Reprodução/YouTube
Reprodução/YouTube

Pastore: Estamos com câmbio mais depreciado da história e indústria está estagnada

Ex-presidente do Banco Central participou de evento online do 'Estadão', com participação de José Roberto Mendonça de Barros e Marcos Lisboa, para marcar lançamento de livro

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 13h26

RIO - A ideia de que a economia do Brasil não cresce porque o câmbio esteve sobrevalorizado nos últimos anos, ou seja, o dólar se manteve em baixas cotações, atrapalhando o desempenho da indústria, “não voa”, afirmou nesta quinta-feira, 7, o economista Affonso Celso Pastore, sócio da consultoria A.C. Pastores & Associados e ex-presidente do Banco Central (BC). Segundo Pastore, cálculos indicam que o nível atual do câmbio no País é o “mais depreciado da história” e, mesmo assim, “a indústria está estagnada”.

“Hoje, estamos com o câmbio mais depreciado da história, o juro é muito mais baixo, e nossa indústria está estagnada. Isso conta a história do protecionismo”, afirmou Pastore, durante a transmissão ao vivo do Estadão Live Talks que marcou o lançamento de seu mais recente livro, Erros do passado, soluções para o futuro.

 


Segundo Pastore, é verdade que um câmbio mais depreciado poderia encobertar ineficiências, como o chamado “custo Brasil”, a infraestrutura precária e o sistema tributário caótico, mas não é o caso do Brasil. O economista turco radicado nos Estados Unidos Dani Rodrik fez estudo comparativo entre países sobre isso e, disse Pastore, o Brasil não reúne nenhuma das condições descritas no trabalho para que um câmbio mais depreciado poderia corrigir “assimetrias”.

Pastore lembrou dos dois ciclos recentes de valorização do real. Entre 2005 e 2007, os ingressos de dólares no Brasil ficaram em US$ 80 bilhões ao ano, entre investimentos estrangeiros diretos e investimentos de portfólio, citou o ex-presidente do BC. Depois, entre 2009 e 2011, o BC conseguiu acumular mais US$ 180 bilhões em reservas cambiais, em cima dos US$ 150 bilhões acumulados no ciclo anterior. E em todo esse período a cotação do dólar caiu. Tudo por causa de um “grande ganho de relações de troca”, impulsionado pelo acelerado crescimento econômico da China.

A valorização do câmbio veio com o crescimento das exportações de matérias-primas e foi usada como explicação para o baixo crescimento econômico, por causa dos efeitos sobre a indústria. De acordo com Pastore, um “survey” sobre todas as evidências relacionadas a essa explicação, incluindo “vários trabalhos esquecidos”, não se sustenta. Questões mais estruturais, como reformas tributárias, investimentos em inovação e retirada de proteções e subsídios que dificultam a competição e avanços tecnológicos, são mais importantes.

O fato de, nos últimos anos, o câmbio ter se depreciado, sem grandes efeitos sobre o aumento da competitividade da indústria, segundo Pastore, reforça a conclusão a que chegou ao analisar o tema. “Temos mania de achar balas de prata que resolvam os problemas. O câmbio (depreciado) não é uma bala de prata, que resolve o desenvolvimento. Se formos atrás de balas de prata, não vamos sair da estagnação que estamos”, afirmou Pastore.

Participante do Estadão Live Talks dedicado ao lançamento do livro de Pastore, José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, reforçou a conclusão de que questões como investimentos em inovação pesam mais para suplantar o “custo Brasil” do que um câmbio depreciado. O economista lembrou que há exemplos de empresas da indústria que são bem-sucedidas, mesmo no ambiente de negócios brasileiros, como a Weg. E firmas como essa têm em comum a internacionalização e a inovação.

“O custo Brasil é o mesmo. São inúmeros casos. É uma demonstração empírica”, afirmou Mendonça de Barros, que também apontou o excesso de proteção e subsídios como os problemas e lembrou que “os setores mais protegidos são os que têm mais lobby”. “As empresas estabelecidas são contra a inovação, na prática é isso”, completou.

Marcos Lisboa, presidente do Insper, destacou ainda os problemas causados pela má alocação dos investimentos, na esteira de subsídios e proteções. Um exemplo seriam as políticas industriais para o setor automotivo, como o Inovar Auto e o Rota 2030. Ambos programas, segundo Lisboa, eram fracassos anunciados. “Deixamos de investir em outras áreas (por causa dessas políticas). Depois, as pessoas ficam surpresas quando a Ford vai embora do País”, afirmou Lisboa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.