Rafael Arbex
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Pedido de ‘socorro’ deve ser antecipado

Embora não seja praxe no Brasil, empresas já buscam auxílio antes de intervenção judicial ser única saída, ampliando taxa de êxito da gestão interina

Marina Gazzoni, Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 05h00

A crise de liquidez é o principal motivo que leva os empresários a entregar seu negócio a um gestor interino. Com a alta do dólar, diversas empresas brasileiras sentiram um choque de custos. O aumento nas taxas de juros também encareceu o crédito e apertou ainda mais as margens. No acumulado de 2015, 627 empresas solicitaram recuperação judicial entre janeiro e julho, segundo a Serasa Experian, número 31,7% maior do que o total de solicitações feitas no mesmo período do ano passado. Nesses casos, a própria Justiça escolhe um administrador. 

O que aos poucos começa a acontecer, no entanto, é um movimento de companhias que, ao perceberem que seu resultado está piorando, buscam ajuda antes que a recuperação judicial seja inevitável. São empresas que precisam enxugar sua estrutura para fazer a conta fechar. Nessa hora, é preciso tomar decisões difíceis, como demitir, fechar fábricas e desativar áreas de negócios. São medidas que nem sempre os donos e executivos têm sangue frio e coragem para por em prática.

É aí que entram os gestores interinos. Eles são profissionais ou consultorias que estão dispostos a assumir negócios que com dificuldades para captar bons executivos no mercado. “O processo de reestruturação requer mão de obra muito qualificada e com experiência, mas as empresas em crise nem sempre conseguem atrair esses profissionais. Contratar um gestor temporário para um projeto específico é mais viável”, disse Susana Falchi, diretora da empresa de recrutamento HSD, que estima uma alta de 30% na procura por executivos com perfil de reestruturação.

Reestruturar um negócio pode significar ir contra tudo o que o fundador da empresa acredita, diz Riccardo Gambarotto, sócio da consultoria RGF & Associados. “O empreendedor não sabe fazer isso. Ele é bom para expandir a empresa, comprar, pensar em novos mercados, mas reluta em tomar medidas de redução de tamanho.” 

Em um de seus projetos, Gambarotto descobriu que uma rede de escolas dava prejuízo no sistema de ensino tradicional e lucrava no ensino à distância. “Recomendamos a cisão dos negócios e a venda das escolas”, disse. Segundo ele, o dono ficou só com a empresa de ensino à distância, que é lucrativa, mas ficou abalado. “O xodó dele eram as escolas.”

Hora certa. A agilidade dos empresários em aceitar as mudanças necessárias é fundamental para tonar viável a recuperação da empresa, especialmente no atual cenário, afirma Gonzalo Grilo, sócio da consultoria Alvarez & Marsal. Isso porque, no mercado de empresas médias, a resistência a erros de gestão é muito baixa. “Essas empresas se financiam no mercado interno, e precisam pagar uma Selic (taxa básica de juros) de 14,25% ao ano”, diz o especialista. “Que indústria hoje tem margens de 15% ao ano no Brasil?”

Uma das empresas que resolveu buscar ajuda antes de suas contas se complicarem de maneira irreversível foi a Brasvending, companhia especializada em máquinas de café para empresas, que fatura cerca de R$ 100 milhões por ano e tem 700 funcionários. “A empresa é líder em seu segmento. Como vende um produto a um preço muito competitivo, não deve estar na primeira linha de corte de custos dos clientes”, diz Grilo. “O que estamos fazendo é uma mistura de gestão de crise com melhoria de performance.”

A Brasvending, fundada em 1996, tem hoje como sócio principal Augusto Conde. A companhia recebeu investimento de um fundo de investimento, o DGF, que deixou o negócio em 2014. Hoje, a Alvarez & Marsal faz a gestão interina do negócio com um grupo de três executivos – um presidente, um diretor comercial e outro de finanças.

Além da Brasvending, a consultoria também alocou executivos para os processos de reestruturação das construtoras OAS e Galvão Engenharia. Ambas pediram recuperação judicial após serem investigadas na Operação Lava Jato. Um executivo da Alvarez & Marsal assumiu, por curto período de tempo, a presidência da OGX.

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