Paulson diz que pacote não salva economia e prevê mais ações

Secretário afirma, porém, que não serão necessárias medidas para ajudar mutuários, discordando de Sheila Bair

Da Redação,

18 de novembro de 2008 | 13h22

O secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, mostrou uma visão sóbria da economia do país nesta terça-feira, 18, afirmando que é "irreal" esperar que o pacote de resgate de US$ 700 bilhões vá reverter os estragos causados pela crise financeira e admitiu que é necessário fazer mais. Em discurso preparado para o Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, Paulson rejeitou ainda a necessidade de usar recursos do fundo de resgate para ajudar os mutuários, indo de encontro aos comentários da presidente da Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC), Sheila Bair, presente na mesma audiência.   Paulson (esq.), Bernanke e Sheila Bair na Câmara   Foto: Reuters   Veja também: Principais economias do mundo confirmam cenário de crise Governo já injetou mais de R$ 150 bi contra a crise financeira Governo estuda regulamentar crédito para micro empresas Lições de 29 Como o mundo reage à crise  Dicionário da crise    Ao lado do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, Paulson afirmou que a aprovação do plano de resgate em outubro permitiu que o governo federal tomasse "ações decisivas" para evitar mais choques ao sistema financeiro. Mas, admitiu, "é necessário fazer mais". "Não é uma panacéia para todas as nossas dificuldades econômicas", disse.   "O plano de resgate não tinha a intenção de ser um estímulo econômico ou um pacote de recuperação econômica; ele tinha como objetivo fortalecer os fundamentos da nossa economia por meio da estabilização do sistema financeiro, e é ilusório esperar que o plano reverta os danos que já foram provocados pela gravidade da crise", afirmou.   Mutuários   Na audiência, Sheila Bair defendeu que o governo dos EUA precisa fazer mais para evitar o número recorde de execuções de hipotecas que causou a crise financeira atual. "Conforme as execuções aumentam, estamos claramente ficando atrasados. Uma intervenção muito mais agressiva é necessária, se quisermos conter os danos a nossas vizinhanças e à saúde da economia", afirmou.   Paulson, por sua vez, disse que os programas imobiliários existentes são suficientes e que "a coisa mais importante que pode ser feita para reduzir o número de execuções de hipotecas é aumentar o acesso aos empréstimos hipotecários de baixo custo". A FDIC e o governo Bush há semanas vêm lutando sobre um plano de Bair de responder mais agressivamente à questão das execuções. Na semana passada, o governo se juntou às agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para anunciar um plano bem mais limitado para lidar com hipotecas problemáticas.   Paulson repetiu também sua objeção a utilizar uma parte do programa de resgate de US$ 700 bilhões para ajudar as montadoras norte-americanas, apesar de alertas de membros do Congresso de que a quebra de uma grande fabricante de automóveis representa um risco sistêmico. "Eu não vejo isso como um propósito do (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos)", afirmou. Ele reconheceu, no entanto, que "não seria bom, algo a ser evitado, que uma das montadoras quebrasse".   Bancos   Bair alertou ainda que a indústria bancária continua tendo um problema de liquidez e o órgão pretende avaliar se os bancos estão usando o capital que recebem do governo federal para emprestar dinheiro para a economia, quando supervisionar as instituições que regula. Segundo ela, a FDIC irá considerar mudanças no programa temporário para garantir dívida sênior não segurada emitida por bancos, quando o conselho se reunir na sexta-feira.   "Esse problema originalmente surgiu da incerteza sobre o valor dos ativos relacionados a hipotecas, mas as preocupações de crédito aumentaram com o tempo, deixando os bancos relutantes em emprestar um para o outro ou emprestar para empresas e consumidores", disse Bair, em discurso ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara. "O melhor uso do capital de um banco na crise atual é dar apoio à atividade de empréstimos", completou ela.   Sobre o programa de garantia de dívidas, Bair disse que, "por exemplo, estamos considerando sugestões sobre se o programa de garantia de dívidas deve cobrir financiamento de curto prazo ou se devemos ter uma estrutura de remuneração em série, com base no vencimento da dívida garantida".   Na semana passada, Paulson anunciou que o Tesouro não compraria ativos podres das instituições financeiras - contrariando o plano original do pacote - e que o órgão concentraria os recursos em injeções de capital diretamente nos bancos. Durante o discurso desta terça, ele afirmou reforçar a solidez é a melhor estratégia para o Programa de Aquisição de Ativos Problemáticos (Tarp). "Mais capital permite aos bancos assumir prejuízos enquanto realizam baixas contábeis e vendem ativos podres", disse Paulson. "A capitalização também é essencial para incentivar os empréstimos que são essenciais à recuperação da economia."   Paulson tentou rebater as críticas dos congressistas de que os bancos na verdade estariam acumulando os bilhões de dólares do financiamento federal, argumentando "que levará um certo tempo para estimular os empréstimos". Apesar disso, Paulson disse que a recuperação da economia ocorrerá muito mais cedo do que se o Tarp não tivesse sido aprovado pelo Congresso.   Condições longe do normal   Em seu discurso, Bernanke, do Fed, defendeu o programa de resgate do mercado, afirmando que a "existência" dele ajudou a estabilizar os mercados de crédito. Ele também disse que, embora tenha havido alguma melhora no funcionamento dos mercados de crédito, as condições ainda estão longe do normal.   "A existência do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp) permitiu que o Tesouro reagisse rapidamente, anunciando um plano de injetar US$ 250 bilhões em capital nas instituições financeiras dos EUA", disse Bernanke. Em conjunto com medidas tomadas pelo Fed e pela Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC), "essas ações, com medidas similares em muitos outros países, parecem ter estabilizado a situação e melhorado a confiança do investidor nas financeiras", completou Bernanke.   Olhando adiante, a capacidade do Tesouro de usar o Tarp para injeções de capital e outras medidas para estabilizar os mercados, "incluindo quaisquer ações que possam ser necessárias para evitar uma quebra desordenada de uma instituição financeira sistematicamente importante", serão chave para restabelecer a confiança, afirmou o presidente do Fed.   Segundo Bernanke, ainda que tenha havido melhora nos mercados de crédito, as condições "estão longe do normal, com os spreads de risco ainda muito elevados e os bancos informando que continuaram apertando os padrões de empréstimo em outubro". "Houve pouca ou nenhuma emissão de bônus de corporações de rating mais baixo ou securitização de empréstimos ao consumidor nas últimas semanas", completou.   O presidente do Fed afirmou que o programa da autoridade monetária para dar suporte aos fundos mútuos do mercado monetário deve estar operacional na próxima semana. O programa, chamado de Facilidade de Crédito ao Investidor do Mercado Monetário, irá financiar compras de commercial paper dos fundos de mercado monetário.   (Gustavo Nicoletta e Nathália Ferreira, da Agência Estado)

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