Passivo externo sobe 49% em 2007

Estoque de recursos estrangeiros no País descontado dos investimentos brasileiros lá fora vai a US$ 574 bilhões

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

O estoque de todos os recursos estrangeiros no Brasil, aí incluídos aplicações financeiras, investimentos produtivos e empréstimos, atingiu US$ 939,1 bilhões em dezembro de 2007, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC). Em setembro do ano passado, o chamado passivo externo do Brasil estava em US$ 869 bilhões e em dezembro de 2006, em US$ 623,3 bilhões. Descontando-se o estoque de investimentos de brasileiros no exterior, que somava US$ 365 bilhões em dezembro do ano passado, o saldo líquido de investimentos estrangeiros, ou passivo externo líquido, fechou 2007 em US$ 574,1 bilhões, alta de 49,35% ante 2006. Esse crescimento divide a opinião de especialistas. Se de um lado reflete maior confiança na economia brasileira, de outro revela maior presença de capital volátil no País. Dessa forma, aumenta a quantidade de dólares que, teoricamente, pode "fugir" do País em uma situação de crise. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, afirmou que a elevação do passivo externo líquido não significou aumento da vulnerabilidade externa do País. Isso porque, explicou, parte relevante desse movimento ocorreu por meio dos ingressos de investimento estrangeiro direto (IED) - voltados à produção, que não saem em qualquer momento de crise. De fato, o estoque de IED alcançou US$ 328,4 bilhões em dezembro de 2007, ante US$ 236,2 bilhões em 2006.O movimento mais relevante, porém, foi registrado nos investimentos em carteira (ações e renda fixa), que passaram de US$ 303,5 bilhões no fim de 2006 para US$ 509,6 bilhões em 2007. Esses são recursos que podem sair do País com mais rapidez. Nos ativos, a variação mais relevante foi nas reservas internacionais, que mais que dobraram em 2007, atingindo US$ 180,3 bilhões. A professora de economia da Unicamp Daniela Prates é do grupo que vê com preocupação o aumento no passivo externo líquido. Segundo ela, a alta nos investimentos em ações e títulos significa um aumento no capital de curto prazo, que pode sair a qualquer momento do Brasil, pressionando o câmbio, a inflação e o crescimento. Além disso, ela pondera que o crescimento do estoque de IED, embora tenha um perfil de longo prazo, gera pressão de saída de dólares para remessas de lucros e dividendos. Para Daniela, o problema é que, como parte significativa do IED no Brasil foi voltada para o mercado interno, a pressão de maiores remessas de lucros ocorre sem uma contrapartida de geração de dólares via exportações. Na avaliação do presidente da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica, Luiz Afonso Lima, a alta no passivo externo líquido foi positiva e não representa uma piora na vulnerabilidade. Isso porque, explicou, parte relevante foi decorrente da alta no IED e também porque a forte elevação no estoque de investimentos em ações ocorreu pela sua valorização. "Por isso, tenho uma leitura positiva do aumento do passivo externo."

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