Pastore critica pacto de Lula e Kirchner

O economista Affonso Celso Pastore considerou um "péssimo sinal" o pacto feito entre os presidentes do Brasil e da Argentina de lutar em conjunto para conseguirem, junto ao Fundo Monetário Internacional e outros organismos financeiros internacionais, que o ajuste de suas economias não impeça o crescimento. Ou seja, que os investimentos públicos com infra-estrutura sejam excluídos dos cálculos do superávit primário (receitas menos despesas, com exclusão dos gastos com juros). Entrevistado no Jornal das Dez, da Globo News, o ex-presidente do Banco Central acentuou que a política monetária e a taxa de juros não são independentes da política fiscal. Para ele, o pacto pode reduzir a consistência da política econômica adotada pelo governo brasileiro. "Se o governo responder, tentando mostrar afrouxamento na política fiscal, que eu espero que não aconteça, tanto que hoje (ontem) na imprensa se dizia que a equipe econômica do ministro Palocci recebeu esse tipo de composição... Mas, na medida em que isso aconteça, de fato o Banco Central vai ter uma dificuldade muito maior do que está tendo agora", explicou. Receita para crescer Segundo Pastore, para dominar a inflação e fazer o País crescer, é preciso ter regras estáveis, uma política fiscal responsável e adotar superávits primários altos para reduzir a relação dívida-PIB, com o que se criaria a confiança dos investidores. "Na medida em que se cria essa confiança, a taxa de juros é mais baixa, do que na medida em que não se cria confiança. Se o governo responder a isso positivamente, com uma política fiscal consistente, a tarefa do Banco Central é mais fácil. Se a política fiscal, infelizmente, não ficar consistente, aí o esforço do Banco Central vai ser muito maior." Excesso de pessimismo De qualquer forma, Pastore está otimista quanto ao crescimento do PIB este ano. "A minha impressão é de que há um excesso de pessimismo sobre o crescimento deste ano. No ano passado o Brasil não cresceu em função do custo que tivemos que pagar pelo choque que sofremos em 2002." Neste sentido, lembrou que foi necessária uma forte elevação da taxa de juros, com uma maciça depreciação do câmbio nominal para evitar reflexos negativos no câmbio real. "Com o câmbio real subindo, subiu a relação câmbio-salário. Mas, infelizmente, a relação câmbio-salário é o inverso da relação salário-câmbio. Para que as exportações ficassem mais competitivas, os salários reais tiveram que cair, o que produziu um PIB menor. E a taxa de juros mais alta, para evitar que o câmbio virasse inflação, produziu uma queda dos investimentos." "Boa notícia" Pastore disse que, além da redução dos investimentos, a bruta queda do salário real em 2003 serviu para reduzir o consumo e, com isso, o PIB foi negativo. "Essa é a má notícia. A boa notícia é que o ajuste na conta corrente está feito. O Brasil tem um superávit hoje na conta corrente. Não vamos precisar a política monetária do jeito que se apertou no ano passado. Há a possibilidade de uma trajetória cadente de taxa de juros, que será mais acelerada na medida em que continuar uma responsabilidade fiscal inegociável por parte do governo.? Ele acredita que um crescimento de 3,5%, que o governo coloca como objetivo, é absolutamente atingível. ?E pode-se atingir mais do que 3,5%. Agora, não é possível atingir este ano 5% ou 6%. São taxas de crescimento que estão um pouco fora dos atuais riscos da economia brasileira?, afirmou. Pastore disse que para se chegar a este nível, o País terá de trabalhar muito mais em reformas na agenda microeconômica, na reforma trabalhista, na lei de falências e na redução da carga tributária, que tem de ser precedida de controle de gastos de custeio, e não de contratação de 40 mil funcionários. ?Quando isso estiver feito, eu acredito que o País pode acelerar o seu regime de crescimento. Mas é uma coisa que requer muito trabalho. Nós vamos crescer alguma coisa este ano, mas não vai ser realmente um crescimento retumbante."

Agencia Estado,

18 Março 2004 | 07h27

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