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Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
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Jade Picon: Uma cara nova para um problema velho

De conselhos profissionais a tarifas de importação, o País está repleto de obstáculos para talentos e consumidores. O fascinante é que a imposição das barreiras seja tão desavergonhada e suas justificações, tão bem aceitas

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2022 | 04h00

E, você, já ouviu falar na Jade Picon? Eu não a conhecia até o início deste ano. É uma celebridade da internet que foi para o BBB. Já Ana Hikari, Anna Rita e Nina Tomsic, eu só conheci esta semana mesmo. São atrizes na TV e menos famosas do que a Jade Picon. Elas protestaram contra a sua escalação em uma próxima novela: “Nossa profissão é para gente qualificada”, “Meus 10 anos de curso de teatro estão de luto”, “Nossa profissão não é brincadeira”.

Jade tem 20 milhões de seguidores só no Instagram, de um público jovem que poderia começar a ligar a TV para assisti-la. A tarimbada autora da novela aprovou o novo rosto. Se empresa e espectadores querem Jade na novela, quem seria contra? O Sated – o sindicato de artistas do Rio (sim, ele existe).

O sindicato quer uma barreira à entrada de Jade. Com a justificativa de qualidade, quer uma reserva de mercado para os seus. Usou um exemplo didático: advogado é só quem tem OAB. Com base em uma lei da ditadura, exigirá de Jade ou anos de curso formal ou uma papelada comprovando anos de atuação (e agora parece menos estranho que as novelas sejam tão brancas).

Jade Picon, de olhos claros, é na verdade outsider por ter priorizado uma carreira diante das câmeras do celular. Há outros casos em que o sucesso na internet enfrenta a ira dos carimbos – como o pessoal fitness do corpo invejado que não pode compartilhar conhecimento com clientes interessados, por não pertencer a guildas de educação física ou nutrição.

Uma cara nova para um problema velho. Gal Costa foi rejeitada pela Ordem dos Músicos do Brasil. Simonsen, engenheiro e literalmente autor dos manuais de micro e macroeconomia, teria tido de estudar a própria obra para conseguir o timbre de economista. Já “Doutor Jairinho” foi oficialmente médico por anos, só passando a ser considerado mau profissional quando estava em Bangu, exemplo anedótico da utilidade que os registros e seus órgãos prestam à sociedade.

O problema de Jade Picon está em vários lugares da economia. O povo quer ver Jade Picon, mas quer também comprar barato na internet. Agora, Luciano Hang e outros empresários se organizam para que o governo tire os sites chineses da jogada e os proteja.

De conselhos profissionais a tarifas de importação, o País está repleto de obstáculos para talentos e consumidores. O fascinante é que a imposição das barreiras seja tão desavergonhada e suas justificações, tão bem aceitas. Mais Jade Picon, menos “Veio da Havan”.

(O colunista machucou o braço e volta mês que vem.)

*DOUTOR EM ECONOMIA

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