Pastore faz dura crítica ao BC por ter reduzido ritmo de alta do juro

Ex-presidente do BC diz que autoridade monetária 'induziu' mercado a crer em elevação de 0,75 ponto, em vez do 0,50 adotado

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore contestou ontem, em relatório, a decisão da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou em 0,50 ponto porcentual a taxa básica de juros (Selic), para 10,75% ao ano. Assim como a maior parte dos especialistas, Pastore esperava uma alta de 0,75 ponto.

O economista abre o texto afirmando que, no Relatório Trimestral de Inflação divulgado no fim de junho, a autoridade monetária "induziu" o mercado a projetar duas elevações seguidas de 0,75 ponto (em julho e em setembro) da Selic. Para ele, "não se consegue ver nenhuma razão para a mudança do cenário projetado no Relatório de Inflação".

"A conclusão que se segue é que se o BC seguir o caminho que sinalizou, levará: ou a um ciclo maior de elevação da taxa Selic em 2011 ou a uma taxa de inflação flutuando acima (do centro) da meta de 4,5% ao ano."

O ex-presidente do BC argumenta que a desaceleração por que passa a atividade econômica já era esperada. Portanto, não surpreende. Além disso, ele observa que o emprego e a renda continuam crescendo e a expansão da produção de bens de capital (sobretudo insumos da construção civil) mantém-se em níveis elevados.

"Em princípio, em qualquer trajetória de desaceleração, pode haver movimentos transitórios e movimentos permanentes", escreve Pastore. "O que estamos assistindo ao longo do segundo trimestre de 2010 é uma queda transitoriamente abaixo da tendência, que se segue a uma elevação transitoriamente acima da tendência ocorrida no primeiro trimestre do ano."

As possíveis razões. Pastore é apenas um entre diversos participantes do mercado financeiro que têm criticado a decisão do Copom. Há três hipóteses que, segundo os especialistas, podem explicar a mudança na postura do BC em relação ao quadro traçado em junho.

A primeira delas é que o BC teria superestimado os riscos para a inflação lá atrás. A segunda é que o BC se comunicou mal com os analistas antes da reunião da semana passada. Portanto, não teria conseguido formar adequadamente as expectativas do mercado. A terceira hipótese - que a maioria vê como infundada, mas tem servido de base para muita especulação - é que o BC estaria de olho no calendário eleitoral.

"Isso não faz sentido. A melhor coisa que o BC pode fazer para ajudar a candidata do governo é elevar o juro para segurar a inflação. Preço em alta tira voto", afirmou um analista.

O economista-chefe do HSBC no Brasil, André Loes, avalia que o Copom da semana passada indica que o BC começa a propor um processo mais demorado de convergência da inflação em direção ao centro da meta de 4,5%.

Por isso, ele já reduziu sua estimativa para o ciclo de altas da Selic em 2010. Em vez de 12,25% ao ano em dezembro, ele espera que a taxa fique em 11,25%. / COLABORARAM NALU FERNANDES E FRANCISCO CARLOS DE ASSIS

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