Paraíba do Sul tem o mais baixo nível em 80 anos

Estiagem que atinge Estado do Rio já causou a morte de quase 6 mil cabeças de gado e comprometeu a safra de cana e a pesca da região

ALEXA SALOMÃO , FELIPE WERNECK / TEXTOS, WILTON JR. / FOTOS , O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2014 | 02h04

Perto de meio-dia, o sol está de rachar em São João da Barra, no norte fluminense, onde o Rio Paraíba do Sul desemboca no mar depois de percorrer 1.100 quilômetros. Carla Verônica Tavares caminha até os fundos de sua casa e usa o leito seco do rio para estender roupa em um varal improvisado, feito de galhos, bambu e arame farpado. A cidade é uma das mais afetadas pela longa estiagem no norte e noroeste do Estado, que já matou quase 6 mil cabeças de gado e comprometeu a safra de cana-de-açúcar e a pesca. A seca mudou a paisagem da zona rural e ameaça a captação de água, mas o governo do Rio de Janeiro continua negando a hipótese de racionamento.

"O Paraíba acabou, né? Era um rio feroz, olha como ele tá agora. Eu nunca vi dessa maneira. Tá todo mundo apavorado com a situação do Paraíba", diz Carla, de 45 anos, que recebe R$ 230 por mês de um programa social do município vizinho de Campos, onde nasceu. Ela vive no local há 15 anos com o marido, a mãe e uma sobrinha. Em meio ao cenário desolador, a família parece não acreditar. "Como é que pode isso? Quem diria que a gente ia estender roupa no meio do Paraíba? É o fim dos tempos. Acho que vamos ter coisa pior mais pra frente", diz Amaro Jorge, de 50 anos, marido de Carla, catador de material reciclável. De três em três dias, um caminhão-pipa da prefeitura enche a caixa d'água da casa, que fica entre o rio e a BR-356.

O leito seco do Paraíba do Sul encerra as viagens do Estado pelos Caminhos da Seca, série que visitou bacias hidrográficas que irrigam a economia do Brasil. O cenário encontrado foi de desolação. O nível do rio é o menor dos últimos 80 anos. Com a redução da vazão, ficaram expostas "ilhas" de areia, chamadas de "coroas". O volume de chuvas este ano em Campos, que tem o maior território no Estado, não chega à metade da média das últimas três décadas, de 902 milímetros. Foram 432 mm até outubro, ante 1.292 mm em 2013.

O período da estiagem normalmente vai de maio a agosto, mas o ano está acabando e a chuva ainda não chegou. "Em setembro e outubro, o volume representa menos de 10% do padrão histórico de chuvas", diz o diretor do campus local da Universidade Federal Rural do Rio, Carlos Frederico Veiga.

Em Campos, a seca prolongada matou 2.840 cabeças de gado e provocou a perda de 520 mil toneladas de cana em relação à safra de 2013. O engenheiro agrônomo Luiz Carlos Teixeira, representante regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater-RJ), estima que o prejuízo em todo o norte fluminense chegue a R$ 200 milhões.

"O pessoal que está vivo hoje, gente com mais de 80 anos, nunca viu uma seca assim", diz o produtor rural Antônio Fiaux, de 58 anos, dono de três fazendas em São Fidélis. Ele conta que se preparou com um primo para sacrificar um boi que agonizava, desidratado, mas o animal morreu antes. "O pior é que, se chover agora, começa a morrer mais boi ainda, porque nasce o broto, o animal come, já debilitado, e tem diarreia."

Sem preparo. O superintendente da Defesa Civil local, Cláudio Luiz de Almeida, diz que fazendeiros estão picando troncos de bananeira para dar aos animais. Ele admite: "Não estamos preparados para uma seca como essa". Caminhões da prefeitura levam às fazendas carregamentos de cana trazidos de Minas Gerais e do Espírito Santo para tentar salvar o rebanho, magérrimo.

Pequenos produtores são maioria na região. Poucos têm sistemas sofisticados de irrigação, com poços artesianos. O riacho São Benedito, que abastecia os açudes das fazendas antes de desembocar no Paraíba, está seco. "Parece que estamos num deserto", resume o secretário de Agricultura, Gilberto França.

Na fazenda Badger, urubus atacam as carcaças de três bois. Na vizinha São Benedito, que tem 800 cabeças de gado nelore, 18 morreram nos últimos dias - em todo o município foram 1.025. Genro do dono da fazenda, o empresário Lázaro Rosa, de 37 anos, havia se mudado com a mulher no início do ano, de São Paulo, para ajudar a cuidar dos 250 hectares. "O gado cai e não levanta mais."

