Taba Benedicto/Estadão
Projeção da FGV indica recuperação em alguns setores da economia, puxada principalmente por segmentos da indústria Taba Benedicto/Estadão

Parte da indústria puxa otimismo na retomada, diz FGV 

Melhora da atividade se dá de forma irregular entre os setores; metalurgia, indústrias farmacêuticas e químicas estão na dianteira

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 05h00

RIO - A melhoria das perspectivas de crescimento da economia neste ano, por causa do desempenho acima do inicialmente esperado no começo do ano, ainda é marcada pela desigualdade de desempenho entre os setores diante da pandemia. Alguns ramos industriais, como as indústrias metalúrgica, farmacêutica e química, estão na dianteira da retomada, indicam dados das sondagens de confiança da Fundação Getulio Vargas (FGV), obtidos com exclusividade pelo ‘Estadão/Broadcast’.

Segundo Aloisio Campelo Júnior, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV), os quatro segmentos têm puxado o bom desempenho da confiança empresarial, especialmente os de metalurgia e química, pelo peso relevante que têm na atividade industrial e na economia como um todo.

Enquanto o setor farmacêutico tem expandido seus ganhos pela característica singular da crise – provocada por uma pandemia –, os demais segmentos têm em comum a produção tanto de insumos quanto de bens finais para o mercado doméstico e também internacional.

“Os produtos intermediários estão bem no mundo todo. Tem uma certa demanda, certa carência, o que muita gente chama de desestruturação das cadeias produtivas, especialmente no início da pandemia. A China começou a demandar muito insumo para a recuperação deles. Existe uma antecipação a eventos futuros”, disse.

Por outro lado, os subsetores ainda bastante prejudicados na economia são o comércio de tecidos, vestuário e calçados; outros serviços prestados às famílias, que inclui academia e salões de beleza; serviços de alojamento, como o de hotelaria; serviços de alimentação, entre eles os restaurantes; e outros serviços de transportes, que inclui a aviação. “O consumo de bens já está em níveis acima do pré-pandemia, o que está segurando é o consumo de serviços”, afirmou.

No caso do comércio de tecidos, vestuário e calçados, o patamar de consumo se mantém abalado por causa do trabalho remoto e da menor circulação de pessoas.

Menos roupa e sapato

“Ao que parece, com o home office, as pessoas ainda não voltaram a consumir esses produtos como consumiam antes. Gasta-se menos roupa e menos sapatos, por exemplo, porque se anda menos”, afirmou Campelo Júnior.

A confiança empresarial chegou a ser abalada nos primeiros meses deste ano pelo recrudescimento da pandemia de covid-19, especialmente em março. No entanto, o choque não foi tão intenso como o do início da crise sanitária, entre março e abril de 2020, e a recuperação foi bem mais dinâmica, o que sugere melhora nos próximos meses, acredita o economista.

Campelo Júnior menciona que as medidas restritivas para conter a disseminação do novo coronavírus não foram tão rigorosas este ano, enquanto que a discussão sobre a reedição de medidas de socorro do governo às empresas, como as voltadas às concessões de crédito e manutenção do emprego, pode ter ajudado na recuperação mais rápida do otimismo empresarial.

A confiança empresarial apurada pelo Ibre/FGV vinha perdendo fôlego gradualmente desde novembro do ano passado, até recuar 5,6 pontos em março. No entanto, em abril, houve um crescimento de 4,3 pontos, para o patamar de 89,8 pontos, apenas 6,0 pontos aquém do resultado de fevereiro de 2020, no pré-pandemia.

“Como as coisas não vão voltar ao normal imediatamente, os segmentos que dependem de aglomeração vão ter uma melhora gradual. A partir do momento que houver uma percepção de que a maior parte da população está sendo vacinada, até o setor de serviços pode ter uma expansão temporária mais forte”, previu Campelo Júnior, lembrando que há um consumo represado de serviços por parte das famílias.

No consumo de produtos, isso aparece na produção industrial do IBGE, que caiu 2,4% em março ante fevereiro, depois de ter recuado 1% no mês anterior. Pesou no resultado o tombo de 8,4% na produção de veículos, afetada pela falta de peças.

Com novos clientes e lançamentos, setor químico vira o jogo 

A indústria química Tecpon, de Cachoeirinha (RS), chegou a ter produção e vendas afetadas no início da pandemia. Fornecedora de produtos de sanitização, a empresa de Newton Mario Battastini reduziu suas vendas para hotéis, restaurantes e até hospitais, depois do cancelamento de cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais. Para enfrentar a crise, Battastini apostou no aumento da demanda da indústria alimentícia, além do lançamento de novos produtos, como um gel antisséptico que substitui o álcool em gel, para driblar a escassez e encarecimento de matérias-primas importadas. Como resultado, o empresário conseguiu manter todos os 68 funcionários trabalhando ao longo da crise sanitária, sem demissões.

