Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Paz na Terra

Só haverá paz global quando a fome for banida da Terra

Roberto Rodrigues*, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 05h00

Não há dúvida de que 2018 será um ano de mudanças definitivas para o Brasil.

As eleições para presidente da República, governadores dos Estados e parlamentos federal e estaduais serão um ponto de inflexão na nossa história. A classe política está desacreditada perante a população em geral, seja por causa das recorrentes notícias de corrupção que assombraram o País nos últimos anos, seja pela incompetência e ideologização de governos passados e organismos públicos, seja pelo divórcio entre os interesses legítimos do povo e muitas ações decididas no Congresso Nacional.

Mesmo com esse cenário negativo, o governo atual vai conseguindo realizar reformas que eram necessárias há muito tempo e que os anteriores não tiveram disposição ou coragem de enfrentar. Talvez a mais importante delas seja a da legislação trabalhista, e ainda se espera por três outras igualmente essenciais: a da Previdência, a tributária e a política.

Todas elas, e mais a retomada da economia, terão decisiva influência nos resultados das urnas. Mas a volta dos investimentos, sobretudo em infraestrutura, será ponto relevante para as definições dos eleitores porque diminuirá o desemprego, que é o mais grave problema nacional. E essa volta depende da indispensável segurança jurídica que garanta confiança de investidores nacionais e de fora nos rumos do País.

Parte substancial de tal confiança depende do Poder Judiciário.

Seja como for, o agronegócio brasileiro seguirá sendo uma importante alavanca para o futuro. Continuará representando quase um quarto do PIB, gerando empregos cada vez mais diferenciados e salvando o saldo comercial externo. Os saltos de produtividade devidos à nossa tecnologia tropical sustentável são e serão impressionantes. Do Plano Collor (março de 1990) até hoje a área plantada com grãos cresceu 61%, enquanto a produção aumentou 310%. Se tivéssemos hoje a mesma produtividade por hectare que tínhamos em 1990, seriam necessários mais 91 milhões de hectares, além dos 60 milhões hoje plantados com grãos, para colhermos a safra de 2017. Em outras palavras, não foi preciso desmatar esses 91 milhões de hectares de cerrados ou florestas. O mesmo aconteceu com as demais culturas. Também no setor animal a tecnologia avançou, com destaque para a produção de frango, que cresceu 441% no mesmo período. A produção de carne bovina vem aumentando por hectare, o que diminui a demanda por pastagens: parte de sua área vai para agricultura de grãos e parte para reflorestamento com fins industriais, e hoje já temos mais de 7 milhões de hectares de eucaliptos, e crescendo!

A agroenergia, duramente castigada no governo passado, recebeu há poucos dias um impacto positivo, o RenovaBio, programa de governo que finalmente dará previsibilidade ao setor, garantindo novos investimentos. Não era sem tempo: afinal, o etanol de cana emite apenas 11% do CO2 emitido pela gasolina, e seu uso reduz a poluição atmosférica e as consequentes doenças pulmonares. E com o RenovaBio caminharemos para cumprir compromissos assumidos pelo Brasil na COP21, de reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa até 2035, com base nas emissões de 2005. Essa meta receberá também a ajuda dos programas ABC – Agricultura de Baixo Carbono, na direção dos sistemas integrados de produção.

Em 2018, não colheremos uma safra tão grande quanto foi a de 2017. As chuvas demoraram para chegar, atrasando o plantio, podendo reduzir a produtividade em geral, mas os estoques remanescentes da última colheita são ainda elevados, de modo que não haverá problema de abastecimento interno nem de exportação do que foi combinado.

O cenário internacional não apresenta grandes novidades, a demanda segue estável ou crescendo pouco, mas os preços não deverão variar muito. Como os custos internos subiram, é possível que as margens dos produtores diminuam, reduzindo sua capacidade de investimento. O ano deve ser, como se diz na roça, de “colocar as barbas de molho”, até por causa do cenário político e eleitoral referido.

Por outro lado, abre-se uma oportunidade imperdível: segundo a OCDE, a oferta mundial de alimentos precisa crescer 20% em dez anos para que não haja fome no planeta. Mas também afirma que esse crescimento só acontecerá se o Brasil oferecer o dobro, 40% a mais de alimentos em dez anos. Isso é possível, porque temos tecnologia adequada, temos terra disponível e, principalmente, temos gente capaz em todos os elos das cadeias produtivas.

Mas isso não é suficiente: precisamos ainda de uma estratégia, com políticas públicas que tragam os necessários avanços em infraestrutura e logística, que organizem um seguro rural digno de nossa agropecuária e acoplado à modernização do crédito rural; de acordos bilaterais e multilaterais que consolidem e criem mercados (inclusive com a agregação de valor às matérias-primas exportadas), de uma defesa sanitária que nunca mais permita episódios como a Carne Fraca, e de investimentos crescentes em tecnologia sustentável.

O setor privado tem de fazer a sua parte, principalmente na organização das cadeias produtivas para melhor inserção internacional, com crescente influência das cooperativas, elemento fundamental para o progresso dos pequenos produtores que são importantíssimos para a preservação do tecido social no campo.

O Brasil não pode perder essa oportunidade. Devemos aproveitar o ano eleitoral para preparar um amplo plano de governo que nos transforme em campeão mundial da segurança alimentar. Não será um plano para o agronegócio, mas para todos os brasileiros, porque deve envolver os setores industriais e de serviços, todos urbanos, que estão a montante e a jusante dos campos: a indústria de equipamentos e máquinas é urbana, assim como a de defensivos e fertilizantes, como são os bancos e seguradoras, e a geração e difusão de tecnologia. Urbanas são as empresas que construirão estradas, ferrovias, hidrovias, portos, armazéns e silos. Urbanas são as indústrias de alimentos, de embalagens. Os supermercados e exportadores idem, assim como os escritórios que realizam contratos de toda ordem e os cartórios que os registram.

Urbano e rural será o campeonato mundial de segurança alimentar que o Brasil pode e deve levantar com orgulho. E orgulho maior será o de todo o povo brasileiro por ser o campeão mundial da paz, visto que só haverá paz global quando a fome for banida da Terra.

Vamos meter mãos à obra! Que venha 2018, e que seja nosso melhor ano até aqui!

*Ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da FGV.

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