Parlamento grego vota hoje novo pacote

Autoridades foram dramáticas ao afirmar que Grécia vai quebrar sem um novo plano

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

A estabilidade da economia mundial depende do resultado da votação de hoje no Parlamento grego que, diante de cenas de uma batalha urbana, decidirá se aprova ou não o pacote de austeridade exigido pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para liberar recursos para o governo de Atenas.

Se não for aprovado, o governo já alertou que terá dinheiro para apenas alguns dias e a quebra da Grécia seria praticamente inevitável. Para UE e bancos privados, o impacto disso seria bem mais profundo que a quebra do Lehman Brothers, em 2008, que fez eclodir a pior crise econômica em 70 anos no mundo.

Nas ruas das cidades gregas, porém, milhares de manifestantes tentam desde ontem impedir a aprovação, em confrontos violentos com a polícia e cenas de batalhas no centro de Atenas que se estenderam noite a dentro. Cansados de cortes e de uma economia que não sai da recessão, os manifestantes se recusam a pagar pela crise da dívida e alegam que novas medidas apenas aprofundarão a crise social.

A UE resumiu de forma dramática a situação. "As próximas horas são cruciais para a estabilidade da economia mundial", afirmou o presidente do Conselho da Europa, Herman van Rompuy. "O voto é fundamental para a Grécia, para a zona do euro e para a estabilidade mundial."

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, repetiu que "não há plano B para salvar a Grécia" e as reformas precisam ocorrer, mesmo que sejam dolorosas. "O que está em jogo é o futuro da Grécia e a estabilidade financeira da Europa", completou Olli Rehn, comissário de Economia da UE.

A avaliação foi compartilhada por alguns dos maiores banqueiros, que também estão sendo chamados a ajudar, em um plano desenhado pela França. Na Grécia, economistas concordam com a avaliação da UE de que este é um momento central para o sistema financeiro global.

No Parlamento, deputados admitiam já ontem que a votação seria a mais crítica da história democrática do país desde 1974. O plano de austeridade, válido até 2015, prevê cortes no orçamento do governo de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem isso, a UE e o FMI já avisaram que não liberarão a quinta parcela do empréstimo de 12 bilhões..

O projeto prevê cortes de US$ 40 bilhões, aumentos de impostos e redução em gastos sociais. No total, 150 mil cargos públicos desaparecerão e um pacote de privatização de US$ 50 bilhões será posto em votação.

Além dos 12 bilhões, o pacote abriria as portas para que a UE conceda um segundo resgate para a Grécia de 120 bilhões, substituindo o programa de 110 bilhões fechado em 2010.

O presidente do Banco Central grego, George Provopoulos, não minimizou a crise e alertou ontem que a Grécia estaria cometendo "suicídio" se não aprovar o pacote. O governo socialista prevê um caos social caso seja derrotado. "Se não conseguirmos a aprovação, veremos uma corrida do povo aos bancos e veremos tanques sendo usados para proteger os bancos", afirmou o vice-primeiro-ministro, Theodoros Pangalos.

O discurso do terror foi usado pelo governo para atrair votos da oposição conservadora e de socialistas que estão hesitando. No Parlamento com 300 deputados, o governo tem uma maioria de apenas seis votos.

Revolta. Desde ontem, sindicatos convocaram uma greve geral no país, paralisando a economia. Barcos, trens, aviões, parte de hospitais e todo o serviço público cruzaram os braços. Ao longo do dia, a manifestação que ocupava as ruas se transformou em confronto aberto. No início da noite, já eram 24 feridos, entre manifestantes e policiais. O movimento Indignados, que reúne centenas de jovens desempregados ou com salários baixos, ocupou também as ruas, enquanto o Partido Comunista driblou a segurança para colocar nas ruinas de Acrópolis um cartaz anunciando que a população é contra a exigência do FMI.

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