“Ainda não superamos o nível de produção do pré-pandemia, mas tranquilamente alcançaremos esse patamar ainda neste primeiro semestre. Estávamos usando cerca de 79% da nossa capacidade instalada antes da pandemia, agora já estamos operando com 65% da nossa capacidade de produção”, contou Battastini, diretor e proprietário da empresa.

A fabricação de produtos químicos de uso industrial teve alta de 0,81% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao mesmo período de 2020, enquanto as vendas internas avançaram 7,66%, segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

O cenário de demanda em alta, por causa da recuperação da economia, e de preços elevados do aço ajudou o movimento no setor de siderurgia. A Usiminas anunciou um crescimento de 10,6% nas vendas totais da unidade de siderurgia, na comparação com o quarto trimestre de 2020, para 1,254 milhão de toneladas de aço. É o maior volume trimestral de vendas desde o segundo trimestre de 2015.

Ao apresentar os resultados do primeiro trimestre da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no fim de abril, o presidente da empresa, Benjamin Steinbruch, disse que a tendência de crescimento da demanda continua no segundo trimestre e que a produção de maio e junho já está comercializada.

“Estamos pressentindo que talvez venha uma retomada mais forte”, afirmou o presidente executivo do Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes. / COLABOROU WAGNER GOMES

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Economia surpreende e leva a revisão de projeções do PIB para este ano

Recrudescimento da pandemia da covid-19 teve menor impacto sobre a atividade do que era previsto; estimativas de alta do PIB subiram de 3,2% para 3,8% e risco de recessão é menor, dizem especialistas

Daniela Amorim, Vinicius Neder, Guilherme Bianchini, Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 05h00

RIO  e SÃO PAULO - O recrudescimento da pandemia no início do ano afetou menos a atividade econômica do que o previsto inicialmente, provocando uma onda de revisões para cima nas projeções para o desempenho do PIB em 2021. Elevaram suas estimativas as corretoras XP e Ativa, os bancos de investimento Credit Suisse, UBS, Bank of America e Goldman Sachs e as consultorias MB Associados e Parallaxis Economics, entre outros. Na média, as projeções de crescimento passaram de 3,2%, em abril, para 3,8% agora, conforme levantamento do Projeções Broadcast, com 35 instituições.

Segundo economistas, os indicadores do primeiro trimestre indicaram que o isolamento social para conter a covid-19 não foi tão rígido quanto no início da crise sanitária, em 2020 – seja porque as medidas restritivas foram mais brandas seja porque as pessoas cumpriram menos as regras. Segundo epidemiologistas, o afrouxamento das medidas de proteção ajudaram a elevar o número de mortos pela pandemia para mais de 430 mil.

Embora ainda haja incertezas sobre o futuro da economia, especialmente por causa de eventuais problemas na vacinação, ficaram para trás as previsões de recessão, ou seja, de dois trimestres seguidos de retração nesta primeira metade do ano, presente em algumas análises no início de 2021.

“A expectativa, no início do ano, era que, diante da segunda onda da pandemia, precisaríamos ter um grau maior de restrição à mobilidade e que o fim do primeiro trimestre e o início do segundo seriam bastante afetados”, disse o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. “Mas isso acabou não acontecendo. A população não fez o isolamento social como se imaginava.” A MB Associados elevou a projeção de crescimento para este ano de 2,60% para 3,20%.

 

Resiliência e vacinação

Na última segunda-feira, ao comentar a elevação de sua projeção para um crescimento econômico de 4,1% este ano, contra 3,2% na estimativa anterior, o economista-chefe da XP, Caio Megale, disse que, “apesar da vacinação turbulenta e incerta”, no início do ano, “a demanda interna se mostrou muito mais resiliente ao fim do auxílio emergencial e em meio à segunda onda da covid-19 do que se esperava”.

Na visão do economista-chefe da gestora de recursos Trafalgar Investimentos, Guilherme Loureiro, as projeções mais pessimistas também davam muito peso ao impacto do fim do auxílio emergencial no início do ano. A transferência de renda turbinou a recuperação no segundo semestre de 2020. Sua retirada no início de ano, enquanto a reedição da medida era discutida no governo e no Congresso, provocaria queda na atividade econômica.

“Não pensávamos assim, nossa cabeça sempre esteve calcada no processo de reabertura”, disse o economista da Trafalgar, que já estava com uma projeção de crescimento de 4,2% este ano. Com os indicadores mais recentes, Loureiro elevou a estimativa para 4,5%.

