Werther Santana/Estadão
A B3 foi uma das Bolsas que mais se desvalorizou entre as emergentes. Werther Santana/Estadão

Participação do Brasil na carteira de investidores estrangeiros cai a 0,3%

Peso do País em fundos internacionais já foi de 2,5%, mas crise política, juros baixos e debilidade econômica assustam investidores; real é a moeda emergente que mais se desvalorizou no ano

Altamiro Silva Junior e Luciana Dyniewicz, O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2020 | 05h00

O Brasil perdeu peso importante nas carteiras de investidores estrangeiros em meio ao aumento do risco político, à fraca atividade econômica e aos juros historicamente baixos. Gestores ouvidos pelo Estadão/Broadcast calculam que, nos fundos globais, a participação do País, que já foi de 2,5%, caiu para 0,3% no fim de maio, a menor desde 2015, ano marcado pela recessão e pela crise política que desencadeou o impeachment de Dilma Rousseff. Nas carteiras dedicadas aos mercados emergentes, a fatia baixou para 7%, também o menor nível desde 2015. 

Gestores alertam ainda para o risco de, com os juros perto de zero, não só estrangeiros deixem de aplicar aqui, mas também brasileiros comecem a remeter recursos para o exterior.

Nos fundos dedicados a emergentes, o Brasil chegou a ter participação de 16,5% em 2011, mesmo nível da China. Desde então, Coreia do Sul, Índia e Taiwan passaram a ter maior participação nessas carteiras que os ativos brasileiros, mostram dados da consultoria americana EPFR. A China tem hoje fatia perto de 30%.

O Brasil teve, neste ano, fuga de capital externo bem acima do nível de outros emergentes, de acordo com o Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 450 maiores bancos do mundo. No primeiro trimestre, a saída de capital foi quase o dobro da verificada na crise de 2008. Dados do Banco Central mostram que US$ 33 bilhões deixaram o País neste ano pelo canal financeiro até 22 de maio. Na B3, foram R$ 76 bilhões.

“O retorno no Brasil ficou muito baixo para um país de risco alto”, diz um gestor em Londres de um fundo dedicado a emergentes. Ele afirma que outros países oferecem juros maiores que o Brasil a um risco menor e cita o México como exemplo. Lá a taxa de juros está em 6% e o risco-país medido pelo Credit Default Swap (CDS), derivativo de crédito que protege contra calotes na dívida soberana, em 140 pontos. No Brasil, o CDS está em 240 pontos e o juro em 3%, além de ser crescente a aposta de corte para 2,25%.

“O mundo virou as costas para o Brasil faz tempo”, afirma o gestor e sócio da Mauá Capital Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central. “A imagem do Brasil está péssima no exterior”, completa ele, ressaltando que a forma como o País lida com a crise do coronavírus, “o enorme barulho político” e os juros baixos contribuem para afastar os investidores, sobretudo os de curto prazo, que aplicam no mercado financeiro, na Bolsa ou renda fixa. Os de mais longo prazo, que olham para projetos de infraestrutura, ainda mantém o país na radar, continuou ele em live realizada recentemente pela Febraban. “A percepção do Brasil lá fora hoje é a pior possível.”

Para o economista sênior para América Latina da consultoria inglesa Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, a forma “surreal” como o presidente Jair Bolsonaro está lidando com a pandemia, minimizando seus efeitos, vai contribuir para estender sua duração, piorando ainda mais a atividade e trazendo mais preocupações sobre as contas fiscais locais, que já estavam deterioradas. 

Moeda e Bolsa

A postura do presidente, aliada à queda dos então ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Nelson Teich (Saúde) e Sérgio Moro (Justiça), além dos rumores de que o ministro Paulo Guedes (Economia) também estava com o cargo ameaçado, contribuiu para deixar o Brasil com a imagem abalada entre investidores, que fugiram do País.

No acumulado do ano até 4 de junho, o real foi a moeda emergente que mais se desvalorizou, com recuo de 21%. “O real perdeu muito nesse período mais turbulento, com a saída de ministros e o risco de uma mudança na agenda econômica, quando se falou no plano Pró-Brasil (programa da ala militar do governo para reativar a economia com obras públicas). Nesse momento, o mercado ‘precificou’ o pior dos mundos”, diz o economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria.

A B3 também foi uma das Bolsas que mais se desvalorizou (-18,9%), ficando atrás apenas da colombiana (-30%), da espanhola (-21%) e da peruana (-19%). 

Nas últimas semanas, porém, os ativos brasileiros começaram a se recuperar. O economista Álvaro Frasson, do BTG Pactual Digital, destaca que esse movimento se deu mais por causa do alívio no mercado internacional, com o início da reabertura da economia europeia, do que por questões domésticas. As medidas adotadas pelas autoridades monetárias dos EUA e da Europa, que inundaram o mercado com dólares e euros, também favoreceram a recuperação do real e da B3. “Quando os mercados maduros têm uma expectativa de retomada, os investidores tomam mais risco”, diz.

