Amanda Perobelli/ Reuters
Bolsa de Valores de São Paulo (B3) Amanda Perobelli/ Reuters

Pela primeira vez desde 2014, há mais dinheiro brasileiro do que estrangeiro na Bolsa

Com queda dos juros, que corrói ganhos da renda fixa, investidor local, ‘empurrado’ para o mercado de ações, sustenta alta da Bolsa; o capital externo está deixando o País, R$ 40 bi saíram do Brasil em 2019 e R$ 16 bi, só em janeiro

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 04h00

Pela primeira vez desde 2014, o investidor brasileiro é maioria na Bolsa de Valores de São Paulo (B3). No ano passado, com a queda na taxa de juros para o menor patamar da história, a participação do capital nacional no mercado de ações ultrapassou a do estrangeiro – 52% ante 48% – e sustentou a alta do Bolsa paulista. A expectativa para 2020 é que esse movimento se mantenha diante da crescente demanda interna, com investidores em busca de novas alternativas para remunerar o capital.

Os estrangeiros, por sua vez, pegaram o caminho inverso. Em 2019, diante de um cenário internacional mais adverso com a guerra comercial entre Estados Unidos e China e crises nos países latino-americanos, eles retiraram cerca de R$ 40 bilhões da Bolsa paulista, contrariando as previsões de que após a reforma da Previdência haveria uma enxurrada de dinheiro para o País. Neste ano, o movimento de aversão aos ativos brasileiros continuou com saída de R$ 16 bilhões até o dia 29.

“Ainda há um ceticismo por parte do investidor estrangeiro em relação às questões econômicas do Brasil. Eles não foram contagiados pelas mudanças”, diz o economista da Tendências Consultoria Integrada, Silvio Campos Neto. Ele destaca, entretanto, que o estrangeiro ainda tem presença relevante nas ofertas públicas (IPO e Follow-on), que devem voltar neste mês com a venda de ações por parte de empresas do governo.

Esse movimento, porém, não deve tirar o protagonismo do investidor brasileiro da Bolsa, avaliam os economistas. A expectativa do mercado é que, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre nesta terça, 4, e quarta, 5, os diretores decidam por um corte de 0,25 ponto porcentual, levando a Selic a 4,25% ao ano. A redução deve empurrar outros investidores para a Bolsa, seja de forma individual (pessoa física) ou por meio de fundos de investimentos.

“O cenário é muito favorável com juro baixo e perspectiva de maior crescimento econômico”, afirma a analista de ações da XP Investimentos, Betina Roxo. Segundo ela, um dos números que comprovam o potencial de crescimento do mercado no cenário atual é a participação dos fundos de investimentos na Bolsa, que em dezembro alcançou 9,2%. Apesar da forte evolução no ano passado, a fatia está longe dos 14% de 2007, diz ela. 

Fundos de investimento

De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em 2019, a captação líquida dos fundos de ações cresceu quase 200%, para R$ 86 bilhões. Enquanto isso, a captação dos fundos de renda fixa ficaram negativas em quase R$ 70 bilhões. “Depois de décadas de retorno fácil, o investidor brasileiro está tendo de se acostumar com riscos novos. É uma revolução. Saímos de um mundo fácil para outro que tem de tomar risco”, afirma Campos Neto, da Tendências.

 

No caso do investidor pessoa física, a expectativa também é de forte crescimento. Hoje, diz o sócio da assessoria de investimentos Monte Bravo, Rodrigo Franchini, são 1,65 milhão de CPFs. Esse número, nos cálculos dele, deve saltar para 2 milhões de CPFs – avanço de 21%. Segundo o executivo, esse movimento mais forte do investidor local na Bolsa torna o mercado mais saudável e mais suscetível aos solavancos do mercado externo. 

“Nesses casos, de estresse internacional, a Bolsa cai, mas sem desespero, pois o investidor local sustenta o mercado”, diz ele, que prevê o Ibovespa em 140 mil ponto no fim do ano. Franchini acredita que, com maior perspectiva de crescimento econômico e dissipação dos riscos do coronavírus, o investidor estrangeiro voltará ao mercado brasileiro.

O estrategista do Itaú BBA, Lucas Tambellini, concorda. Na avaliação dele, o que está ocorrendo é que o movimento do brasileiro na Bolsa está mais forte que o do estrangeiro, diz o executivo. “E vai continuar assim. O investidor local continuará sendo o protagonista da bolsa. É ele que vai ditar a movimentação do mercado em 2020”, diz Tambellini, que projeta o Ibovespa em 132 mil pontos e não vê com preocupação o risco de uma bolha.

Betina Roxo também é cética em relação ao assunto. Alguns fatores explicam o motivo do otimismo, como a manutenção dos juros baixos por um tempo mais longo, o crescimento econômico acima de 2% depois de uma longa recessão e a discussão de novas reformas, como a administrativa e a tributária. Tudo isso tende a sustentar o Ibovespa, que no ano passado subiu 32% pelo terceiro ano seguido. “A Bolsa não está supervalorizada. Há fundamento para a valorização de muitas empresas”, corrobora Alexandre Silverio, CIO da AzQuest. /COLABOROU TALITA NASCIMENTO

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Investidor aumenta porcentagem do patrimônio em ações

De conservadores aos arrojados, a renda fixa perde espaço nas carteiras de pessoas físicas

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 04h00

Gilberto Bara é um dos 1,6 milhão de CPFs registrados na Bolsa de Valores de São Paulo até dezembro de 2019. Ele começou a investir em 2011, com 20 anos de idade, concentrando seu montante em fundos de renda fixa. Este hábito lhe rendeu, dois anos depois, um intercâmbio. Desde 2016, de volta ao Brasil, Gilberto reiniciou os aportes, ainda com um perfil conservador. “Eu tinha cerca de 80% em produtos de renda fixa, 15% em fundos multimercado e 5% em ações.” Nos últimos anos, porém, a porcentagem mudou radicalmente.

“A chave virou pela rentabilidade maior que a renda variável proporciona. A queda dos juros me fez não considerar mais a renda fixa como investimento, mas como uma reserva importante.” Em 2019, no entanto, essa reserva foi investida em um novo negócio e, hoje, 100% do patrimônio de Bara que restou está na renda variável. “Tenho o desejo de investir para alcançar a independência financeira com cerca de 50 anos”, diz.

O advogado Eder Leite, de 37 anos, sempre teve um perfil mais arrojado e, nos últimos anos, a porcentagem de renda fixa em sua carteira diminuiu ainda mais. “Cheguei a ter de 30% a 40% em renda fixa. Hoje tenho de 10% a 15%. Com os juros em 14%, eu podia ter essa rentabilidade de uma forma conservadora”, diz.

Ele conta que acompanha o mercado diariamente e faz aportes semanais. Os lucros obtidos, porém, ainda não são utilizados regularmente. “Não faço retiradas mensais para pagar contas, foco no futuro. Pelos meus cálculos, dentro de cinco anos posso viver disso”, afirma. 

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