E isso vale até mesmo com as tecnologias mais simples. Na semana passada, conversava com o jornalista Mauro Malin e ele me perguntou se eu sabia que, entre a invenção da comida enlatada e a do abridor de latas, se passaram 48 anos. Não sabia.

RENATO CRUZ, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2013 | 02h05

A comida enlatada foi criada em 1810 por Peter Durand, um comerciante de Londres. Ele aperfeiçoou a técnica de conservação de alimentos proposta pelo francês Nicolas Appert, que havia proposto colocar frutas, vegetais e carnes em garrafas, para depois emergi-las em água fervente, para matar as bactérias. No lugar dos frágeis recipientes de vidro, Durand empregou resistentes latas de ferro, que poderiam ser transportadas por soldados ou pela Marinha Real Britânica.

O problema era abrir essas latas. Para comer, muitas vezes os soldados tinham de atacar o recipiente com facas, baionetas e até atirar nele com rifles. Algumas latas chegava a trazer a instrução: "Faça um corte circular no topo com uma talhadeira e martelo". Depois da troca do ferro pelo aço como matéria-prima na década de 1850, o que reduziu o peso e trouxe mais flexibilidade para as latas, o americano Ezra Warner registrou, em 1858, a patente do primeiro abridor de latas. (Para quem quiser saber mais sobre o assunto, a história está no livro A evolução das coisas úteis, de Henry Petroski.)

Há duas semanas, Hélio Graciosa, presidente do CPqD (centro de pesquisas de telecomunicações), citou, durante um evento, reportagem publicada pela Folha sobre o economista americano Robert Gordon, para quem os computadores e a internet não tiveram o mesmo impacto positivo que revoluções tecnológicas anteriores, como a máquina a vapor e a eletricidade. Prova disso seria a desaceleração do crescimento médio da produtividade dos EUA, que, na década de 1970, passou de cerca de 2% ao ano para 0,8%.

A discussão do chamado "paradoxo da produtividade" já vem de algumas décadas. Num estudo publicado em 1997, os economistas Erik Brynjolfsson e Lorin Hitt destacaram que demorou quase 40 anos para que a introdução do motor elétrico nas fábricas produzisse um aumento significativo de produtividade.

No começo, as fábricas simplesmente substituíram o grande motor a vapor central por um motor elétrico, sem nenhuma redefinição de processos de trabalho. Com essa configuração, não houve aumento significativo de produtividade.

A mudança só aconteceu quando, no lugar de um grande motor central, diversas máquinas foram distribuídas pela unidade fabril, cada uma delas com seu pequeno motor elétrico. Da mesma forma, talvez estejamos apenas começando a usar a internet como ela realmente deve ser usada.

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