Dida Sampaio/Estadão
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Parte dos empresários viu calada os ataques à democracia na aposta de que reformas seriam a salvação

Agora, termômetro do poder de pressão dos empresários junto aos deputados será dado na votação da PEC do voto impresso no plenário

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 04h00

O presidente Jair Bolsonaro, Arthur Lira e os líderes governistas, ao menos publicamente, deram de ombros ao manifesto de empresários e personalidades em defesa da urna eletrônica e da realização de eleições em 2022.

Segue a sequência: Bolsonaro reagiu subindo o tom com novos ataques aos ministros do Supremo (Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes) e à urna eletrônica.

Lira desdenhou e disse que não viu o comunicado. O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, alardeou que a proposta do voto impresso, derrotada na comissão, pode ser analisada pelo plenário no final da próxima semana.

O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, político tradicional que sempre teve bom trânsito como mercado financeiro e empresarial, foi para as redes sociais lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral.

Os partidos do CentrãoPSL, PP, Podemos, PTB e o Republicanos (partido da Igreja Universal) – marcaram posição na comissão indicando o voto favorável. O DEM quase liberou a bancada. E o Novo, partido alinhado a setores empresariais, liberou os seus deputados a votarem como quiserem.

Por ora, a expectativa dos articuladores é de que a pressão social tenha os mesmos efeitos da carta dos 500, lançada em março e assinada também por nomes de destaque do PIB e que fez o Congresso cobrar, e o governo se mexer para comprar as vacinas.

Ninguém duvida do peso dos nomes que assinaram o documento. Os primeiros sinais que partiram dos governistas, porém, não são os mais animadores para o movimento “Eleição se Respeita” dos empresários e da intelectualidade. Os articuladores dizem que político não passa recibo em público. Acuado, o presidente ficou ainda mais agressivo e dobrou a aposta.

O movimento terá que encorpar e se fortalecer com canais muitos diretos de pressão junto aos congressistas. O cenário mudou tão rapidamente que o manifesto do basta não será suficiente. É pouco, se quiserem fazer a diferença.

De fato, alguns dos signatários já começaram a botar a boca no trombone, como o ex-presidente da Febraban Fabio Barbosa, que em entrevista ao Estadão perguntou: “Vamos ficar quietos assistindo a isso aqui, ou vamos participar e colocar nosso ponto de vista?”.

CEO do Credit Suisse Brasil, José Olympio Pereira disse ao jornal O Globo que a “fervura aumentou, e o sapo está na panela. Temos de pular enquanto é tempo”.

Mas foi o presidente da Suzano, Walter Schalka, que tocou num ponto central ao reconhecer que o meio empresarial se omitiu por muito tempo por receio de retaliação do Estado, que cuja presença na economia representa cerca de 40%. Que gritem mais alto.

No início de janeiro, esta coluna, num dos seus textos mais lidos, apontava o desconforto com o silêncio da elite empresarial brasileira naquela semana, em que o colapso do sistema de saúde de Manaus e o risco de uma crise nacional de falta de oxigênio assombraram o País. Esta colunista perguntava: Por que se calam aqueles que costumam ser tão barulhentos? Na elite do nosso empresariado, não tem dia D nem hora H. É S, de silêncio.

O manifesto dos 500, em março, quebrou a paralisia contra o negacionismo do governo no combate à pandemia. O movimento desta semana saiu em defesa da democracia. Mas é fato que boa parte dos empresários assistiu calada ao que estava acontecendo, na aposta que as reformas seriam salvadoras.

Aliás, é com essa promessa que Lira seguiu impondo um ritmo frenético de votações, sem debate, tentando ofuscar o Senado, onde a CPI da Covid ganhou protagonismo.

O que se viu nesta semana no Congresso é que as reformas e projetos com grande impacto nas contas públicas, como o Refis, a PEC dos precatórios, o do Imposto de Renda e medidas eleitoreiras que abrem geral o cofre, vão passar na base do tratoraço com o Centrão bem remunerado pelas emendas de relator do orçamento secreto. O mercado sentiu o baque. Juros e risco subiram.

O termômetro do poder de pressão do manifesto dos empresários junto aos deputados será dado na votação da PEC do voto impresso no plenário. Lira avisou que vai pautá-la. A essa altura, o presidente da Câmara já sabe os votos que tem a favor da mudança. Se a PEC passar, terá ignorado o manifesto do PIB. Sabendo desse risco, o movimento quis mesmo é dar um sinal direto ao Senado. Eles avaliam que é Rodrigo Pacheco, presidente da Casa, quem tem o maior poder de impedir o avanço da pauta retrógrada.

*É REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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