Felipe Rau/Estadão
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BNP Paribas defende reformas econômicas no Brasil de olho no longo prazo

Diretor do banco acredita que agenda de reformas é chave essencial para atrair investidores; persistência de Guedes no tema encontra ressalvas no País

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 12h00

LONDRES - A continuidade da defesa das reformas do ministro da Economia, Paulo Guedes, ganha eco do outro lado do Atlântico como algo essencial para o futuro do País. "Faz todo sentido a insistência de médio prazo de reformas", disse ao Estadão/Broadcast o diretor de Pesquisa Global para Mercados Emergentes do BNP Paribas em Londres, Marcelo Carvalho.

Segundo ele, o Brasil enfrenta hoje dois grandes desafios: no curto prazo, conter a epidemia e minimizar seu impacto na economia; no longo prazo, retomar as reformas estruturais assim que possível. "Ou seja, para o Brasil, o grande desafio será retomar essas reformas", disse. "O ministro Guedes tem razão em instituir nesse ponto de retomá-las quando for possível", reforçou.

A persistência do ministro tem encontrado algumas ressalvas dentro do País, num momento em que o Brasil ainda precisa lutar contra o coronavírus e o Estado, ampliar o seu espaço e poder de fogo sobre a economia. Para Carvalho, no entanto, são as reformas a serem feitas o quanto antes que serão fundamentais. Um estudo capitaneado pelo economista em Londres tentou medir quais países ganham e quais perdem considerando prazo de curta - 12 meses - e de longa duração - cinco anos.

A conclusão do trabalho é a de que, na resposta mais rápida, Brasil, Rússia e Índia, por exemplo, tendem a estar na dianteira. "Os países maiores e mais fechados ironicamente se saem melhor porque não dependem muito do resto do mundo. Se o mundo está menos importante, tudo bem porque (esses países) têm a demanda doméstica", considerou. Neste quadro de curto prazo, nações menores, como o Chile, por exemplo, tendem a não terem um desempenho tão positivo.

No longo prazo, como demonstrou o estudo - que avalia variáveis como negócios verdes, índice de corrupção e prevalência da lei, para citar alguns -, é a capacidade da economia crescer com as próprias pernas e com base em boas instituições que é o fator determinante. "A conclusão é a de que, no longo prazo, é o contrário que ocorre: países pequenos e com boas instituições é que se dão bem. Já os grandes têm muito a fazer no longo prazo, e o Brasil está mal nessa foto, pois ainda tem muito a fazer", apontou. "Por isso, no longo prazo, o que vai ser determinante é a capacidade de aperfeiçoar suas instituições e de reformar", acrescentou.

Chave dos investimentos

Essa também é uma chave para atrair investidores externos, de acordo com Carvalho. Para ele, há muitas oportunidades nos emergentes, mas é importante ser seletivo, já que a crise afeta esse grupo de países por meio de três canais: sistema de saúde público, conta corrente e conta de capital - tanto Investimento Estrangeiro Direto (IED) quanto em carteira. "No primeiro canal, há diferenças enormes entre emergentes e avançados. A capacidade de resposta de cada país emergente é muito diferente da dos avançados, há as condições sociais, a importância do mercado de trabalho informal e tudo isso afeta os países de forma diferenciada", enumerou.

Em relação à conta corrente, uns estão melhores e outros piores, de acordo com o economista. "As exportações já estão despencando, nos países emergentes em particular. Há a questão do volume porque, com a recessão, todo mundo está comprando menos, e do efeito preço também - o de commodities, em particular", considerou, citando o caso do petróleo como o mais visível. "Se é emergente e exportador de petróleo, como países do Golfo, Colômbia, etc, claramente sofre, mas se é importador se beneficia, como é o caso da índia, da Turquia. Há perdedores e ganhadores."

Na avaliação do diretor, os fluxos de capitais para os emergentes tendem a se retrair, mas não na mesma intensidade para todos os países. "Depende como cada país responde à crise - do ponto de vista monetário e fiscal. A palavra chave aqui é seletividade, mas há oportunidades", garantiu. Por isso, para ele, o "antídoto" é fazer a coisa certa em termos de resposta de política econômica no curto prazo e, mais importante, as estruturais, de longo prazo. "Neste momento, a resposta é política fiscal e monetária expansionista, o que é compreensível e defensável. Está todo mundo cortando o juro, e com razão, porque o grau de ociosidade na economia é imenso, a inflação não para de cair e há espaço para cair muito além do que o que as pessoas imaginavam. É o caso da grande maioria dos emergentes e dos desenvolvidos. Para os emergentes é uma história mais recente", comparou.

Algum tempo

Esse movimento expansionista pode "até durar algum tempo", segundo Carvalho, mas a política monetária sozinha "não dá conta do recado". "Ela ajuda, mas não resolve. É uma perna só. A outra é a fiscal", apontou, salientando que, neste caso, é preciso separar o longo do curto prazo. "No curto prazo, é claríssimo que as dívidas do setor público estão aumentando rapidamente em todas as partes do mundo, na América Latina, no Brasil em particular, porque o quadro fiscal piorou muito, pois a arrecadação despenca com a recessão econômica e, do lado do gasto, aumenta a pressão para amortecer impacto social da crise."

O resultado já se conhece: uma dívida crescente. "É compreensível que isso ocorra no curto prazo. Diria até que é desejável. Mesmo economistas mais neoliberais concordam que há uma justificativa razoável de expansão fiscal para situação exógena, sem precedentes e de grande escala que é a covid-19", argumentou. Para o longo prazo, é sabido que haverá a herança de um problema. E é neste ponto, conforme o diretor do Paribas, que os investidores vão diferenciar quem está fazendo a lição de casa de quem não está. "Para evitar o círculo vicioso, quem garantir que essa expansão é temporária, que vão ser feitas reformas estruturais que permitem colocar as contas fiscais de novo nos eixos, vai se dar melhor", previu.

Desglobalização

Carvalho também acredita que alguns dos efeitos da crise da pandemia vão ficar na sociedade por muitos anos. Entre eles, está o tamanho do Estado na economia, por causa dos "imensos pacotes de estímulos". Outro apontado por ele é o da "desglobalização". O economista lembrou que, por décadas, a globalização foi um fator crescente, levando a mais fluxos de comércio e capital internacionais, num movimento que beneficiou os emergentes e os deu um papel crescente na economia global. "O risco para próximos anos é que isso se reverta. Na verdade, a globalização já tinha se estagnado nos anos recentes, com movimentos contra a globalização em função da incapacidade da sociedade de obter os benefícios da globalização", pontuou.

Os países saíram ganhando, mas dentro de cada um, há quem ganhe e quem perca, e as sociedades não souberam dar os apoios necessários para os que perderam, conforme o diretor. "Por isso teve o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a eleição de Donald Trump e vários outros exemplos no mundo. A pandemia intensifica esse movimento que já existia", citou. "O pêndulo histórico estava a favor da globalização, já vinha mais para o centro e agora segue para outra direção, de mais isolacionismo, protecionismo, maior fragmentação, revisão das cadeias globais de valor. Agora é 'tchau, globalização e olá fragmentação'".

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