Werther Santana/Estadão
Fundos ETF tentam ser 'espelho' de índices de ações, como o Ibovespa Werther Santana/Estadão

Parte dos fundos multimercados já rende menos do que a poupança

De 3,8 mil fundos do tipo analisados por estudo feito para o ‘Estado’, 500 entregaram rendimento menor que o da caderneta

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2019 | 05h00

Juros baixos e elevadas taxas de administração têm derrubado a remuneração de fundos de investimento no Brasil. Levantamento feito para o Estadão/Broadcast revela que, de janeiro a julho deste ano, mais de 500 fundos multimercados entregaram ao investidor rendimento inferior ao da caderneta de poupança, que rendeu pouco mais de 2% no período. O mesmo fenômeno ocorre entre os fundos de ações: 110 carteiras não conseguiram surfar na alta de 16% da Bolsa paulista e ficaram atrás da poupança.

Ao contrário do passado, quando o rendimento de 1% ao mês era considerado fácil por muitos gestores, os números mostram que uma nova realidade se impôs à indústria de investimentos do Brasil. De um lado, gestores tentam fugir do menor juro da história com a busca por aplicações seguras e mais rentáveis. De outro, o setor não alterou comissões e taxas e continua cobrando porcentuais muito parecidos com os vistos quando o juro brasileiro estava em dois dígitos.

“O investidor precisa fazer pressão e mudar sua mentalidade. Ele também precisa entender que hoje só a referência do CDI (principal indicador da renda fixa e da indústria de investimento no Brasil) não importa”, afirma o coordenador do mestrado em economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Rochman, que produziu o estudo, analisando 3.818 fundos multimercados e 1.540 carteiras de ações. Segundo ele, com a tendência de novas quedas nos juros à frente, a vigília por parte dos investidores deve redobrar.

A taxa Selic está em 6% ao ano e a referência do CDI gira em torno de 5,9% ao ano. Assim, a principal referência para os investimentos no Brasil foi de 3,6% de janeiro a julho de 2019.

Para piorar, as taxas de administração dos fundos não caíram e, proporcionalmente, acabam sendo cada vez maiores, porque abocanham parte maior do rendimento. Com juros de dois dígitos, essa cobrança era mais diluída e menos percebida. Nos fundos multimercados, a taxa mais comum é de 2% de administração acrescida de 20% de taxa de performance – ou seja, um pedágio adicional quando a rentabilidade é maior que a referência.

Uma conta rápida: se o fundo tem boa gestão e consegue pagar 110% do CDI, mas cobra 2% de taxa de administração, o rendimento que sobrará ao investidor será de 3,8% no ano.

O professor da FGV destaca que a melhor forma de o investidor analisar o fundo é manter atenção às taxas de administração e considerar o rendimento, usando como referência o CDI mais a rentabilidade adicional, ou seja: CDI (que hoje está em 5,9% ao ano) + x%. Dessa forma, defende o professor, fica mais fácil visualizar a rentabilidade.

O engenheiro Rodrigo Quaresma trocou os títulos do Tesouro por fundos, um deles é multimercado. Ele admite, porém, que poderia estar mais atento ao investimento. “Eu deveria acompanhar mais, mas falta tempo. Peço que os gerentes ou o pessoal da corretora acompanhe e me sinalize o que for necessário”, conta. “Saí do Tesouro em parte porque as taxas não estavam me agradando quando comparadas ao rendimento. Mas é muito recente, ainda não sei se fiz um bom negócio.”

Retorno baixo

O coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV, William Eid Júnior, avalia que o principal problema é a baixa rentabilidade de uma grande parcela dos fundos e não as taxas cobradas em si.

De qualquer modo, ele reconhece que muitos gestores cobram a administração sem entregar nenhum diferencial. “Essas taxas só se justificam quando oferecem um retorno diferenciado. Se o fundo está entregando apenas o CDI, é melhor o investidor comprar o ETF (fundos negociados na Bolsa que buscam replicar uma carteira de ações que compõem determinado índice de mercado), que tem um custo baixo”, comenta.

A consultora de investimentos da Órama, Sandra Blanco, afirma que o Brasil deverá seguir os passos já observados nos Estados Unidos, onde fundos multimercados e de ações começaram a reduzir as taxas de administração. Por aqui, o movimento começou nos fundos de renda fixa, com algumas casas zerando taxas de carteiras com papéis do Tesouro. No entanto, ela reconhece que é justificável a cobrança de 2% para fundos que trabalham com maior volatilidade, visto que é esse capital que remunera a gestora.

Ajuste

O vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Carlos André, pondera que é natural que em determinado período uma parcela dos fundos não tenha desempenho positivo. Por isso, uma análise tem de ser feita utilizando uma janela maior de tempo, diz. 

Em relação às taxas, André afirma que o mercado tende a se ajustar e uma mudança em relação às cobranças é decisão de cada participante e não da associação.

Mais risco

O professor William Eid Jr., da FGV, diz que apesar do mau desempenho dos 500 fundos neste ano mostrado no levantamento, não se pode esquecer de que eles representam algo em torno de 13% do total dos fundos analisados.

