Pedido de dissídio divide bancários no País

A já enfraquecida greve nacional dos bancários teve nesta sexta-feira mais um racha. Enquanto parte da categoria aprovou a instalação de dissídio coletivo, que dá ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) a função de decidir o reajuste salarial a ser pago aos funcionários, outra parcela refutou a medida. Em São Paulo, maior centro financeiro do País, os grevistas, totalmente divididos, aprovaram em assembléia o não ajuizamento do dissídio. A proposta venceu por uma diferença de apenas 44 votos. Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS) também rejeitaram. Já no Rio de Janeiro e São Luiz (MA), a decisão foi pelo dissídio. A Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito (Contec) deverá ajuizar o dissídio nacional para os funcionários do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal na segunda-feira. Segundo a Confederação Nacional dos Bancários (CNB), ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Contec representa, politicamente, menos de 10% dos funcionários, mas tem poder de representação legal de toda a categoria. "Se o dissídio for ajuizado, vamos apresentar argumentos para que o julgamento não seja realizado, pois a maior parte da categoria não quer o dissídio", disse o presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Cláudio Marcolino. Em São Paulo e região, de um total de 1,2 mil bancários que participaram da assembléia - equivalente a pouco mais de 1% da categoria -, 604 votaram contra o dissídio. Eles também aprovaram a continuidade da greve, que na segunda-feira completará 27 dias, a mais longa da história da categoria desde início dos anos 50. "Estamos analisando e esperando o resultado das assembléias, mas a tendência é de ajuizarmos o dissídio na segunda-feira", afirmou o presidente da Contec, Lourenço Prado. O ajuizamento deverá ficar restrito aos bancos federais, por razões jurídicas (possuem um quadro de carreira organizado nacionalmente) e políticas (a entidade responsabiliza o governo federal pelo atual impasse). Recado do governoPreparado para essa possibilidade, o governo federal já mandou um recado por meio de um representante do alto escalão: "Se ajuizarem dissídio, o governo vai para o TST retirando a proposta da Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) e partindo da estaca zero. O risco é grande para os dois lados." Pelas sinalizações dos ministros do tribunal, entretanto, vários sindicalistas avaliam que a categoria tem chances de obter no TST o perdão de todos os dias parados e uma melhora simbólica no índice de 8,5% de reajuste. "Para a base, é uma questão de honra não descontar os dias parados. Em troca disso, tem bancário que até abre mão dos 8,5%", disse o diretor da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul, Juberlei Bacelo. Na avaliação de Marcolino, entretanto, o máximo que a TST deve conceder é a reposição da inflação, ou seja, em índice inferior aos 8,5% já propostos pela Fenaban. Além disso, o Tribunal não julga abonos ou participação nos lucros. Em Brasília, os bancários terão assembléia no domingo para tomar uma decisão. No início da semana, os líderes sindicais da região chegaram a pedir à Procuradoria Geral do Trabalho que ajuizasse o dissídio, mas não obtiveram respaldo e por isso voltam a analisar o assunto. Perdão A proposta informal apresentada pelo governo perdoando um terço dos dias parados dos grevistas, vista como uma saída honrosa para o fracasso da greve, foi rejeitada pelos sindicalistas e nem chegou a ser levada à votação das assembléias. O dia foi de polêmica em torno do ajuizamento de dissídio - de um lado, militantes do PSTU e da Oposição Bancária defendendo o recurso ao TST, e de outro a maioria das diretorias de sindicato da CUT se opondo. No Rio, ontem, o ajuizamento foi aprovado com larga vantagem, e o sindicato tenta agora viabilizar uma forma jurídica de ingressar com dissídio para todos os bancos privados diretamente no TST. "Procurar os tribunais para ajuizar o dissídio é uma postura de desespero e que pode nos enfraquecer no futuro. Estamos em um momento doloroso, mas o caminho para forçar a negociação é ampliar a greve nos bancos privados", disse o presidente da CNB, Wagner Freitas. Para o diretor oposicionista do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Dirceu Travesso, do PSTU, o governo Lula está associado aos banqueiros para desarticular o movimento. Em sua opinião, só o TST pode colocar fim ao impasse na paralisação. Os bancários reivindicam 19% de reajuste, abono de R$ 1.500, PLR de um salário mais R$ 1.200 e o não desconto dos dias parados. A proposta da Fenaban é de aumento de 8,5% mais R$ 30 para quem ganha salários até R$ 1.500 (o que representaria reajustes de até 12,77% e aumento real de 5,75%). O INPC no período foi de 6,64%.

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