Pauta do Mercosul deve ir além da agenda comercial, diz FGV

O Mercosul terá que ir além da agenda comercial se quiser se consolidar apesar das assimetrias dos países que integram o bloco, segundo avalia a especialista em relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lia Valls Pereira. Segundo ela, é preciso incluir na agenda de avanços do bloco econômico temas como serviços e compras governamentais.Ela fez palestra hoje em seminário sobre "a nova ordem mundial e os problemas do desenvolvimento", na sede da FGV no Rio. Segundo Lia Valls, "o tema da assimetria no Mercosul não vai acabar" e o problema se agrava com a "falta da definição de um projeto" para o bloco.Para a especialista, ao contrário do que dizem críticos da política externa do governo Lula, não houve uma ruptura nessa política e a agenda de acordos comerciais do País não mudou desde o início do primeiro mandato do atual governo.Ela sublinhou que, no que diz respeito ao Mercosul, o governo brasileiro já percebeu que terá que "pagar algum preço" para a consolidação plena do bloco e prova disso é a criação do Fundo Estrutural de Convergência do Mercosul, para o qual o Brasil contribui com 70% dos recursos.Lia Valls fez um diagnóstico do comércio exterior brasileiro para participantes italianos do evento, que foi realizado em parceria com o Instituto Ítalo-Americano. Ela mostrou que, em 2006, 46% das exportações do País foram para as Américas. Do total das vendas externas do Brasil no ano passado, 19% foram para a América do Sul; 18% para os Estados Unidos; 22% para a União Européia e 15% para a Ásia. Para ela, esses dados completam que o Brasil é um "global trader" e tem comércio multilateral.Ela salientou também a questão delicada da relação comercial Brasil-China. Segundo Lia, os chineses têm substituído fornecedores tradicionais de produtos eletroeletrônicos no mercado brasileiro e, já em 2007, a balança comercial com aquele país deverá ser deficitária.A especialista salientou que o fato de o País ser grande exportador agrícola torna "complicadas" as negociações internacionais, especialmente com países desenvolvidos. Para ela, a questão-chave é que o Brasil defina, afinal, "o que queremos com o comércio exterior". Segundo Lia, desde a mudança tarifária de 1990, consolidada em 1994, não houve avanços na definição da política de comércio exterior do País.Ela explica que essa indefinição dificulta não apenas o progresso do Mercosul, mas sobretudo negociações com a União Européia e Estados Unidos, que sempre avançam para questões como propriedade intelectual, investimentos, compras governamentais e serviços, para as quais ainda não há um rumo no Brasil. "Enquanto não houver consenso sobre o que o Brasil deseja desses temas, é difícil negociar esses pontos com outros países". Lia Valls lembra que esses assuntos sempre vêm a tona quando a questão dos subsídios agrícolas, por exemplo, entra em pauta nas negociações externas.

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