Felipe Rau/Estadão
Setor aéreo é extremamente sensível a combustíveis, porque o querosene de aviação é um dos principais custos para as companhias. Felipe Rau/Estadão

Passagens aéreas acumulam alta de 56,8% em 12 meses e aumento frustra planos de viagens

Com uma das maiores altas acumuladas, tarifas aéreas ficam caras e ameaçam planos de viagem na retomada

Amanda Pupo, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - No momento em que cerca de 70% da população brasileira está vacinada contra a covid-19 ao menos com a primeira dose e se sente mais à vontade para retomar viagens aéreas, um fator pode complicar os planos de voar: o preço dos bilhetes. A inflação generalizada pesou sobre o setor de aviação. No acumulado de 12 meses, as passagens aéreas tiveram aumento de 56,81%, ficando atrás apenas de quatro itens, três deles do grupo de alimentos, além do etanol. A diferença é considerável se comparada ao índice geral da inflação acumulada de 12 meses, que ficou 10,25%, o maior desde fevereiro de 2016.

Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sexta-feira, 8, ajudam a confirmar o sentimento de quem está na busca de um voo acessível, mas não encontra preços que caibam no bolso. É o caso da analista de sistemas Suellen Gonçalves Guimarães, 35 anos. Desde junho, ela estava em busca de um destino para aproveitar as férias escolares de janeiro com a família. Residente em Brasília, ela pensou inicialmente em partir para Salvador (BA), mas a viagem para quatro pessoas custaria um total de R$ 5,2 mil só em passagens. Mesmo com oito meses de antecedência, o valor é considerado altíssimo pela família.

Suellen tentou outros destinos, mas o desembolso continuou inviável. A analista de sistemas conta que conseguiu viajar para Fortaleza (CE) no início do ano com as duas filhas e o marido. Os pais de Suellen não embarcaram juntos em razão da pandemia. Agora, com o avanço da vacinação, planejavam ir. Mas os planos acabaram frustrados pelo preço das passagens. “Estamos tentando a estratégia de viajar em julho de 2022. Estou monitorando as passagens, que também não têm muita diferença. O preço continua salgado”, disse ela.

A alta dos combustíveis está diretamente ligada a essas tarifas salgadas, outro pesadelo que incomoda o brasileiro. O setor aéreo é extremamente sensível a esse produto, porque o querosene de aviação é um dos principais custos para as companhias. Relatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ressalta esse peso. Na média do segundo trimestre, o valor do litro do querosene de aviação ficou 91,7% superior ao verificado no mesmo período do ano anterior.

A reabertura da economia e o aumento da demanda devido ao avanço da vacinação são outros fatores que explicam o avanço no preço dos bilhetes. A busca pelos destinos nem sempre é acompanhada por uma oferta suficiente por parte das companhias.

O relatório da Anac aponta para um aumento nas passagens nos meses de abril, maio e junho. Em relação aos mesmos meses do ano passado, o avanço no preço médio dos voos domésticos foi de 21,7%. A variação também pode ser explicada pela queda que o ticket médio sofreu no segundo trimestre de 2020, quando a pandemia fez o volume de voos cair em mais de 90%.

Questionada sobre a alta apontada pelo IBGE nos preços das passagens, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) afirmou que o levantamento feito pela Anac é o que "melhor retrata o comportamento das tarifas aéreas", já que considera todos os bilhetes efetivamente comercializados num determinado período. Já o IPCA, do IBGE, considera um recorte específico de datas e de destinos mais visitados no País.

Em nota, a Abear destacou que, no segundo trimestre deste ano, o preço da tarifa média doméstica registrou queda de 19,98% em comparação com o mesmo trimestre de 2019, período prévio aos impactos da pandemia da covid-19. "O preço médio do bilhete foi de R$ 388,95, ante R$ 486,10. O ‘yield tarifa aérea’ (valor que o passageiro paga por quilômetro voado), por sua vez, teve retração de 32,3% no segundo trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2019", afirmou a associação.

O que dizem as companhias aéreas

A reportagem procurou as principais companhias aéreas brasileiras para comentar o tema. A Azul afirmou que os preços praticados variam de acordo com alguns fatores importantes como trecho, sazonalidade, compra antecipada, disponibilidade de assentos, entre outros. Por outro lado, ressaltou que a alta do dólar e do combustível, "algo que vem ocorrendo sistematicamente", também são elementos que influenciam nesses valores.

