Paralisia do governo preocupa analistas estrangeiros

A possibilidade de o populismo, ancorado na ausência de políticas sociais mais eficazes, voltar a ter um peso importante no cenário político brasileiro preocupa alguns analistas e investidores e foi tema de debate durante o encontro da Associação Econômica da América Latina e Caribe, realizado na Universidade Americana de Paris. A discussão surgiu quando se avaliava o impacto da crise política que assolou o Brasil neste ano. O lado positivo, segundo os participantes, é que as instituições do País mostraram estar muito mais sólidas diante de crises, com a economia não sendo contagiada pela turbulência política.O negativo é que o País perdeu um tempo precioso, deixando de implementar reformas que possibilitem principalmente uma maior folga fiscal nos próximos anos e um crescimento econômico mais acelerado. A limitação nos gastos públicos poderia, na avaliação de alguns, aumentar a insatisfação na área social, alimentando propostas de tom populista.O tom mais preocupante foi dado pelo professor Thomas Trebat, do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Columbia. Ele não pode participar do evento, mas sua analise foi lida por um colega, o economista Albert Fishlow, também da Universidade de Columbia.Trebat observou que o Brasil, apesar de alguns avanços na área social nos últimos anos, ainda apresenta índices de pobreza e desigualdade acentuados. Ao mesmo tempo, os gastos sociais são limitados pela necessidade de o País obter superávits primários substanciais. "E como conseqüência da crise política, nada de importante vai acontecer até 2007", prevê Trebat.Ele observou que o Brasil já tem uma carga tributária elevada, comparável à dos países ricos e superior a outros vizinhos latino-americanos, e as perspectivas de médio prazo de mudanças que gerem maior flexibilidade no mercado de trabalho são limitadas. Além disso, os programas sociais, como o Fome Zero, "não foram um grande sucesso". Trebat, no curto prazo, não prevê problemas sérios devido aos efeitos benéficos da retomada do crescimento econômico. Mas observou que a recente eleição para a direção do Partido dos Trabalhadores, que foi muito apertada, mostrou que correntes que defendem mudanças na atual política econômica podem estar ganhando corpo. "E no longo prazo, devido às suas limitações fiscais, não há uma saída para o governo aumentar de forma relevante sua atuação na área social", disse. "Com as oportunidades perdidas neste ano, há uma possibilidade de vermos no futuro um grau de populismo maior no Brasil do que estamos presenciando hoje. Essa é uma das conseqüências desta crise política."Palocci é principal líder político no PT, diz FishlowAlbert Fishlow não concorda com essa tese. "Apesar da seriedade dos problemas políticos do País, não acredito num desvio de rota", disse Fishlow. "O ministro Antônio Palocci, que se tornou no principal líder político do PT, é uma garantia da continuidade das atuais políticas." Fishlow acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito em 2006. "Mas veremos um declínio do poder do PT e a formação de acordos no Congresso que incluirão o PSDB, PFL e outros partidos e que resultarão na aprovação de reformas econômicas importantes", disse. "Isso poderá aliviar as pressões políticas e sociais."O economista Paulo Vieira da Cunha, do banco HSBC, ressaltou que a crise política foi positiva pois fortaleceu a capacidade das instituições a resistirem a choques negativos, o que aumenta sua credibilidade. "Mas o custo da oportunidade perdida é muito grande, 2005 não foi o ano que poderia ter sido", disse."O governo está paralisado e as reformas que teriam sido facilitadas pelo cenário externo extremamente favorável foram abandonadas ou terrivelmente atrasadas."O analista observou que o crescimento econômico e dos investimentos não despencou com a crise, mas comparado com outros países da América Latina, tem sido lento. No entanto, o principal impacto negativo da crise, acrescentou Vieira da Cunha, "é que todo mundo decidiu deixar para pensar nas mudanças necessitadas para o País" após as eleições de 2006. "O Brasil precisa o quanto antes renegociar seu pacto fiscal de 1998-99 pois se nada for feito, o novo presidente terá de resolver um enorme problema logo após assumir, com a renegociação da DRU e CPMF e novos cortes nos gastos na Previdência Social", disse. "A equipe econômica parece estar ciente disso, iniciou uma discussão nesta semana, mas não estamos vendo grandes progressos."Vieira da Cunha lembrou que os mercados costumam prever com muita antecedência os problemas. "Se ao longo do próximo ano ficar claro que as mudanças na área fiscal serão dificultadas também a partir de 2007, poderemos ter volatilidade nos mercados", disse.

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