Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Parques eólicos trazem melhorias para a população

Famílias têm terras regularizadas e sobrevivem com dinheiro de arrendamento

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2015 | 03h00

A paisagem de Maria Domerina Tavares de Lira, que há 44 anos mora na Fazenda Ameixa II, é nova. Nos últimos meses, o quintal de terra batida, protegido apenas por uma cerca feita de galhos secos, ganhou um novo elemento: uma gigantesca torre de aço com quase 100 metros de altura, que em breve vai gerar energia elétrica com a força do vento para toda a população brasileira. Dona de 45 hectares de terra, Maria Domerina tem dois desses “cataventos” em sua propriedade. “A empresa queria construir três torres, mas fiquei com medo de tomarem minhas terras e só deixei colocarem duas. Qualquer coisa tinha uma área de reserva”, diz a dona de casa, que recebe R$ 1,3 mil por mês para arrendar parte de seu lote.

Aposentada e com cinco filhos sem emprego fixo, o dinheiro do arrendamento tem sido uma salvação. Antes a família vivia de duas aposentadorias, dela e da mãe, que morreu. Agora o dinheiro das torres tem bancado as contas e ainda dá para fazer alguns reparos na casa, de sete cômodos. A primeira providência, diz ela, foi pintar o imóvel que há anos não recebia uma “mão de tinta”. Também comprou arame para substituir a cerca de galhos. “Hoje em dia me arrependo de não ter deixado construírem mais uma torre. A renda seria maior”, diz ela, que tem 69 anos.

No município de Parazinho, o cenário de um antigo assentamento também tem tido mudanças radicais, não apenas pelas dezenas de torres eólicas no entorno da comunidade. Com o dinheiro dos 32 aerogeradores instalados na propriedade, cada uma das 29 famílias tem direito a R$ 1 mil por mês. O reflexo da renda extra está no amontoado de areia, pedra e cimento em frente às residências, quase todas em reforma. “Fiz um alpendre (varanda), troquei o portão e dividimos o lote com muros”, diz o morador Atiliano Carlos de Souza, que vive na casa com a mulher Maria de Fátima da Silva e Souza.

Para ele, no entanto, o melhor benefício do parque eólico, construído pela CPFL, é a regularização da terra da comunidade. O local era uma fazenda que foi comprada com dinheiro do Banco da Terra. O problema é que as famílias, que sobrevivem da agricultura familiar (milho, feijão e mandioca), não conseguiram pagar as parcelas anuais e ficaram inadimplentes. “Mas, com a construção do parque, o acordo foi que a empresa pagaria a dívida e descontaria do nosso pagamento durante cinco anos”, diz Souza. Portanto, dos R$ 1 mil a que cada morador tem direito, a empresa tem pagado R$ 500.

O casal Rafael Luiz de Andrade e Maria Anunciada Silva reclama do desconto. “Por enquanto, estamos recebendo pouco por causa da dívida, mas acreditamos que vai aumentar”, diz Andrade. Mesmo assim, eles já construíram uma cozinha nova e planejam um novo alpendre. “Se não tivesse esse dinheiro, teríamos de ir embora daqui, pois não tem o que fazer, não tem onde trabalhar.” 

Projetos sociais. Os projetos eólicos – e em breve os solares – não trazem benefício apenas para a população que arrenda suas terras. Carentes de emprego e de auxílio do Estado, muitos moradores precisam só de um empurrão, como a aposentada Rita Francisca da Silva, que mora num assentamento próximo de João Câmara. Com a ajuda de um programa social montado pela CPFL, ela e outras 79 famílias estão conseguindo plantar culturas como milho, mandioca e algumas verduras. “Neste ano, a seca não tem ajudado muito, mas agora temos uma bomba de água para irrigar parte da plantação. O único problema é que o custo da energia elétrica é alta”, diz ela, que mora no local há 20 anos.

A presidente de uma associação de deficientes em João Câmara, Eunice Maria Xavier, também tem comemorado a construção dos parques eólicos no Estado. Depois de anos de luta, ela conseguiu ampliar o espaço onde atende 149 associados e ganhou novos equipamentos para a produção de vassouras e sabão. As vassouras são feitas com garrafa pet e o sabão, de óleo de cozinha. A produção é vendida nos supermercados da região e na associação. “O principal entrave é a falta de matéria-prima para fazer as vassouras. É difícil encontrar garrafas pet por aqui.”

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