Já a Gol afirmou que adota o modelo de precificação dinâmica. “Seguindo esta dinâmica, os preços praticados durante o mês de setembro seguiram a mesma tendência de oscilação em relação aos meses anteriores”, afirmou a companhia, que diz disponibilizar as vendas de seus voos, em geral, 330 dias antes da partida, possibilitando aos clientes que se planejam com maior antecedência consigam adquirir passagens mais baratas.

Em nota, a Latam também destacou o sistema de precificação dinâmica, e declarou que os preços das passagens variam de acordo com uma série de fatores. A companhia ainda ressaltou que o preço do combustível é um indicador importante na composição do valor da passagem, sendo que 65% dos custos da empresa são dolarizados e o combustível da aviação representa em torno de 35% das despesas. “Esses indicadores quando sofrem aumento têm impacto direto na composição de custos das passagens aéreas”, afirmou.

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Devemos ter alta temporada muito movimentada e a preços altos, diz secretário de Aviação

Dólar e combustíveis altos, retomada econômica e avanço da vacinação integram pacote de fatores que pesam nas tarifas

Amanda Pupo, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - Uma série de fatores contribui para o preço das passagens aéreas registrar uma das maiores altas acumuladas nos últimos 12 meses. O patamar elevado do dólar e do petróleo, a oferta de assentos ainda em retomada, o avanço da vacinação e a pressão maior no mercado aéreo doméstico, além da tendência de recomposição de margem pelas companhias, explicam esse cenário. A avaliação é do secretário Nacional de Aviação Civil do Ministério da Infraestrutura, Ronei Glanzmann.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Glanzmann afirmou que o brasileiro deve enfrentar uma alta temporada muito movimentada e com preços altos. Apesar de o ministério preferir trabalhar com os dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e não com os do IBGE - que faz seus cálculos a partir de 'cesta' específica de destinos - o secretário reconhece que a medição do IPCA sinaliza para bilhetes mais caros.

"Acredito que os números da Anac vão sinalizar no mesmo sentido. Quem está comprando passagem está percebendo isso. Então, de fato, há uma tendência de aumento de preço", afirmou.

Glanzman avalia que a normalização dos preços deve ocorrer ao longo de 2022, a partir do momento em que as malhas das companhias voltarem ao nível pré-pandêmico. Isso pode mudar de figura, no entanto, a depender das variáveis macroeconômicas, como câmbio e petróleo. O dólar e o combustível altos são um dos primeiros fatores a explicar o cenário de alta dos bilhetes aéreos. Como o querosene de aviação é responsável por uma parte considerável dos custos das companhias, o item acaba pesando nas passagens.

Outro fator é a tendência de recomposição de margem das empresas aéreas, disse o secretário. Com a vacinação avançada e a expectativa de que o retorno do mercado aéreo não seja um voo de galinha, as companhias devem aproveitar para tentar recompor parte dos prejuízos que tiveram na pandemia, quando o número de voos chegou a cair mais de 90%. "Como elas vêm de um longo e tenebroso inverno, então, de fato, tem uma tendência de recomposição de margem", afirmou Glanzman, lembrando que a ferramenta para controlar essa margem é a oferta de voos.

O secretário pontua que a retomada do número de assentos em níveis pré-pandêmicos não acontecerá da noite para o dia. As empresas precisaram fazer demissões durante a crise sanitária, além de paralisarem uma parcela da frota. O processo de novas contratações e de recolocação de aviões não acontece num "estalar de dedos", disse o secretário.

Outro efeito ainda é o da substituição do turismo internacional pelo doméstico. Como os países ainda estão em processo de reabertura de fronteiras, o brasileiro ainda não se sente totalmente confortável em planejar uma viagem para o exterior. Com isso, os destinos turísticos internos ficam mais visados. Ao fim, é mais um efeito que pressiona o valor das passagens aéreas.

Para enfrentar essa fase, o secretário recomenda que as pessoas busquem passagens com antecedência e evitem datas críticas. Outra dica é monitorar o preço da passagem aos fins de semana, momento em que o setor corporativo normalmente não está comprando voos.

Segundo Glanzman, a agenda do ministério para aumentar a competição no setor e, com isso, reduzir o valor dos bilhetes, volta com "muita força", com a tentativa de atração de novas empresas. Uma boa sinalização, disse o secretário, é a expectativa de a Agência Nacional do Petróleo (ANP) regulamentar em breve o combustível JET-A, abrindo caminho para as aéreas usarem um querosene de aviação um pouco mais barato no Brasil.

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