Reuters | REUTERS
Reuters | REUTERS

Parque de diversões

Para garantir caixa e rentabilidade, gigantes de mídia têm apostado no futuro dos parques temáticos

The Economist

09 de maio de 2016 | 05h00

No mês que vem, quando a Disney inaugurar em Xangai seu mais novo parque temático, uma das primeiras atrações que chamará a atenção dos visitantes será o Castelo de Histórias Encantadas. Seus florões dourados e pináculos azuis se erguerão a 60 metros acima do centro do parque, fazendo dele o maior dos castelos de todos os seis parques de diversões da empresa. Um dossel translúcido recobrirá uma montanha-russa baseada na franquia de ficção científica Tron; embarcações robóticas levarão seus passageiros até a gruta de Davy Jones, um vilão bucaneiro da série Piratas do Caribe.

Foi em razão de maravilhas como essas que Bob Iger, presidente e CEO da Disney, prometeu que esse será o “parque tecnologicamente mais inovador da companhia”. A um custo de US$ 5,5 bilhões, será também o mais caro. Mas a Disneylândia de Xangai representa apenas uma fração dos investimentos que a empresa vem fazendo em seus parques temáticos. Só nos últimos cinco anos, a divisão de parques da Disney foi contemplada com uma injeção de US$ 14 bilhões. Foram realizadas reformas abrangentes em todos os parques da empresa, que também devem receber grande número de novas atrações.

A Disney não está sozinha. Outros conglomerados de mídia também fazem alarde da inauguração de novos parques, ou da expansão de parques já existentes. A Universal Studios, que pertence à Comcast, tem seu próprio parque chinês em construção — um projeto de US$ 3,3 bilhões, que deve ser inaugurado em 2019, em Pequim. A Paramount Pictures, da Viacom, pretende erguer um parque de diversões igualmente caro e sofisticado nos arredores de Londres. E, em Dubai, a Sony Pictures e a Lionsgate figuram entre os estúdios que, em colaboração com empreiteiras locais, estão construindo um enorme complexo de parques temáticos, com inauguração prevista para o fim deste ano.

Talvez pareça difícil conciliar essa onda global de investimentos com os desafios inerentes ao negócio dos parques de diversões. Proporcionar recreação a crianças de dez anos e a seus pais é, em si, uma proeza mágica. E, como qualquer um familiarizado com a terrível história da Euro Disney sabe, se a construção de um parque exige recursos a rodo, sua manutenção consome rios de dinheiro.

O entusiasmo recente com os parques de diversões é, em parte, reflexo da turbulência por que passam os grandes grupos de mídia. Como está cada vez mais difícil encher o caixa com cinema e televisão, as empresas querem extrair ouro de suas vastas bibliotecas de conteúdos e, ao mesmo tempo, chamar a atenção para suas novas produções. A Disney e a Comcast têm conseguido fazer isso bastante bem com seus parques, que funcionam como confiáveis usinas de geração de lucros. A contribuição da Universal Studios para os lucros da Comcast nos últimos cinco anos foi maior tanto do que a da emissora de TV NBC, quanto do que a do estúdio de cinema Universal Pictures, dois outros integrantes da mesma família corporativa. Na Disney, em quatro dos últimos cinco anos, os retornos sobre os ativos da divisão de parques temáticos foram melhores do que os do estúdio de cinema da companhia.

Os grupos de mídia também veem nos parques temáticos uma boa ferramenta para explorar lucrativamente algumas mudanças demográficas e econômicas. Nas próximas duas décadas, quase 3 bilhões de pessoas passarão a ter um poder aquisitivo de classe média. Com renda para bancar gastos supérfluos, essa onda de consumidores deve criar enorme demanda por “passeios recreativos”. A bilheteria dos parques asiáticos já vem crescendo em ritmo superior ao de todos os outros mercados do mundo; a continuar assim, a organização setorial Themed Entertainment Association prevê que em quatro anos o mercado do Extremo Oriente ultrapassará o das Américas do Norte e do Sul. A movimentação na área em frente à Disneylândia de Xangai sugere que a previsão tem realmente grandes chances de se realizar: mesmo faltando mais de um mês para a inauguração do parque, milhares de pessoas se aglomeram todos os dias em frente a seus portões cobertos por encerados, na esperança de encontrar uma fresta para espiar e ver como são as coisas lá dentro.

Riscos. Para os conglomerados de mídia, um elemento favorável é que eles não assumem tantos riscos como em décadas passadas. Muitos se limitam a licenciar seus personagens, histórias e outras propriedades intelectuais a empreendedores locais, em troca de uma participação no faturamento bruto ou de outros emolumentos. Isso garante um fluxo de receitas relativamente estável, mesmo se o parque não estiver dando lucro. Em acordos desse tipo, os licenciadores geralmente têm menos controle sobre o produto final, e o potencial de retorno é limitado. Mas, para empresas como Paramount e Sony, que só agora começam a entrar no segmento, o modelo tem se mostrado atraente.

Por sua vez, as empresas que já têm experiência com parques preferem formar joint ventures, assumindo mais riscos, mas, em contrapartida, mantendo maior controle e obtendo retornos mais suculentos. Nesses acordos, os grupos de mídia entram com a propriedade intelectual, o projeto, a expertise gerencial e algum dinheiro em troca de participação acionária e emolumentos. Mas cedem a propriedade dos ativos do parque para investidores locais, que ficam com o controle acionário do empreendimento e arcam com grande parte dos custos de construção. A Disneylândia de Xangai, por exemplo, resulta de uma parceria desse tipo.

Ainda que os parques temáticos pareçam um negócio fabuloso, nem por isso estão totalmente livres de risco. Com a economia crescendo a passo de tartaruga, talvez seja mais difícil financiar novos projetos. E, como a maioria das pessoas que frequentam os parques vem de lugares geograficamente próximos, a bilheteria aumenta e diminui de acordo com as flutuações da renda local.

Em caso de recessão propriamente dita, os estragos podem ser ainda maiores: em 2009, pior ano da recessão global iniciada em 2007, os lucros dos parques de muitos conglomerados despencaram, incluindo os da Disney. Por uma questão de prudência, as gigantes de mídia não deveriam pôr suas expectativas em relação aos parques temáticos em alturas tão formidáveis quanto as das torres e torreões de seus castelos encantados.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.