Isac Nóbrega/PR
Isac Nóbrega/PR
Imagem Laura Karpuska
Colunista
Laura Karpuska
Economista
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Paulo Guedes fala como se não fosse parte do governo que ajudou a eleger

O ministro não é um outsider, ele é parte integrante de um projeto de poder comandado pelo presidente Jair Bolsonaro

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 04h00

No fim de semana passado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falou em entrevista concedida ao jornal O Globo que ele está “tendo de lutar dez vezes mais” do que pensou que fosse lutar. Ele disse também que acredita ter sido “ingênuo” por achar que “tudo seria mais rápido” e que “a aderência é um pouco menor” do que ele imaginava. Imagino que ele entenda “aderência” como apoio geral a uma agenda de governo.

O ministro fala como se ele não fosse parte do governo que compõe e que ativamente ajudou a eleger. Guedes se considera um outsider. Essa visão, distante e um pouco onisciente, é um traço comum nos discursos dele. Guedes coloca todos os governos, democráticos ou não, no mesmo saco. O Brasil tinha os estadistas que queriam um Estado grande. Agora, o Brasil tem o “liberal” que vai resolver tudo, que vai melhorar o ambiente de negócios.

Coloco o termo liberal entre aspas, pois não acredito que a agenda difusa que o ministro diz defender é, de fato, liberal. Sou dessas que acreditam que você não pode ser liberal apenas nos dias pares do mês. O liberalismo é sempre por inteiro. Defende-se nesse liberalismo que as pessoas são livres não apenas para exercer as atividades econômicas que bem entendem, mas também para amar, para casar e para dizer, ler e ouvir o que quiserem. Este governo está na contramão disso.

Mas, desconsiderando os fundamentos do liberalismo de Guedes, o fato é que os ministros da Economia – e Guedes não é uma exceção – são parte do governo que representam e para o qual trabalham. Como bem disse Persio Arida, em uma entrevista recente ao Manhattan Connection, os membros de um governo fazem parte de um projeto de poder. Os ministros são o governo.

Guedes não é um outsider. Ele é parte integrante de um projeto de poder. O projeto de poder de Jair Bolsonaro. Projeto que, desde que Bolsonaro era deputado e não presidente, mostra-se como não liberal. Se havia dúvida em 2018, hoje não deveria restar mais nenhuma. Bolsonaro frequentemente apela à violência, à mentira, à desinformação, usando instituições para proteger a si e a família. 

Paulo Guedes compactua com falas e ações não democráticas do governo ao ficar em silêncio. Ele também alimenta esse ambiente caótico. Quando seu ministério passou pelo escrutínio público por causa de uma espécie de nova CPMF, Guedes se uniu ao presidente dizendo que Brigitte Macron, mulher do presidente francês Emmanuel Macron, é “feia mesmo”. Tivemos também o “empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada”. Semana passada foi a vez da dupla “filho do porteiro”, que mostrou uma análise nada técnica a respeito da efetividade do Fies, e “todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 anos”, como se não querer morrer fosse um despropósito. Houve também o caso dos “parasitas”, referindo-se aos funcionários públicos brasileiros. 

Não estudamos e trabalhamos tanto tempo para usar nossa experiência como forma de mascarar preconceitos, mas para superá-los. São falas lamentáveis, que não condizem com a estatura ministerial. Um ministro é um ator político, mas também técnico. 

Embora eu não acredite que devamos nos calar e compactuar com uma visão de Brasil exclusivista e doente, penso que, neste momento, essas falas sejam distrações, que tendem a crescer, para tirar o foco da CPI. Não à toa tivemos o ministro da Educação se unindo a Guedes semana passada dizendo que “crianças com nove anos de idade não sabem ler, mas sabem até colocar uma camisinha”. Isso é barulho oportuno ao governo, que está tendo seus crimes durante a pandemia escancarados. 

Outro ministro chamou atenção pela sua fala na semana passada. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Casa Civil, disse: “Como qualquer ser humano, eu quero viver”. Eu também quero viver. Se possível, quero ser feliz também. Quero viver num país onde empregadas domésticas viajam, filhos de porteiro estudam, mulheres são devidamente respeitadas, todos têm as mesmas permissões e oportunidades independentemente da cor de sua pele, de sua classe social e de quaisquer escolhas intrinsecamente pessoais. 

Estou ansiosa pelo resultado dessa CPI. Quem sabe poderemos então nos ocupar com o que mais importa. Reconstruir o País. Aí, sim, vai ser uma festa danada.

*É ECONOMISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.