Yiorgos Karahalis/Reuters
Yiorgos Karahalis/Reuters

Parlamento aprova arrocho, mercado reage, mas gregos intensificam violência

Governo de Papandreou ainda precisa votar hoje lei permitindo que cortes de 78 bilhões possam ser postos em prática imediatamente

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Por uma margem apertada de votos e diante das piores cenas de violência desde o colapso da economia mundial, o Parlamento grego aprovou um novo plano de austeridade de 78 bilhões até 2015 e fez com que mercados de todo o mundo respirassem aliviados.

Mas se a batalha no Parlamento foi vencida, a aprovação fez eclodir uma verdadeira revolta em Atenas que ameaça agora a capacidade do governo em implementar a reforma. A população alerta que não cederá nem aceitará pacificamente as medidas draconianas. Hoje, o governo de George Papandreou ainda precisa aprovar uma lei permitindo que os cortes entrem em vigor imediatamente.

O pacote era a condição imposta pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para liberar mais uma parcela do resgate para a Grécia, além de negociar um novo plano de 120 bilhões para evitar um colapso do país.

Em Atenas, a percepção é de que o voto garantiu ao governo de Papandreou liquidez para continuar administrando o país. Em Bruxelas, garantiu a estabilidade do euro. Para o FMI, evitou mais uma crise mundial.

Na ruas, no entanto, a insatisfação da população explodiu. Prédios públicos foram incendiados, dezenas de pessoas acabaram em hospitais e a violência se instalou. "O real desafio é agora lidar com a recessão e com uma sociedade que não aguenta mais os cortes que estão sendo obrigada a fazer", alertou o analista político Kostas Panagopoulos, por telefone ao Estado.

Para muitos, a aprovação do novo pacote apenas vai prolongar a recessão no país. Em 2010, quando o primeiro plano foi adotado, o desemprego no país dobrou.

repercussão. O temor era de que uma rejeição do pacote no Parlamento ontem fizesse reviver a onda de turbulência que marcou o mundo em setembro de 2008, após a quebra do Lehman Brothers. Não por acaso, a chanceler alemã, Angela Merkel, foi uma das primeiras a comemorar a decisão em Atenas. "Esse foi um passo importante para o futuro da Grécia, mas também para a estabilidade do euro."

John Lipsky, diretor-gerente interino do FMI, também comemorou, apontando que a "aprovação das medidas de austeridade é uma boa notícia".

Papandreou havia alertado que sem a aprovação do pacote, a Grécia teria dinheiro em caixa para menos de uma semana. Pelo novo plano de austeridade, está previsto a elevação de impostos para arrecadar 40 bilhões, demissão de 150 mil funcionários públicos, redução em 15% nos salários, cortes de diversos privilégios sociais, além da privatização das principais empresas e portos do país, com a meta de arrecadar outros 50 bilhões.

O plano foi aprovado por 155 votos a favor, 138 contra e 5 abstenções. Os socialistas que votaram contra acabaram expulsos ontem mesmo do partido.

No mercado financeiro, a reação foi positiva. Mas essa pode ser apenas uma reação imediata.

Tanto na UE como em outros mercados, a percepção é de que já se reconhece que a Grécia não pagará todo o empréstimo que receberá, diante da dívida que atinge 160% de seu Produto Interno Bruto (PIB). O risco país de Irlanda, Portugal, Itália e Espanha caíram e o euro ganhou terreno. A Bolsa de Frankfurt subiu 1,7%; Paris, 1,8%; e Londres, 1,5%.C

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