Para Vale, da MB Associados, os brasileiros circularam mais em meio ao agravamento da pandemia, em parte, porque foram “forçados” a isso – já que as medidas do governo para apoiar famílias e empresas foram mais escassas – e, em parte, porque estão “esgarçados” com a duração da crise.

No início, as pessoas aceitaram ficar em casa e os empresários decidiram fechar as portas porque a situação era nova e apostavam que as restrições durariam menos. Agora, as empresas tiveram menos condições para aguentar fechamentos, assim como muitos trabalhadores, com o orçamento apertado, precisaram sair em busca de sustento.

Além disso, a demora do governo em reeditar medidas para apoiar famílias e empresas tem efeito ambivalente, disse Vale. O cenário é diferente de países como Estados Unidos, Inglaterra e China, em que a redução das restrições aponta para uma recuperação mais vigorosa porque a covid-19 está sendo controlada.

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Claudio Adilson Gonçalez: Economia reage, apesar da covid

A resiliência da economia evita a paralisação das atividades mesmo com a redução da mobilidade

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 04h00

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde classificou a covid-19 como pandemia. No Brasil, o Ministério da Saúde, então comandado por Luiz Henrique Mandetta, começou a fazer as primeiras advertências sobre a necessidade de distanciamento social, uso de máscaras e higiene das mãos. Apesar de Jair Bolsonaro, desde então, se declarar contrário a essas medidas profiláticas e não reconhecer a gravidade da doença, o fato é que, no ano passado, na última semana de março e durante todo o mês de abril, o Brasil quase parou.

De fato, o índice de mobilidade do Google para comércio e lazer, comparativamente ao período anterior à pandemia, chegou a cair 70%, na última semana de março/2020, tendo ficado em -60%, na média do mês seguinte. As previsões sobre os impactos da pandemia na atividade econômica eram catastróficas, para todos os segmentos. O FMI projetava que o PIB brasileiro cairia 9%, em relação a 2019.

No entanto, logo se começou a perceber que, apesar da tragédia humana com perdas de vidas e sequelas em boa parte dos recuperados, os danos econômicos da pandemia, embora significativos, eram menores do que se supunha. Mesmo antes das medidas de recomposição de renda para os mais vulneráveis e dos estímulos monetários entrarem em vigor, já se evidenciava a resiliência dos agentes econômicos.

As restrições de mobilidade estimularam as famílias que ainda não haviam perdido totalmente sua renda a produzirem em suas residências serviços antes adquiridos externamente, com a consequente elevação da demanda por bens, tais como, utensílios e eletrodomésticos, equipamentos de ginástica para substituírem a academia, produtos de informática para o home office, materiais de construção para pequenas reformas, artigos para limpeza, gêneros alimentícios que compensaram a redução da alimentação fora do domicílio, e até mesmo veículos automotores, para fugirem dos transportes coletivos.

Esse inesperado crescimento da demanda por mercadorias surpreendeu a indústria, que acabou ficando com os estoques abaixo do planejado. Como o fenômeno de recuperação rápida da demanda por bens industrializados foi mundial, o preço de matérias-primas, partes, peças e componentes, ao lado do choque de custos em commodities agrícolas, pôs combustível na inflação.

Apesar da segunda onda da covid-19 se mostrar devastadora, com o registro, até agora, de mais de 430 mil óbitos (cerca de 2.050 mortes por milhão de habitantes), as previsões dos analistas para a variação do PIB, em 2021, estão sendo continuamente revistas para cima. A MCM Consultores espera crescimento, no corrente ano, de algo entre 4,0% a 4,5%. Não é nenhuma maravilha, claro. O PIB mal voltará ao nível observado em 2019.

O que a análise detalhada desses números nos ensina?

Em primeiro lugar, quando os dados pandêmicos são controlados pelo grau de vacinação, e separados os relativos à primeira e à segunda onda, esta muito mais contagiosa e letal que a primeira, observa-se forte correlação positiva entre mobilidade e números de novos casos e de mortes, consideradas as defasagens. Bolsonaro ainda não entendeu que o aumento prematuro da mobilidade, mais do que estimular a economia, mata pessoas.

Em segundo lugar, dada a resiliência da economia, a redução da mobilidade social prejudica, mas não paralisa a atividade econômica no País.

Finalmente, o desastroso enfrentamento da pandemia, como vem ocorrendo no Brasil, apesar da recuperação da atividade mais rapidamente do que se esperava, coloca sérios desafios para a política econômica. Deterioração fiscal, pressões inflacionárias e aumento das dificuldades de retomada sustentada do crescimento econômico são os mais evidentes.

* ECONOMISTA E DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES. FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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