Epitacio Pessoa/Estadão
Epitacio Pessoa/Estadão

Pé de frango se torna a carne possível, com disparada da inflação

Com aumento do consumo, porém, mesmo o corte mais barato do frango teve aumento de 100% no atacado em São Paulo este ano

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 10h00
Atualizado 16 de setembro de 2021 | 13h14

SOROCABA - A cozinheira Irene Moreno, moradora de Sorocaba, aderiu de vez ao pé de frango. “Sempre gostei, mas agora virou a mistura possível, pois é o que dá para comprar. A carne bovina perdeu vez em casa. Primeiro é o frango, depois o porco. Dizem que pé de frango faz bem para os ossos, mas eu digo que faz bem para o bolso.” Segundo ela, porém, sua mãe já voltou do açougue reclamando que até o pé do frango está caro. “Agora estão vendendo em embalagens de isopor e, quando você vai fazer a conta, o quilo sai a mais de R$ 10”, disse.

Com o preço do boi nas alturas e outras carnes também mais caras, o pé de frango virou a opção ao alcance do bolso do consumidor, ainda que também tenha subido. O quilo do frango inteiro estava a R$ 8,41 nesta quarta-feira, 15, acumulando alta de 43% este ano, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agronomia da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Em janeiro, o quilo estava a R$ 5,90. No mesmo período, o preço do pé de frango, considerado o corte mais barato, subiu 100%, passando de R$ 2,50 para R$ 5 no atacado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, acumula alta de 5,67% de janeiro a agosto e, em 12 meses, chega a 9,68%.

A média de preço alcançada pela ave este mês é a maior desde 2004, quando o Cepea iniciou o monitoramento. E o pé do frango nunca foi tão valorizado. Para produtores e especialistas, devido à crise causada pela pandemia, a carne de frango teve o consumo aumentado por ainda ser a mais barata. Na região de Sorocaba, o preço médio do quilo de frango para o consumidor, em agosto, ficou em R$ 11,01, enquanto o quilo da carne bovina de segunda custou R$ 30,30 e a suína, R$ 22,24. Já o quilo da carne bovina de primeira teve média de R$ 42,01.

Dono do açougue Vitória, no Jardim Novo Mundo, periferia de Sorocaba, o comerciante Aguinaldo Jesus dos Santos vê no consumo dos cortes mais baratos um reflexo da crise econômica agravada pela pandemia. “De uns tempos para cá, o consumidor passou a buscar mais o frango. Aquele que comprava carne bovina de primeira está levando o filé de peito, mas a maioria vai de pé de frango ou moela, que são carnes mais baratas.” Na quarta-feira, Santos vendia o pé de frango a granel por R$ 7,90 o quilo. “Está barato, pois em supermercados você vai comprar em bandejas e pagar até R$ 12”, disse.

Para o representante comercial Henrique Laureano Ribeiro, de Sorocaba, que trabalha com venda da carne há 14 anos, a disparada no preço do pé de frango decorre da exportação para países da Ásia e da queda no poder aquisitivo da população. “Outros cortes mais baratos, como o pescoço e a moela, também estão tendo maior procura”, disse. A moela, que em janeiro era vendida a R$ 6,50 no atacado, hoje tem o preço do quilo em R$ 9,80 para que o comerciante revenda a R$ 15.

Ele explica que cortes mais nobres do frango também subiram porque passaram a ser opção para quem consumia carne bovina. O peito com osso subiu de R$ 6,60 para R$ 10,80 no atacado - alta de 63% - e o filezinho (sassami), de R$ 8,50 para R$ 14 - aumento de 65%. “Houve um aumento de 40% a 50% nos cortes do frango de janeiro até agora, mas só foi possível porque as outras carnes também estão caras. O preço do frango está sendo puxado pelo aumento nos insumos, como milho, soja, combustível e energia”, disse.

