Participação da indústria no PIB é a menor desde 1955

Estudo da Fiesp mostra que o peso do setor na economia foi de 13,3% em 2012 e pode cair ainda mais

Roger Marzochi, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h10

A participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 13,3% em 2012, retrocedendo ao nível que o setor tinha na economia em 1955, antes da implantação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek. E, mantida as atuais condições de crescimento, essa participação deverá cair para 9,3% em 2029.

Os dados fazem parte da pesquisa "Por que reindustrializar o Brasil?", elaborada pelo Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O estudo aponta duas metas para tirar o País da inércia: dobrar a renda per capita em 20 anos, com um crescimento do PIB de 4,01% ao ano e um crescimento médio de 3,52% da renda per capita; ou alcançar essa meta em 15 anos, com alta do PIB de 5,29% ao ano.

"Essa meta exige uma estratégia que passa por aumentar o investimento e a participação da indústria no PIB, com planejamento de longo prazo. Não temos hoje estratégias bem definidas, trabalhamos no improviso, onde as decisões são tomadas por pressões de setores mais organizados", diz o diretor do Decomtec, José Ricardo Roriz Coelho. "No ano que vem, vamos ter eleições e nosso desejo é colocar essa reflexão para que a sociedade possa perceber que podemos ir muito mais longe."

O estudo trabalha com o conceito de "desindustrialização", que não significa o fechamento de empresas, mas a sua participação na geração de riquezas em relação a outros setores da economia. A desindustrialização ocorre quando a indústria de transformação atinge uma renda per capita elevada, momento a partir do qual há o fortalecimento do setor de serviços.

No caso dos Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido e Itália esse fenômeno ocorreu a partir do momento em que a renda per capita média atingiu US$ 19,5 mil. "Até US$ 10 mil de renda per capita, as pessoas procuram produtos, querem se vestir, morar etc. Quando a renda passa disso, as pessoas começam a ter acesso a bens que não tinham antes, como geladeira, televisão, carro. Quando chega em US$ 20 mil a casa dela já está recheada de produtos e ela passa a demandar serviços, cultura, férias", explica Coelho.

Renda. O estudo analisou dados da desindustrialização de 25 países com população acima de 25 milhões de pessoas. Destes, nove conseguiram dobrar a renda per capita de US$ 10 mil para US$ 20 mil. E, segundo a pesquisa, esse movimento foi possibilitado pelo fato de a indústria representar 20% do PIB nesses países. "Há evidências de que uma maior participação da indústria de transformação no PIB e uma elevada taxa de investimento contribuem para uma maior taxa de crescimento econômico", informa o estudo.

Diferentemente desses países que se "desindustrializaram" de forma "natural" na década de 1970, o Brasil começou este processo, de acordo com a Fiesp, em 1985, sem, no entanto, elevar a renda per capita a um nível capaz de movimentar a roda da economia. Em 1985, o PIB per capita era de US$ 7,6 mil, chegando a US$ 10,3 mil no ano passado. Por isso, a Fiesp chama esse movimento de desindustrialização prematura.

A renda per capita no Brasil era 40% da renda per capita do Japão e 31,2% da renda dos Estados Unidos em 1973, quando esse processo teve início nesses dois países. O resultado desse processo, de acordo com a tese, é um PIB e uma renda per capita que evoluem muito pouco.

"No Brasil, os salários subiram, mas quando a população foi comprar produtos, pegou a indústria brasileira sem competitividade, o que incentivou a importação. Há dez anos, de cada dez produtos manufaturados consumidos, um era importado. Neste ano, de cada quatro, um vai ser importado", explica Coelho, que critica a carga tributária, a falta de planejamento de longo prazo e os gargalos na infraestrutura, que contribuem para a crise.

Para alcançar as metas estipuladas pelo estudo, Paulo Skaf, presidente da Fiesp, também defende o fim do Custo Brasil. "As fábricas brasileiras precisam ter condições de igualdade para competir com as estrangeiras. Mas o chamado Custo Brasil tem minado a competitividade brasileira", diz o executivo, em entrevista por e-mail.

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