Pastore vê risco no déficit externo

Ex-presidente do BC alerta que rombo pode ir a 5% do PIB, nível associado a crises em diversos países

Fernando Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2008 | 00h00

O déficit em conta corrente pode chegar à faixa perigosa entre 4% e 5% do Produto Interno Bruto (PIB) a médio prazo, alertou ontem o economista e consultor Affonso Celso Pastore, enquanto o líder do governo no Senado, o economista Aloizio Mercadante, defendia o aumento do superávit primário para cerca de 5% do PIB. O objetivo seria o de abater a dívida pública, e não de constituir os recursos do fundo soberano (que o senador acha importante no futuro, para o esquema de aplicação das receitas fiscais obtidas com os campos petrolíferos do pré-sal). As posições de Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), e de Mercadante estão estreitamente relacionadas: a terapia recomendada pelo senador é a mesma defendida pelo consultor. Durante o debate de macroeconomia no Fórum Nacional, houve consenso de que os objetivos da política fiscal devem ser mudados. Não se trata mais de fazer superávit primário para garantir a redução da dívida pública como proporção do PIB. Se o problema fosse este, mostrou no mesmo painel o economista Raul Velloso, o superávit primário poderia ser reduzido em 2007 para qualquer número superior a 2,47% do PIB - já seria o suficiente para manter em rota de redução a relação dívida/PIB.O desafio, agora, é a solvência externa do País a médio e longo prazos, já que o aumento do consumo e do investimento proporcionado pela fase exuberante do País - impulsionada pela alta das commodities que o Brasil exporta - está ampliando rapidamente o déficit em conta corrente. Nessa situação, a recomendação é que o governo poupe mais, cavando o espaço na demanda total para o consumo e o investimento do setor privado (além do próprio investimento público).O excesso de demanda também bota lenha nas pressões inflacionárias, segundo os economistas. "Há pressão sobre os preços e o peso todo fica com o BC, que dizem estar conspirando contra o governo, mas só faz isso (aumento de juros) porque a política fiscal está cometendo um erro crasso", disse Pastore. O consultor mostrou na sua apresentação que há uma correlação muito forte no caso brasileiro entre o aumento do déficit em conta corrente e dos investimentos. Historicamente, a poupança doméstica é baixa (menos que 19% do PIB) e o consumo do governo flutua pouco e de forma independente do saldo de transações correntes. Quando o passivo externo aumenta muito e o País é obrigado a fazer uma correção, esta recai sobre os investimentos e o consumo privado. Com o aperto do cinto, o País tem breves períodos de superávit em conta corrente, que se transformam em déficit assim que o consumo volta a crescer e a poupança doméstica se torna insuficiente para bancar os também crescentes investimentos.Para cada ponto porcentual do PIB adicional na taxa de investimentos, o déficit em conta corrente cresce um pouco mais do que um ponto porcentual. Mantida a atual tendência de crescimento da produtividade, a taxa de investimentos teria de subir de menos de 18% do PIB em 2007 para algo entre 20% a 22%, para sustentar um crescimento do PIB em torno de 5,5%. Como os últimos dados do déficit em conta corrente já indicam uma tendência em torno de 2,5% ao ano, um aumento dos investimentos daquela magnitude levaria o déficit para a casa de 4% a 5% - um nível associado a alto risco de crises, e não só no Brasil, observou Pastore.

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