Kamil Krzaczynski/ REUTERS
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Mais de 10 milhões de americanos deram entrada em pedidos de seguro-desemprego em março

As duas semanas mais recentes tiveram mais solicitações de seguro-desemprego do que os primeiros seis meses da Grande Recessão

Heather Long, The Washington Post

02 de abril de 2020 | 10h11
Atualizado 02 de abril de 2020 | 18h50

WASHINGTON - Mais de 10 milhões de americanos deram entrada em solicitações do seguro-desemprego na semana passada - um recorde - enquanto lideranças políticas e de saúde congelaram a economia, mantendo as pessoas em casa e tentando desacelerar a disseminação do mortífero coronavírus.

As duas semanas mais recentes tiveram mais solicitações de seguro-desemprego do que os primeiros seis meses da Grande Recessão, indício do quão rápido, doloroso e profundo foi o fechamento da economia para muitas famílias americanas que lutam para arcar com os custos do aluguel e do plano de saúde em meio a uma pandemia.

As perdas de empregos foram impulsionadas pelo fechamento de restaurantes, hotéis, academias de ginástica e do setor de viagens em todo o país, mas demissões no setor de manufatura, armazenamento e transporte também estão aumentando, mostrando como é generalizada a dor causada pela recessão do coronavírus.

Em março, 10,4 milhões de americanos perderam seus empregos e solicitaram ajuda do governo, de acordo com os dados mais recentes do departamento de empregos, que inclui os pedidos feitos até 28 de março. Muitos economistas dizem que o número real de desempregados é ainda mais alto, pois muitos americanos que perderam recentemente o emprego não tiveram nem sequer tempo de preencher a solicitação.

O governo americano ainda não divulgou um número oficial de desempregados, mas os economistas dizem que é provável que 10% da população já seja atingida, uma alta súbita e sem precedentes em relação a fevereiro, quando o desemprego no país era de 3,5%, o mais baixo em meio século.

“Nunca vimos nada parecido", disse Aaron Sojourner, economista do trabalho da Universidade de Minnesota. “A escala da perda de empregos nas duas semanas mais recentes é comparável à que vimos em dois anos da Grande Recessão."

A economista Heidi Shierholz dedicou a vida ao estudo do mercado de trabalho e disse que ficou trêmula quando viu o "aterrorizante" número de empregos perdidos em março. Heidi prevê que 20 milhões de americanos ficarão desempregados até julho - a pior situação de desemprego desde a Grande Depressão - mesmo se o congresso aprovar outro grande pacote de estímulo para ajudar a economia.

Mesmo durante a era da Grande Recessão, o desemprego só chegou a 10% nos EUA durante um mês, em outubro de 2010.

Muitos recém-desempregados disseram não ter conseguido solicitar o seguro-desemprego, porque as linhas telefônicas de atendimento estavam tão sobrecarregadas que foi impossível completar a chamada. Os autônomos e trabalhadores da economia dos bicos, como barbeiros e cabeleireiros, só puderam fazer suas solicitações no fim de março, depois que o congresso aprovou um pacote de resgate de US$ 2,2 trilhões para expandir a definição de quem teria direito ao benefício. Esses trabalhadores estão agora começando a preencher suas solicitações.

Economistas e responsáveis pelas políticas públicas temem que ainda mais americanos perderão seus empregos nas próximas semanas conforme as empresas que resistem às demissões se verão obrigadas a dispensá-los ou reduzir seu horário de trabalho a praticamente nada.

As grandes redes de varejo como Macy's, Kohl's e J.C. Penney anunciaram essa semana que dariam dispensa a centenas de milhares de funcionários, o que significa que eles retêm o seguro-saúde, mas não recebem salário, com o horário reduzido a zero. Esses trabalhadores também têm direito ao seguro-desemprego, mas muitos deles só estão percebendo agora que podem solicitá-lo.

Mas o estrago vai além das lojas e restaurantes. Mercedes Addington perdeu o emprego em uma empresa que vende peças e suprimentos para caminhões em Kansas City, Kansas, no dia 23 de março. Ainda que a empresa fosse considerada "essencial" durante a crise e os pedidos ainda chegassem, a empresa demitiu a maioria dos funcionários.

Mercedes estava no telefone com um cliente que fazia uma encomenda quando viu todo mundo juntando suas coisas. Ela interrompeu brevemente a ligação para perguntar o que estava havendo, e um colega lhe disse que todos tinham sido demitidos.

“Estou muito frustrada e assustada. Tenho contas a pagar e contava com esse dinheiro para sobreviver", disse Mercedes. “Se eu não correr riscos e voltar a trabalhar em algum lugar, não sei se ainda terei um lar ao qual voltar."

Mercedes, de 21 anos, vive em um apartamento modesto com o namorado. Pagam US$ 800 de aluguel. O senhorio se mostrou disposto a não cobrar o aluguel de abril, mas somente se eles conseguissem provar que Mercedes solicitou seguro-desemprego ao estado do Kansas.

Ela tentou solicitar o seguro imediatamente depois de ser demitida, mas o sistema disse a ela que a solicitação só poderia ser concluída no dia 28 de março. Foi o que ela fez, e uma informação na tela disse que tinha sido aprovado o pedido de aproximadamente US$ 300 semanais em auxílio. Mas, quando ela voltou a acessar o sistema essa semana, a mensagem dizia que o benefício dela tinha sido "temporariamente suspenso", deixando-a sem solução para pagar as contas e o aluguel.

Repetidos telefonemas ao escritório de desemprego do Kansas ficaram sem resposta. Agora ela não sabe o que fazer.

“Nunca solicitei seguro-desemprego antes, e o processo me deixou muito confusa", disse ela.

O congresso aprovou um auxílio adicional para os desempregados que deve aumentar o cheque semanal para cerca de US$ 600, um importante reforço para a renda de trabalhadores demitidos como Mercedes. Mas muitos estados têm dificuldade em implementar as mudanças suficientemente rápido, e os escritórios de desemprego estaduais não contam com funcionários suficientes para lidar com tal volume de solicitações e dúvidas.

É cada vez maior a preocupação com a possibilidade de os trabalhadores que perderam o emprego por causa do coronavírus não poderem retomar suas atividades quando a crise de saúde terminar. Quanto mais tempo os trabalhadores passam afastados do emprego, mais fraco fica o elo com seus antigos chefes e empregadores.

Para os economistas, o melhor é que as empresas dispensem os funcionários, como fez a Macy’s, pois assim as pessoas recebem algum benefício e mantêm seu elo com o empregador.

“Melhor do que demitir os funcionários é dispensá-los", disse Heidi. “A dispensa os mantêm ligados à empresa. O funcionário ainda tem seus direitos e não fica desempregado. E as empresas não perdem seus funcionários."

Eric Rosengren, diretor do Federal Reserve de Boston desde 2007, prevê agora uma recuperação mais lenta para a economia americana, já que levará mais tempo até que as pessoa se sintam à vontade para ir a restaurantes e eventos esportivos.

“Os aspectos de saúde pública dessa situação são piores do que em outros países, de modo que o número de casos e fatalidades deve se manter relativamente alto nos Estados Unidos. Isso também significa que o impacto econômico deve ser pior do que em alguns outros lugares", disse Rosengren.

Ele insistiu para que o congresso aprove novos pacotes de estímulo para tornar gratuito o tratamento do coronavírus. / Andrew Van Dam, do Washington Post, contribuiu com essa reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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