Retroescavadeiras abriram covas de dois metros de profundidade para enterrar os animais que não resistem. "Estamos esperando encher para fechar", diz o boiadeiro Leomir Mury, de 26 anos, que trabalha há oito na fazenda. Os pescadores também estão sofrendo com a seca em São Fidélis. De acordo com o presidente da Colônia Z-21, Sirley Ornelas, a atividade tornou-se "praticamente impossível".

O governo afirma que não há risco de racionamento para a população, mas a captação do Paraíba já foi suspensa em São João da Barra. Isso ocorre na maré alta, quando o mar invade o rio, que não tem pressão para empurrar a "língua salina".

"Se não chover em Minas, água aqui é zero. Com o desvio para o Rio de Janeiro, quase não vem mais água de São Paulo. O Paraíba está morrendo", diz o pescador Gervásio Meireles, de 65 anos. Ele pediu aos dois filhos que não sigam a sua profissão - um estuda eletrotécnica e outro busca emprego no porto. Ao lado de um barco encalhado na foz, Meireles reclama da ventania que quase lhe arranca o boné e diz que ela não é normal para novembro. "Esse vento é de agosto. Agora tá tudo ao contrário."

Nível de água nas represas do rio já caiu abaixo de 10%  

A semana foi de tempo fechado em boa parte do Sudeste, mas as primeiras chuvas de verão que caíram em parte da bacia do Paraíba do Sul ainda não fizeram muita diferença. O rio segue baixo. Uma maneira de medir o nível da água é observar as hidrelétricas no seu leito.

Das 11 que fazem parte do sistema nacional, 4 chamam a atenção: Paraibuna, Jaguari, Santa Branca e Funil. Elas não são usinas de grande porte. Somadas, a capacidade instalada não chega a 400 MW. Mas as suas barragens são consideradas estratégicas. O fato de as represas e suas usinas estarem próximas a centros urbanos é um trunfo no que se refere ao transporte de energia elétrica. No caso da água, as barragens regulam o volume do rio - evitam inundações em períodos de chuvas descontroladas e preservam a água em tempos de estiagem, como agora. São essas barragens que também mantêm um fluxo adequado para que cerca de dois terços das águas do Paraíba do Sul possam ser transpostas para o Rio Guandu, responsável por nada menos que o abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

"Sem essas barragens, o Rio Paraíba do Sul seria um filete durante uma estiagem severa, como a que vemos agora, e com certeza a Região Metropolitana do Rio não seria como nós a conhecemos hoje", diz Paulo Carneiro, pesquisador e professor do Laboratório de Hidrologia do instituto de pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Coppe/UFRJ. Carneiro também coordenou o plano estadual de recursos hídricos.

Hoje esses reservatórios estão com menos de 10% de sua capacidade - e a água cai rapidamente. A barragem de Jaguari, a mais cheia do grupo, começou a semana com 9,73% do volume total de água. Na sexta, o relatório diário do Operador Nacional do Sistema (ONS), responsável pela gestão do sistema elétrico, apontava que o volume havia caído para 9,01%. Na Usina de Funil, ao longo da semana o nível foi de 9,45% para 9,17%.

As duas outras represas estão em situação bem pior. O volume de água em Paraibuna foi de 4,72% para 4,48%. Santa Branca saiu de 3,86% e foi a 3,13%. Os níveis só não são os piores dentro das 71 usinas com reservatórios monitorados pelo ONS porque há três barragens que já atingiram o volume zero: Três Irmãos e Ilha Solteira, no Rio Paraná, e Samuel, no Rio Jamari,

Economia. Segundo Carneiro, além da seca, duas razões de fundo econômico explicam a perda de água. Pesa o fato de o rio ser muito demandado não só para abastecimento humano. "Na Bacia do Paraíba do Sul estão muitas indústrias e atividades do agronegócio que geram cerca de 15% do Produto Interno Bruto do (PIB) do País", diz. A outra razão é o desmatamento. "Depois que a pecuária ocupou o espaço do café, as margens perderam a cobertura de floresta, o que reduz o nível de água nos lençóis freáticos, essenciais para alimentar o rio nas secas."

Para o pesquisador, o uso do Paraíba precisa ser reavaliado: "As outorgas teriam que ser revistas, as indústrias deveriam ser incentivadas a investir mais ainda no reúso, as empresas de saneamento precisam reduzir as perdas de água e a população, ser educada a economizar", diz ele. "Caso contrário, vamos viver uma crise depois da outra."

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