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Parte do mundo pode experimentar algo próximo do normal, mas Brasil não está incluso

As perspectivas pós-imunização são de fato positivas, ao menos no curto prazo e apesar dos desafios estruturais

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 04h00

A vacinação é a forma mais rápida, mais eficaz e menos custosa de diminuir a contaminação, reduzir o número de mortes e promover a retomada da economia. A isso, finalmente, até os negacionistas (de hoje ou de outrora) se renderam. Muito nos custa ainda essa longa via de convergência, mas aqui estamos.

Países onde a vacinação foi prioridade nacional, como Israel, Reino Unido ou os Estados Unidos de Joe Biden e Kamala Harris, já experimentam a volta à normalidade. Com a maior parte da população-alvo vacinada, não é de se surpreender que os índices econômicos reajam rapidamente e as perspectivas revertam o movimento de queda obstinada observado nesses longos meses de pandemia. Junte-se a isso a perspectiva de retomada integral das atividades escolares no próximo semestre e a contenção na escalada dos problemas de saúde mental observados nos últimos meses. Tem-se a sensação de que parte do mundo pode, finalmente, experimentar algo próximo do normal.

Mas esse mundo não contém o Brasil, ao menos não por ora. Apesar de termos um dos sistemas mais eficientes de vacinação do mundo, a escassez de vacinas – só explicada pela desídia do governo federal em investir nesse caminho – responde pela lentidão e relativa timidez da nossa recuperação. Há mais o que fazer mesmo na escassez, como bem mostrou Daniel Leischsenring em recente artigo no Brazil Journal. Segundo cálculos do autor, tivemos uma redução de 32% no ritmo de vacinação em maio, se comparado ao pico de abril, apesar de uma disponibilidade de vacinas que nos permitiria dobrar o ritmo atual.

A queda no ritmo se explica pela interrupção da regra de vacinação por idade e a priorização de grupos com comorbidades. Como o número de pessoas nesses grupos é de difícil estimação, estão sobrando vacinas nos postos enquanto a população geral espera ansiosa pela sua vez. A retomada dos critérios de elegibilidade por idade, mesmo que mantendo esses grupos de risco com lugar na fila prioritária, permitiria redirecionar os estoques atuais levando-os aos braços da população brasileira de forma mais rápida e eficaz. O efeito direto seria um maior número de brasileiros vacinados e a aceleração da retomada econômica. Como efeito indireto ainda reduziríamos os incentivos para o tradicional (e vergonhoso) jeitinho brasileiro em que a meia entrada da vez passou a ser o atestado falso de comorbidade.

A verdade é que as perspectivas pós-imunização são de fato positivas. Ao menos no curto prazo e apesar dos desafios estruturais – antigos e novos. É isso o que mostra o recente relatório Renovando com Crescimento divulgado pelo Banco Mundial, com análises sobre a América Latina e o Caribe. Ali fica claro que a região sofreu e sofre com a pandemia mais do que a média de outros países em desenvolvimento, inclusive com número proporcional de mortes que deverá ficar com a triste primeira colocação no mundo. 

A retração econômica, medida pela queda no Produto Interno Bruto (PIB) da região, deve mostrar uma contração de 6,7%, número substancialmente maior do que aquele a ser observado em outras regiões. Isso significa, pelos cálculos do Banco Mundial, a perda de quase 10 anos de PIB per capita em apenas um ano. As taxas de desemprego e os níveis de pobreza, mesmo parcial e temporariamente contidos pelos programas de transferência de renda e manutenção de emprego, deverão se manter elevados até que a recuperação econômica aconteça e se mantenha por algum tempo. Ou seja, desemprego, retração econômica e queda na renda foram profundas, com impactos duradouros que vão muito além do que é possível recuperar apenas com a esperada aceleração no nível de atividade no curto prazo. Ainda assim, urge acelerarmos esse processo, pois será ele o responsável pela reversão de tendência. 

Além disso, fatores favoráveis como o excesso de liquidez global; um novo (porém bem mais tímido) ciclo de aumento nos preços de commodities; taxas de juros baixas e um mercado de capitais ativo e crescentemente aquecido não estarão aí para sempre. Embora não sustentem sozinhos um necessário ciclo de crescimento sustentável, devem ser aproveitados enquanto estiverem presentes. Daí porque a prioridade deve ser, acima de tudo, conter rápida e eficazmente a disseminação do vírus por meio da aceleração da vacinação, hoje possível mesmo na escassez. Afinal, não temos mais tempo a perder. 

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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