Pediatria é a especialidade com mais profissionais

Dados do Conselho Federal de Medicina também apontam que genética tem menos formados, mas boas perspectivas de trabalho

EDILAINE FELIX, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h11

Em um universo de 388 mil médicos em atividade no Brasil, 208 mil são especialistas e, destes, cerca de 30 mil são pediatras - a área com maior número de profissionais no mercado. Somente no Estado de São Paulo, eles são 8.705. Na outra ponta estão os geneticistas: há apenas 200 em atividade em todo o País, um terço deles, ou 71 trabalhadores, no Estado.

No País, há dois médicos para cada mil habitantes, sendo que o Sudeste concentra 54,51% dos especialistas. Na relação de profissionais por especialidades, há 15,53 pediatras por 100 mil moradores. A proporção dos geneticistas é de apenas 0,10.

Mais abundantes, os pediatras reclamam dos ganhos - o piso salarial está em torno de R$ 9 mil por 20 horas semanais -, enquanto os geneticistas tem maior potencial de trabalho - e, portanto, de proventos. Para a presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM), Lavinia Faccini, a genética é uma das áreas que mais avançarão em termos de conhecimento científico e potencialidades de tratamento e prevenção nos próximos anos.

"O grande problema, no momento, é que a genética médica não está contemplada como especialidade dentro do Sistema único de Saúde (SUS). Embora exista uma portaria, a sua regulamentação ainda não ocorreu", diz Lavinia.

O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Carlos Vital, compara: "Os pediatras são especialistas que, por suas funções específicas, de caráter assistencial, serão formados em maior número do que, por exemplo, os geneticistas, que terão mais espaço e demanda nos campos da assistência e da pesquisa".

O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Eduardo Vaz, ressalta: "O médico pediatra procura a especialidade mais pela vocação".

Residente do segundo ano de pediatria da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Sorocaba), Debora Caleffi Ferraz inicialmente rejeitou a especialização. "Eu dizia que não queria a pediatria, porque não conseguiria lidar com as mães. Mas, no primeiro atendimento, percebi o quanto a profissão é gratificante. É bom ver a criança curada e com toda a vida pela frente."

Depois de formada, a paulistana Debora quer continuar em Sorocaba, abrir um consultório e também trabalhar em hospital. Ela diz que há carência de pediatras na região e dificuldade de trabalhar a puericultura - acompanhamento do desenvolvimento infantil - na rede pública. Por enquanto, Debora treina o aprendizado com seu filho de três meses, Henrique.

Nada desanima a médica, que conhece os desafios da profissão. "Além da baixa remuneração, o pediatra não é só hospital e consultório, ele tem de estar disponível para atender fora do expediente."

Para a professora de pediatria da Faculdade de Medicina da USP, Sandra Grisi, o aluno que procura a pediatria tem a vocação e a paixão por crianças. Mas, além de tudo, é dotado de grande afinidade pelos problemas sociais. "Eles querem ser desafiados."

Genética. O jovem Rodrigo Ambrósio Fock, de 26 anos, está no segundo ano de residência em genética médica na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O residente conta que sempre quis a especialidade e, durante a faculdade, participou da liga de estudos acadêmicos da área para entender a atuação do médico.

"Nessa época, fui me interessando e conhecendo cada vez mais sobre a genética. A abrangência do tema e as possibilidades de atuação em ensino, pesquisa e clínica me fascinavam." Ele é especialista em diagnóstico, tratamento e aconselhamento de pessoas ou de famílias com doenças genéticas. Também investiga doenças como o câncer, e aconselha casais com casos de infertilidade ou perdas gestacionais recorrentes.

Para Fock, a falta de alunos na especialidade também é culpa das universidades, pois pouco se fala a respeito de genética médica durante o curso de medicina. "Falta visão ao aluno, pois ele pensa que o geneticista tem somente atuação laboratorial."

O jovem conta que, após formado, planeja abrir consultório e ainda atuar na área acadêmica. "Precisa ter interesse e estudar muito, pois a genética médica é próspera."

A pneumologia protagoniza um outro extremo: é a especialidade com maior ociosidade na residência médica, segundo a Associação Médica Brasileira. No Estado, são mais de 600 atualmente em atividade.

Pneumologia. De uma turma de 80 alunos, Flavia Rifan Ambrozio, de 31 anos, foi uma das poucas a escolher a especialidade. "Sempre quis fazer o curso e tive certeza de que essa era a minha área durante a residência de clínica geral." Ela reconhece que o mercado para a especialidade não está bom e acredita que uma das causas é que o clínico geral passou a diagnosticar e tratar os males do pulmão.

Flavia está no segundo ano de residência na Santa Casa de São Paulo e já desenhou seu futuro como médica pneumologista: quando terminar a residência, vai retornar para Marília, sua cidade. Lá, pretende abrir um consultório e também trabalhar em hospital, especificamente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "Marília é uma cidade com 250 mi habitantes e cinco pneumologistas, quero voltar para lá e ajudar a população."

Diretor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e professor da Universidade Federal do Ceará, Marcelo Alcantara acredita que a queda pela procura na residência deve-se à desvalorização da consulta médica feita pelo sistema geral de saúde.

"Comparando com outras especialidades, a remuneração do pneumologista é menor, pois não há procedimentos. É somente a consulta e a avaliação do paciente. Por isso, é um profissional em escassez progressiva", diz Alcantara diz que a baixa remuneração e a sobrecarga de trabalho leva à desistência.

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