As exportações de carne de frango in natura cresceram 6,2% este ano, até agosto, mas o que levou à alta no preço foi o aumento no consumo interno, o que permitiu que os granjeiros começassem a recuperar as perdas do primeiro semestre. Em agosto, o preço da ave viva subiu em média 4,8% em São Paulo, enquanto os custos de produção aumentaram 1,2%. Mesmo com os preços favoráveis, os avicultores controlaram o alojamento de pintinhos para evitar excesso de oferta. 

“Estamos com um pé no acelerador e outro no freio. Aumentamos em 20% a quantidade de aves em alojamento, mas com cautela”, disse o veterinário Sandro Del Ben, da empresa Frango da Hora, com criatórios e abatedouro na região de Tietê, interior paulista. Ele conta que no começo do ano o preço de venda estava em R$ 6,50 o quilo e o custo era de R$ 7,20. “Era prejuízo, principalmente devido aos custos da matéria prima e excesso de frango no mercado. A partir do final de maio, a situação se inverteu e, mesmo com o preço alto do milho e soja e o preço do pintinho a R$ 2 a unidade, o frango começou a dar lucro”, disse.

A família do granjeiro Elton Luis de Miranda trabalha com frangos de corte há três décadas, no bairro Rio das Pedras, em Tatuí. Ele já foi granjeiro independente, mas atualmente é integrado, ou seja, cria frangos para uma empresa avícola que dispõe de abatedouro. Mesmo sendo remunerado apenas pelo alojamento das aves, já que a empresa fornece pintos, ração e assistência veterinária, ele torce para que os preços continuem bons. “Quando a empresa está tendo lucro, a gente consegue manter os aviários cheios por mais tempo, o que aumenta nosso ganho.”

Nesta semana, Miranda tinha 100 mil frangos nos aviários. Ele contou que água e energia elétrica são por sua conta e esses custos subiram. Para reduzir o gasto com energia, ele instalou um sistema de caldeira a lenha no aviário. “Mas a lenha também subiu, pois custava R$ 50 o metro cúbico no início do ano, hoje está a mais de R$ 100.” Outro granjeiro integrado, Paulo Albino, do bairro da Serrinha, em Pereiras, disse que a empresa ainda está cautelosa. “Minha granja é para 20 mil aves e já chegaram a colocar 25 mil, mas os últimos três lotes foram só de 17 mil.”

O criador Alcides Pavan, da Granja Roseira, também de Pereiras, conta que o granjeiro saiu de seis meses de prejuízo na produção do frango e agora está começando a ganhar. De janeiro a junho, devido ao alto custo do milho, farelo de soja e outros insumos, cada frango saía para o abate custando entre R$ 2 e R$ 2,50 acima do valor pago pelo abatedouro. “Agora inverteu e, para se abastecer, o frigorífico precisa pagar pelo frango um preço que representa ganho de R$ 2 por unidade para o produtor.” Milho e farelo de soja representam 70% do custo de produção, mas os aumentos na energia também já afetam os custos

Consumo maior

Para Luiz Gustavo Susumu Tutui, analista de mercado de frango do Cepea/Esalq/USP, a alta nos preços acompanhou a elevação na demanda pela ave, que se tornou a carne mais consumida no País, assumindo o lugar da carne bovina. “O preço do frango aumentou mais que o de outras carnes, mas o consumidor vê que ainda está mais em conta que a bovina e a suína.” O maior consumo, segundo ele, deu margem para que o avicultor conseguisse ganho, mesmo com o aumento no custo de produção.

Ainda segundo o especialista, o setor avícola se ajustou melhor à pandemia e à escalada de preços dos insumos, como milho e soja, também utilizados nas rações para bovinos e suínos. “Como o frango tem produção rápida, podendo ser abatido em 40 dias, foi possível ajustar a produção à demanda, evitando as grandes oscilações de preços. Nas últimas semanas, vejo o setor mais cauteloso. Há o receio de até quanto desses aumentos o consumidor consegue absorver. Além disso, no fim do ano há tendência de maior consumo de outras carnes, como a suína”, analisou.

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