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Vai ser custoso e doloroso para os BCs reduzirem a inflação de volta à meta

Nos últimos dez anos, o mundo abusou da política monetária e fiscal para estimular a demanda agregada e crescer; esta fonte inflacionária de crescimento se esgotou

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2022 | 05h00

Que diferença é o savoir vivre Europeu! No dia 29 de junho, o Banco Central Europeu concluiu em Sintra sua versão do seminário de bancos centrais de Jackson Hole.

Ao invés daquele almoço onde os comensais lutam contra o temido frango de borracha e chafé (mise en place), em Sintra as autoridades monetárias mundiais foram agraciadas com um cabrito assado com batatas à portuguesa, bacalhau, pastéis de nata, tudo isso harmonizado com um belo cabernet sauvignon e vinho do Porto. 

Os presidentes dos bancos centrais dos EUA (Jerome Powell), da Europa (Christine Lagarde) e da Inglaterra (Andrew Bailey) e o diretor-gerente do BIS, Agustín Carstens, sobreviveram ao almoço e foram diretamente para um debate brilhante sobre a conjuntura econômica global.

Os palestrantes estavam preocupados e ninguém cochilou. Os “panelistas” alertaram que a conjuntura será difícil até 2024: vai ser custoso e doloroso reduzir a inflação de volta à meta de 2%, principalmente devido à oferta agregada, que é incerta, inflacionária e contracionista. 

Todos estão empenhados em apertar tempestivamente a política monetária para reduzir a inflação, mas Bailey e Powell estão mais preocupados do que Lagarde. Bailey, por exemplo, disse que poderá ser mais agressivo caso precise debelar os efeitos de segunda ordem dos choques de preços de energia e alimentos sobre as expectativas de inflação e salários.

Powell agregou que os dados indicam que será necessário aumentar a taxa dos fed funds para 3%/3,5% e 3,5%/4% para o fim de 2022 e 2023. 

Os choques de oferta (covid-19, guerra, logística) afetaram os países de forma heterogênea. Portanto, não dá para coordenar o aperto da política monetária ao redor do mundo. Neste contexto, preparem-se para fortes realinhamentos cambiais em relação a um dólar forte. 

Os “panelistas” estão preocupados com a tendência estrutural de queda do crescimento do PIB mundial. Nos últimos dez anos, o mundo abusou da política monetária e fiscal para estimular a demanda agregada e crescer. Esta fonte inflacionária de crescimento se esgotou. 

Para aliviar as crescentes tensões políticas e sociais, para aumentar a taxa de crescimento do PIB global, as políticas públicas deverão focar mais na oferta agregada e nas reformas estruturais que gerem ganhos de produtividade e sustentabilidade ambiental.

Os “panelistas” concluíram que será fundamental aumentar os investimentos em capital humano e saúde pública e reformar o arcabouço institucional para fortalecer o estado de direito na esfera nacional e a arquitetura geopolítica e econômica, na esfera global. 

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