“Ao escolher um fundo multimercado, o investidor tem cerca de 87% de chances de acertar um fundo que tenha bom resultado.” Segundo ele, se considerado o período de 1.º de outubro do ano passado a 31 de julho de 2019, o rendimento médio dos fundos multimercados abertos foi de 183% do CDI.

Eid explica que os fundos multimercados podem ser considerados um segundo passo para quem decide sair da caderneta da poupança e assumir um pouco mais de risco – o primeiro são os fundos de renda fixa. “Os fundos de renda fixa têm títulos diferentes, de mais ou menos longo prazo, e gestão bastante ativa, que a pessoa física não conseguiria fazer sozinha. Além disso, eles têm boa parte em crédito privado, que são ativos complexos para o investidor iniciante apostar sozinho”, diz. 

Já os multimercados, segundo o professor, “cresceram muito em razão da valorização da Bolsa”. Neles, é possível diversificar os investimentos entre todas as classes de ativos em diferentes proporções para alcançar a rentabilidade desejada. / COLABOROU TALITA NASCIMENTO

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Taxas de gestores consomem 19% da rentabilidade do cliente

Alta demanda por fundos de investimento faz custo subir; em 2016, taxas eram equivalentes a 13% do rendimento

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2019 | 05h00

Apesar de centenas de fundos de investimentos terem recentemente apresentado rendimento menor até do que o da caderneta de poupança, a remuneração dos gestores tem crescido. Em 2016, a gestão dos fundos foi remunerada, em média, em 13% do ganho financeiro dos investidores. Em 2019, essa parcela cresceu para 19%, segundo levantamento da plataforma de investimento Vérios, feita a pedido do Estadão/Broadcast.

 Os dados – da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) – mostram que, em alguns casos, gestores chegam a ganhar até três vezes mais que os clientes.

Foram analisados 310 fundos, com R$ 138 bilhões de patrimônio líquido. Em média, 90% dos fundos recolhem taxa de performance – aquela paga quando a carteira tem rendimento superior à referência do fundo (meta de retorno estabelecida na compra do produto). 

Cobrança

A maior fonte de faturamento dos gestores é a taxa de administração, que responde por 67% dos ganhos, ao passo que as taxas de performance contribuem com 33%.

Da taxa de administração média de 2% cobrada dos investidores, entre 0,5 e 0,8 ponto porcentual fica com quem vende os fundos, ou seja, plataformas e family offices (gestores de fortunas), por exemplo.

O Estadão/Broadcast apurou que, no mercado, ainda não existe uma discussão em torno de redução dessa cobrança na maioria das gestoras. A demanda pelos fundos de investimento está muito elevada, diante da queda das taxas de juros, e os investidores estão colocando mais dinheiro em fundos tradicionais, com taxa de administração de 2% ou mais, que tira a pressão para a discussão sobre a cobrança. 

O aumento da demanda ocorre num momento em que o acesso a esses produtos e a facilidade de captação têm crescido com as plataformas digitais.

Demanda

Uma fonte do alto escalão de um banco de investimento destaca que, hoje, esse ambiente de maior demanda pelos fundos torna mais difícil um movimento de redução de taxas pela indústria.

No atual cenário de juro baixo – a taxa Selic está em 6% ao ano, nível mais baixo da história –, a entrada de recursos nos fundos tem batido sucessivos recordes. 

A indústria de fundos alcançou R$ 161,7 bilhões de captação líquida de janeiro a julho, valor 226% maior que o registrado no mesmo período de 2018 (R$ 49,6 bilhões). Os aportes foram liderados pelos fundos multimercados e de ações, que somaram R$ 37,9 bilhões e R$ 32,6 bilhões de entrada líquida, respectivamente, de acordo com dados da Anbima.

O presidente da Vérios, Felipe Sotto-Maior, afirma que o investidor ainda não tem noção do que paga quando investe nos fundos e que uma mudança só será observada quando houver pressão dos clientes. 

Além disso, ele acredita que a expansão da indústria de ETFs (sigla para Exchange Traded Funds) no Brasil, já gigante no exterior, será outra forma que conduzirá os fundos de investimento para patamares mais baixos de cobrança. 

Os ETFs são fundos de ações negociados na Bolsa que buscam replicar uma carteira de ações que compõe determinado índice de mercado e têm custo mais baixo para o investidor. Os principais no mercado brasileiro têm taxa de administração de 0,3%.

Sotto-Maior frisa, no entanto, que o acesso a esses produtos não é facilitado pelas plataformas digitais e que falta interesse em distribuir os ETFs, que podem ser atrelados aos índices de ações, como o Ibovespa, ou a índices de renda fixa.

Para o executivo da Vérios, com taxas de administração tão elevadas, os gestores acabam ampliando o risco de seus portfólios para entregar mais rentabilidade. Segundo ele, essa não deveria ser a solução, já que o risco tomado acaba sendo do próprio investidor. “A solução é rever as taxas”, afirma. Com essa redução, o investidor poderia ter mais retorno sem aumento do risco. 

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