'Pegadinhas' aéreas

A presidente Dilma Rousseff deseja ganhar de presente neste Natal um "pibão grandão" em 2013. Desejo legítimo, embora não garantido, porque depende de concretização futura. Os brasileiros compartilham do desejo de Dilma e torcem por recebê-lo embalado numa bela caixa no Natal do próximo ano. Este, sim, será um bom pacote. Mas até lá a presidente e sua equipe precisam afastar erros dos dois primeiros anos de mandato, aprender com eles, perseguir o caminho certo e substituir amadorismo por eficiência em gestão.

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h08

Vamos tomar o caso da concessão de aeroportos, que tem urgência de investimentos, não só pela proximidade da Copa, mas para o cotidiano dos brasileiros que diariamente vivem pequenas e grandes tragédias em aeroportos saturados que prestam serviços ruins. Em seu último de tantos pacotinhos servidos ao longo do ano, na quinta-feira a presidente divulgou um programa abrangente de privatização dos Aeroportos de Confins e do Galeão e ampliação e construção de 270 aeroportos regionais.

Quase dois anos se passaram desde que o ex-ministro Antonio Palocci anunciou que Dilma aceitara a ideia de privatizar os maiores aeroportos do País. O PT perdeu muito tempo com a inútil e vazia discussão de que se tratava de concessão, não privatização - a maldição ideológica que o partido tanto condenou em campanhas eleitorais. Sempre que o político ideológico predomina sobre exigências técnicas, o resultado costuma ser desastroso. E assim foi no caso dos aeroportos.

O governo demorou, mas, finalmente, em fevereiro de 2012, leiloou os terminais de Viracopos, Guarulhos e Brasília - o consórcio privado teria 51% do controle acionário; a Infraero, 49%; e a gestão dos terminais seria de responsabilidade da operadora estrangeira. Porém, um indesculpável amadorismo produziu regras erradas e acabou por entregar o Aeroporto de Guarulhos, o maior do País e da América Latina, que movimentou 30.003.428 de passageiros em 2011, para um grupo médio da África do Sul, cuja capacidade de gerência foi questionada pela própria Dilma. Ao exigir experiência com apenas 5 milhões de passageiros/ano, as regras atraíram operadoras que pouco têm a ensinar, mas afastaram as mais experientes.

Irritada com o resultado do leilão, Dilma despachou uma equipe de assessores para a Europa com a missão de consultar o interesse pelo Galeão e por Confins de gestoras dos maiores aeroportos do mundo. Mas a proposta continha uma "pegadinha", tão explícita quanto ingênua: além de majoritária, com 51% das ações, a Infraero ainda comandaria a gestão dos dois aeroportos. Diante de tal amadorismo, a resposta não podia ser outra: nenhuma operadora se interessou. Ao menos nesse detalhe o novo plano, divulgado na quinta-feira, corrige o erro: a Infraero será minoritária, com 49% das ações. Mas, como o diabo está nos detalhes, há um que o governo não esclareceu: que papel caberá à nova estatal Infraero Serviços, filhote da Infraero maior, que chegaria para varrer a ineficiência da mãe? Aliás, Dilma tem dado sinais contraditórios: quando reconhece ineficiência em alguma estatal, tenta corrigi-la com a criação de outra estatal, candidata futura a cabide de empregos, uso político e outras ineficiências. Assim foi com a Empresa de Planejamento e Logística e a Agência Gestora de Fundos Garantidores.

O governo diz que a Infraero Serviços vai coadministrar aeroportos, mas não esclarece se isso inclui Galeão e Confins. Diz que ela terá um sócio privado minoritário, mas não revela o perfil desse sócio nem o que será oferecido para atraí-lo. Vagamente, explica que sua função é absorver tecnologia em gestão e aplicá-la no Brasil. Mas não revela se sua atuação ficará restrita a aeroportos regionais ou incluirá os grandes. São dúvidas que o governo deixou no ar. Espera-se que as tenha esclarecido, consultado antecipadamente o interesse e assegurado a participação de grandes operadoras no leilão. Se for outra pegadinha para manter a Infraero na gestão, já não será "pegadinha", mas pagar mico.

Aos queridos leitores, um feliz Natal e um pibão em 2013.

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