Patrice Masante/Reuters
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Pavões do mar

Com um número recorde de visitantes, salão náutico de Mônaco exibe a ostentação do consumo em alto-mar

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2016 | 06h00

O salão náutico de Mônaco, que aconteceu entre 28 de setembro e 1.º de outubro, deve ser o mais extravagante campeonato de exibicionismo do mundo. Este ano, um número recorde de visitantes (34,5 mil) foi se embasbacar diante de 125 superiates que, com um valor coletivo de US$ 2,7 bilhões, estavam atracados no porto do principado. Mas os iates eram só o começo. Mônaco é, em essência, um bazar para a elite da elite: para onde quer que a pessoa olhe, vê estandes repletos de coisas que nunca imaginou que precisava ter. De submergíveis com capacidade para levar seis pessoas até o fundo do mar a Land Rovers blindados; de jet skis e óculos de realidade virtual a helicópteros em estilo militar e hidroaviões.

Nesse universo, tamanho é documento. Os estaleiros que melhor se recuperaram da crise financeira de 2007-2008 foram os que constroem “iates gigantes”. Segundo a consultoria Superyacht Intelligence Agency, entre 2011 e 2016 foram entregues 62 iates de 70 metros ou mais. Há outros 59 em construção, apesar de os grandes compradores de costume estarem um pouco mais comedidos. A queda dos preços do petróleo esvaziou o bolso de magnatas tanto no Oriente Médio, como na Rússia. Atualmente, quem mais compra esses colossos do mar são os americanos, que são responsáveis por um terço das encomendas, e os britânicos, que respondem por 10% delas.

Outro símbolo de status em alto-mar são os brinquedos excêntricos. Agora que helicópteros e piscinas se tornaram itens comuns, a contenda migrou para novo território. A moda do momento são as “embarcações de apoio”. Por que sobrecarregar o seu iate de 150 metros com tralhas que você pode transportar num barco menor? Um dos barcos auxiliares exibidos em Mônaco continha uma coleção típica de itens indispensáveis para navegantes grã-finos: uma lambreta Vespa, uma lancha de alta velocidade, equipamentos de mergulho, esquis e jet skis. Sem contar que esses batelões são particularmente úteis para transportar o xodó dos nautas podres de ricos: seu submarino particular.

Os proprietários de superiates também estão aprendendo a aproveitar melhor todo o espaço de convés de que dispõem: convertem seus helipontos em quadras de squash durante o dia e cinemas à noite. E vêm investindo bastante no mundo virtual. Afinal, nada como singrar os mares com uma boa conexão de internet: até os veleiros agora vêm equipados com feiosas antenas de radar de banda larga.

Esse tipo de consumo ostentatório tem lá sua razão de ser. Muitos ricaços gostam de se pavonear espalhafatosamente, a fim de que até alguém que nunca leia as colunas sociais perceba estar diante de um verdadeiro nababo. Mas também querem ter a opção de se retirar para seus impérios particulares. Com um iate, a pessoa sempre pode levantar âncora e se mandar para o meio do oceano, onde não precisará se relacionar com ninguém, fora os integrantes do seleto grupo de celebridades a bordo. Os proprietários de super iates vivem se visitando enquanto navegam pelos sete mares, aproveitando a oportunidade para comparar não só o luxo e a pujança de seus barcos, mas também suas listas de convidados.

Simplicidade. Mas os homens do leme verdadeiramente endinheirados dispõem de muitas maneiras mais sutis para sobressair à reles marinhagem. A turma da vela (que tende a ser do Velho Continente ou da Nova Inglaterra) olha com desdém para o pessoal motorizado. Alguns estaleiros colocam a simplicidade acima do brilho fácil: um deles diz que a ideia é você navegar numa casa de praia, não se arrastar pela água num palácio de Versalhes flutuante. Também é cada vez mais pronunciada a preferência por aventuras à moda antiga, em lugar das brincadeiras com jet skis. Para uma nova geração de donos de superiates o destino ideal são os lugares distantes e de difícil acesso, como os fiordes noruegueses ou mesmo a Antártida.

Seja qual for a motivação do comprador, o fato é que o mercado vem crescendo a olhos vistos. Em 1991, ano da primeira edição do salão náutico de Mônaco, havia apenas 1.147 superiates (isto é, embarcações com mais de 30 metros) navegando pelo mundo. Hoje essa frota chega a 4.473 barcos. E há outros 473 em construção. Segundo a Academia de Superiates de Varsóvia, que treina tripulantes, o setor movimenta anualmente € 24 bilhões (US$ 26,9 bilhões) e emprega 150 mil pessoas. Atuam no segmento não apenas os estaleiros que constroem os barcos, mas também fabricantes de equipamentos, formadores de mão de obra e seguradoras. Há inclusive transportadoras como a DYT Yacht Transport, que se orgulha de ter o primeiro navio exclusivamente destinado ao transporte de iates, podendo levá-los para o Caribe e outros destinos populares espalhados pelo mundo.

Aluguel. Por outro lado, alguns se preocupam com as perspectivas do segmento diante da maré populista que varre os países desenvolvidos. O fato de que o infame Philip Green, antigo dono da falida varejista British Home Stores, seja proprietário de um dos maiores iates do mundo, o Lionheart, de 90 metros, não chega a ser boa propaganda. É bem verdade que os super-ricos muitas vezes concedem a indivíduos não tão abastados o privilégio de navegar em suas embarcações de luxo: como os iates precisam de manutenção o ano inteiro e os custos não são pequenos, costumam alugá-los quando não os estão usando. Mas isso está longe de ser um esquema de redistribuição de renda.

O segmento se recuperou com facilidade da crise financeira. Os proprietários de iate estão sempre à procura de embarcações melhores: trocam de barco a cada três anos, em média. Há um movimentado mercado de compra e venda de embarcações usadas, com designers de interiores especializados em deixar o iate com a cara de seu novo dono. Para os iates novos, ainda há mercados a serem desbravados, como a Ásia. A primeira geração de bilionários asiáticos anda ocupada demais enriquecendo para dar atenção ao canto da sereia. Mas não demorará para que seus herdeiros, em sua maioria educados no Ocidente, comecem a incluir os salões náuticos em suas agendas sociais. 

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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