Foi esse cenário internacional – e não uma onda de otimismo com a economia do País – que favoreceu o governo brasileiro na captação de US$ 3,5 bilhões em títulos da dívida externa, feita na quarta-feira, em uma operação considerada de sucesso. “A captação foi bem sucedida e é explicada pela grande liquidez. Claro, as contas externas estão sob controle, o que ajuda. Mas, superado o período de pânico, o investidor busca maior rentabilidade, acaba saindo dos títulos americanos e os papéis brasileiros chamaram atenção”, diz Campos Neto.

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Analistas apontam que melhora do mercado brasileiro é 'disfuncional'

Mesmo com Bolsa perto dos 100 mil pontos e dólar abaixo de R$ 5, avaliação é que não há razão para otimismo

Douglas Gavras, O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2020 | 05h00

Apesar de o Brasil ser motivo de preocupação quanto ao avanço de novos casos da covid-19, os resultados positivos da Bolsa brasileira têm elevado as expectativas de que o fim do confinamento na China e em países europeus pode ser um sinal de alento para a economia brasileira. Para alguns analistas ouvidos pelo Estadão, no entanto, pode não ser bem assim.

Os resultados recentes do Ibovespa, principal índice da B3, mostram esse “otimismo”. No fim do primeiro trimestre, com a propagação do novo coronavírus pelo País e a adoção das medidas de isolamento social para conter o contágio, houve uma queda de 47% em relação ao início do ano. Estava em quase 120 mil pontos e chegou aos 63 mil em março. Mas, nas últimas semanas, com as notícias de reabertura na China e em países europeus, a Bolsa subiu mais de 40% desde o ponto mais baixo. Ontem, voltou para perto dos 100 mil pontos, fechando em alta de 0,86% aos 94.637,06 pontos.

O dólar também teve trajetória semelhante. Estava cotado na casa dos R$ 4 em janeiro, chegou a R$ 5,97 no mês passado, mas depois disso engatou uma sequência de quedas e ontem terminou o dia a R$ 4,99, queda de 2,73%.

Para o economista Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria, porém, é uma melhora artificial. “O câmbio e o preço dos ativos do Brasil não têm hoje influência de melhora ou piora dos preços ou dos ativos. Há uma disfuncionalidade no mercado. Ela é provocada pelo excesso de liquidez no mundo. E vai piorar, porque vai aumentar a liquidez no mercado internacional”, diz. “Hoje, a maior parte dos países ricos já está com juros negativos. O próprio Brasil pode passar a ter juros negativos em breve.”

Para Blanche, o Brasil enfrentará daqui para a frente um desafio para colocar a situação fiscal em ordem. “Teremos dois caminhos: ou o País retoma as reformas e reequilibra a situação fiscal ou corremos o risco da volta da inflação.”

Também para a economista Monica De Bolle, do Peterson Institute, o mercado brasileiro não tem razão alguma para ficar otimista. No Brasil, nada vai melhorar, as coisas estão em franca trajetória de piora, diz. “O excesso de otimismo é uma marca do mercado brasileiro, que só sabe apostar para cima.”

Os dados de comércio exterior, por exemplo, dão pouca margem para otimismo. “A Bolsa tem decisões que não têm sentido prático. É um indicador, mas não é um fato por si mesmo. A pandemia jogou as exportações de manufaturados para 23% do total, o País voltou ao patamar em que estava em 1974”, diz José Augusto de Castro, da Associação Brasileira de Comércio Exterior.

Ele avalia que o mercado pode achar que a crise não é tão feia, mas isso não quer dizer que não seja. “Basta olhar para o que está acontecendo nos EUA e na falta de gestão federal da crise aqui no Brasil para saber que não está tudo bem. Enquanto não houver uma vacina testada e eficaz, não haverá motivo para ficar otimista com o cenário internacional.”

Pessimismo

Mesmo os países que já começaram a reabrir suas economias após a quarentena ainda estão pessimistas quanto ao futuro, segundo dados mais recentes do Índice de Confiança nos Negócios, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesse indicador, em que números abaixo de 100 mostram pessimismo com o rumo dos negócios, o Brasil estava na lanterna entre as 20 maiores economias, com 95,8 pontos em abril. Mas em nações que já passaram pelo pior da pandemia há mais pessimismo também, como China (98,8), Itália (99,3) e Espanha (98,1).

Há pessimismo quanto ao futuro mesmo na Alemanha, país europeu considerado um caso de sucesso na contenção da doença e que começou a relaxar as medidas de isolamento. “Estamos caminhando sobre gelo fino”, disse a chanceler Angela Merkel em abril.

“É preciso cuidado para dimensionar os primeiros sinais de retomada pós-covid”, avalia Castro, da AEB. “Na China, as informações disponíveis nunca são completas e algumas medidas tomadas pelo governo sugerem que o comércio internacional ainda esteja longe da normalidade.”

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