Fernando Bizerra/EFE
Fechamento de bares e restaurantes dificultou a negociação de salários de trabalhadores do setor. Fernando Bizerra/EFE

Parcelamento das correções de salários cresce em contexto de economia fraca

Movimento tem ganhado força desde março, quando 11,3% dos reajustes foram quitados em duas ou três vezes; pico foi atingido em novembro, quando parcelamentos alcançaram 26,1% das negociações

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 05h00

A perda de poder de barganha dos trabalhadores nas negociações durante o ano passado se refletiu não apenas no avanço da parcela de reajustes abaixo da inflação, mas também no forte aumento nas correções de salários pagas de forma parcelada, em duas ou três vezes, pelos patrões. 

Esse movimento veio ganhando força desde março, quando 11,3% dos reajustes eram quitados em várias vezes. A modalidade de pagamento cresceu a cada mês e atingiu o pico em novembro, quando respondeu por 26,1% das negociações fechadas. Em dezembro, recuou ligeiramente e ficou em 25%. Anteriormente, o pagamento parcelado dos reajustes salariais não chegava a representar 3% do total.

Luís Ribeiro, técnico responsável pelo Sistema de Acompanhamento de Contratações Coletivas do Dieese, diz que essa tendência foi impulsionada pelo aumento da inflação, pela pandemia e pela fraqueza da economia. “Para conseguir ao menos o INPC, os sindicatos tiveram de aceitar o parcelamento do reajuste.”

Foi exatamente o que ocorreu com os cerca de 160 mil trabalhadores de restaurantes, bares e hotéis da capital paulista e de 33 municípios vizinhos, reunidos no Sinthoresp, sindicato filiado à Força Sindical. Rubens Fernandes da Silva, secretário-geral do sindicato e responsável pelas negociações salariais desde 2004, conta que a do ano passado foi a mais difícil da qual participou.

Primeiro pelo tempo que levou para o acordo ser fechado. A data-base da categoria é 1.º de julho, e a negociação foi concluída em dezembro. Com o lockdown dos restaurantes no primeiro ano da pandemia, o sindicato viu que não seria possível negociar reajustes. Então, as negociações de 2021 concentraram dois anos de aumentos de salários.

Os trabalhadores pleitearam 12%, referentes à inflação acumulada em 2020 e 2021, e conseguiram. Mas a contrapartida foi o parcelamento da correção em três vezes: outubro, janeiro e março. “O reajuste de 2020 e 2021 foi totalmente diluído dentro de outro período, e o INPC continua pressionado. Vamos ter de negociar em meados deste ano”, explica. 

Na análise da pesquisadora da consultoria IDados, Mariana Leite, o parcelamento dos reajustes, a inflação alta e o contingente de desempregados voltando ao mercado e disposto a ganhar menos enfraquecem o poder de barganha de quem está empregado. “Os ocupados estão competindo com os desocupados que aceitam ganhar menos.” O impacto desse movimento na macroeconomia é menor consumo e menor crescimento da economia, já que o consumo das famílias responde por cerca de dois terços do PIB.

Setores

Os obstáculos enfrentados pelos trabalhadores de restaurantes, bares e hotéis, por exemplo, ilustra as dificuldades nas negociações do setor de serviços. Esse foi o setor que mais sofreu com a pandemia por causa da paralisação das atividades e teve o pior desempenho nos reajustes. Em 2021, 60,4% das negociações dos serviços tiveram aumentos abaixo da inflação.

Um resultado que surpreendeu Ribeiro foi uma certa melhora que houve para os trabalhadores em geral nas negociações do segundo semestre. Em novembro, por exemplo, 62% dos reajustes conseguiram repor o INPC acumulado em 12 meses, de a 11,08%. 

Ele atribui essa conquista ao fato de o segundo semestre concentrar a data-base de categorias de peso, mais estruturadas, como metalúrgicos, bancários, petroleiros. E essas categorias oferecem maior resistência nas negociações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Inflação de 2021 supera 47,7% dos acordos salariais do setor privado

Quase a metade dos reajustes obtidos por trabalhadores perdeu para o INPC no ano passado, no pior resultado do levantamento iniciado pelo Dieese em 2018

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 05h00

Quase a metade das negociações salariais do setor privado perdeu para a inflação em 2021. Esse foi pior resultado em quatro anos, desde que o Dieese começou, em 2018, a avaliar as negociações inseridas na base de dados do Mediador do Ministério do Trabalho. Se for considerada uma série mais longa, iniciada em 1996 e que leva em conta uma amostra menor, de 800 categorias, o resultado foi o mais fraco desde 2003.

No ano passado, 47,7% das negociações salariais ficaram abaixo da inflação medida pelo INPC do IBGE, que fechou 2021 com alta de 10,16%. Já 36,6% das negociações empataram, e apenas 15,8% superaram a inflação. O reajuste médio de 16,3 mil negociações concluídas e inseridas até 6 de janeiro na base de dados ficou em 0,86% abaixo da inflação. 

“Antes de 2018, a gente trabalhava com um painel mais restrito, que incluía as principais negociações”, diz o sociólogo Luís Ribeiro, técnico responsável pelo Sistema de Acompanhamento de Contratações Coletivas do Dieese.

Entre 1996 e 2002, a fatia das negociações que perdia para inflação girava em torno de 40%. Em 2003, com a inflação em alta, 58% das negociações ficaram abaixo do INPC. De 2004 em diante, a parcela de negociações com reajustes acima da inflação predominou. Mas, com recessão em 2015, o quadro piorou, observa. Ele destaca que, desde 2018, com o enfraquecimento da atividade agravado pela pandemia e a alta do desemprego, a situação complicou para o trabalhador.

“É um cenário delicado que resulta da combinação de inflação alta com grande ociosidade no mercado de trabalho”, observa o economista da LCA Consultores, Bruno Imaizumi. A grande parcela de reajustes salariais perdendo para inflação pode limitar o consumo e a atividade, com desdobramentos sobre a inadimplência. “É menos dinheiro injetado na economia”, diz, ressaltando que a prioridade do brasileiro hoje é comprar itens básicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.