Tiago Silva/Estadão/15/01/2014
Tiago Silva/Estadão/15/01/2014

Paris Filmes mira TV, games e teatro

Distribuidora para cinema amplia investimento em produção e se aventura por novos segmentos

Fernando Scheller, SÃO PAULO

03 Dezembro 2018 | 05h00
Atualizado 03 Dezembro 2018 | 17h20

Depois de 50 anos dedicando-se ao cinema, a distribuidora Paris Filmes está dando um salto em direção ao modelo dos estúdios americanos. A empresa brasileira, fundada em 1968, é parceira da americana Lionsgate e distribui os longas da companhia em toda a América Latina – uma tarefa que inclui promover franquias bilionárias como Jogos Vorazes e Crepúsculo. Na virada do negócio que será concluída em 2019, a Paris ampliará o foco no conteúdo próprio – e prevê se estabelecer em novos setores. 

A migração para o desenvolvimento e produção de conteúdo próprios começou há cinco anos, segundo Márcio Fraccaroli, presidente da Paris Filmes. Enquanto o cinema brasileiro começava a ganhar fama internacional com produções premiadas – como Central do Brasil e Cidade de Deus –, a Paris detectou um nicho pouco explorado: produções populares, capazes de levar milhões de pessoas às salas de cinema. Foi assim que a empresa coproduziu e distribuiu comédias como De Pernas para o Ar (com Ingrid Guimarães) e Minha Mãe é uma Peça (com Paulo Gustavo).

A partir desses êxitos, as produções desenvolvidas pela Paris ajudaram a compensar os anos em que a “safra” da Lionsgate não incluía “blockbusters”. Para atrair as classes C e D aos cinemas, a empresa também foi buscar campeões de bilheteria em produções voltadas ao público evangélico – como Os Dez Mandamentos e Nada a Perder, biografia de Edir Macedo, que receberam empurrão considerável da distribuição de ingressos pela Igreja Universal. Com essas estratégias, a Paris foi vice-líder do mercado no ano passado. Neste ano, deve ficar em terceiro lugar, atrás de Disney e Warner. 

Recentemente, a Paris fez uma aposta em uma nova temática – em outubro, lançou O Doutrinador, uma HQ nacional que foi fracasso de bilheteria. “Estamos em busca de boas histórias que tenham o potencial de ser sucesso de público”, explica Fraccaroli. “Embora essa experiência com adaptação de HQ não tenha dado certo, vamos seguir nesses conteúdos.”

A ênfase no sucesso de bilheteria visa à criação de um “efeito cascata”. Graças ao relacionamento com a Lionsgate, a Paris aprendeu que o valor de venda de um filme nos serviços de vídeo sob demanda, como NetNow, Google Play e iTunes, está diretamente relacionado à popularidade que a produção atingiu na tela grande. Embora produtoras americanas já desenvolvam filmes de baixo orçamento para o consumo caseiro, Fraccaroli quer continuar a produzir longas-metragens que tenham o potencial de mobilizar milhões de espectadores. 

Televisão

Para criar propriedades intelectuais que possam ser exploradas por vários anos, a Paris também está de olho no mercado de televisão. A companhia já fechou três produções dramáticas – para HBO, Netflix e Amazon Prime. Embora essas companhias exijam a propriedade do conteúdo que encomendam, Fraccaroli diz que a Paris, preferencialmente, tentará ser sócia do conteúdo que desenvolver internamente. 

Como a equipe da Paris é enxuta – o time próprio tem hoje 89 pessoas –, a empresa terceiriza a maior parte de suas produções. Em momentos em que grandes projetos estão em fase de finalização – como ocorreu recentemente com Nada a Perder e Laços, filme em que os personagens da Turma da Mônica ganharão versões de carne e osso –, esse contingente chega a triplicar.

Embora as produtoras independentes – segmento que hoje inclui nomes como Conspiração, O2 e Gullane, entre outras – devam continuar a receber tarefas da Paris Filmes, o modelo é “perigoso”, pois visa a transformar essas empresas em meras executoras, segundo Mauro Garcia, presidente executivo da Bravi, associação do setor. 

Desde que a legislação estabeleceu uma cota de conteúdos nacionais para os canais de TV por assinatura, lembra Garcia, as produtoras se tornaram coproprietárias dos filmes e séries que desenvolvem. Ele admite, porém, que serviços como Amazon e Netflix, que exigem a propriedade integral dos conteúdos, não seguem esse esquema. 

Teatro e games

Com o objetivo de dar mais visibilidade a projetos de cinema e TV, a Paris também vai entrar nas áreas de eventos, games e na produção teatral. A companhia está planejando uma cinebiografia de Ney Matogrosso. Fraccaroli diz que, antes de iniciar a produção, a ideia é montar uma exposição e um musical sobre a vida do cantor. Assim, quando chegar a hora de lançar o filme, o público potencial para o projeto será maior. Já no caso da animação Amígdalas – desenvolvida para o canal Gloob –, o caminho será o do desenvolvimento de um jogo para celular com os personagens da série. 

A reinvenção da Paris não inclui só a atração de talentos em novas áreas, mas mudanças também na sua tradicional sede, na Avenida Pacaembu, em São Paulo. Uma reforma está em curso para dar ao espaço um novo “clima” aberto, que lembrará os escritórios das startups.

 

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