Paraguai e Uruguai também reclamam de medida brasileira

Fontes dizem que presidente uruguaio ligará para Lula para pedir suspensão de barreira para sócios do Mercosul

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

28 de janeiro de 2009 | 17h54

As medidas brasileiras que aumentam o controle sobre as importações, anunciadas na segunda-feira à noite em Brasília, causaram surpresa e irritação em todos os sócios do Mercosul. Na Argentina, Paraguai e Uruguai os empresários pedem que o governo brasileiro faça alguma espécie de exceção para os produtos dos sócios do bloco do Cone Sul. A Embaixada do Brasil em Montevidéu emitiu um comunicado no final da tarde no qual indica que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Tabaré Vázquez "mantiveram contato telefônico durante o qual trataram o assunto das medidas comerciais". Segundo o comunicado, o presidente Lula "assegurou" a Vázquez "que as medidas não afetarão as exportações do Uruguai para o Brasil, conforme o espírito da integração" do Mercosul. Além disso, os dois presidentes concordaram em entrar em contato sobre o assunto sempre que seja necessário.   Veja também: Empresas param e governo pode rever bloqueio a importações   Vázquez e seus ministros, nos últimos meses, insistiram na necessidade de impedir que a crise mundial leve os países a medidas protecionistas. Dentro do governo uruguaio existe o temor de que o obstáculo não alfandegário aplicado pelo Brasil possa gerar incertezas entre os investidores internacionais sobre as chances de negócios dentro do Mercosul.   Nesta tarde, o presidente da Câmara de Indústrias do Uruguai, Diego Balestra, afirmou à imprensa em Montevidéu que possuía informações fidedignas de que as medidas brasileiras seriam suspensas em breve. Mas, caso as medidas permaneçam, os controles poderiam afetar 35% das exportações uruguaias ao Brasil, afirmaram analistas em Montevidéu.   O mercado brasileiro é o principal destino das vendas do Uruguai ao exterior. No total, o Brasil absorve 16,6% das exportações uruguaias. Entre os produtos estão o trigo, têxteis, malte (altamente competitivo nos mercados internacionais), cevada e plásticos.   No Paraguai, as medidas brasileiras estimularam as costumeiras críticas realizadas em Assunção contra o Mercosul. Há vários anos é forte no país a percepção de que o Paraguai não conseguiu vantagens significativas com a sociedade comercial com o Brasil, Argentina e Uruguai. "Essa é outra 'pérola' contra a integração", disparou Gustavo Volpe, presidente da União Industrial Paraguaia (UIP), em referência à medida anunciada pelo Brasil.   Segundo Volpe, "é triste que o Paraguai abra cada vez mais seu mercado para as invasões de produtos brasileiros e argentinos, enquanto que, os 'grandes sócios' do Mercosul protegem cada vez mais seus respectivos mercados". As críticas no Paraguai são destinadas tanto ao Brasil como para a Argentina, já que produtos têxteis paraguaios são alvo de restrições aplicadas pelo governo argentino desde o ano passado, afirmam os empresários em Assunção. Volpe afirma que - com frequência - nestes 18 anos de existência do Mercosul, o Brasil e a Argentina "não se cansaram de inventar" obstáculos tributários e para alfandegários.   Stand by   Na Argentina, o governo da presidente Cristina Kirchner permanecia ontem em stand by, avaliando a medida brasileira. Os integrantes do governo estavam divididos sobre a gravidade da decisão tomada em Brasília. "Temos que ver se isso nos afetará mesmo ou não", explicaram fontes ao Estado. O argumento era que, se as licenças automáticas implicarem em atrasos de apenas 48 horas na liberação da entrada dos produtos, não haverá problemas. "Mas, se nossos produtos ficarem mais de dois dias seguidos, aí teremos que tomar medidas", explicaram. Por enquanto, segundo fontes, o governo Cristina não realizará retaliações comerciais.   No entanto, os sinais de maiores controles brasileiros sobre as importações causam angústia no empresariado argentino. Motivos há de sobra, já que o Brasil é o principal destino das exportações de produtos Made in Argentina. Em 2008, o país vendeu US$ 14 bilhões ao mercado brasileiro.   O economista Mauricio Claveri, da consultoria Abeceb, considera que "não é conveniente, para o Brasil, começar uma guerra comercial com a Argentina, já que o mercado brasileiro possui superávit com este país há longo tempo (desde 2003)".   Sergio Vacca, presidente da Associação de Metalúrgicos da Argentina, que engloba as fábricas de auto peças (setor que mantém forte déficit com o Brasil) declarou que "é preciso primeiro avaliar como esta medida afeta o país. No entanto, a princípio, posso dizer que é um sinal muito ruim entre os sócios, já que a gente estava trabalhando conjuntamente com os colegas brasileiros pra proteger o Mercosul de importações de terceiros países. E além disso, estávamos tentando não ter confrontos um com o outro".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.