Pela 1ª vez, safra agrícola e receita do produtor serão recordes

Estimativa do mercado é que colheita 2007/2008 chegue a 143 milhões de toneladas, com receita de R$ 76 bi

Márcia De Chiara, do Estadão,

08 de outubro de 2007 | 15h48

A receita da safra de grãos que começa a ser plantada neste mês no Centro-Sul do País deverá atingir R$ 76 bilhões com a produção de 143 milhões de toneladas, segundo cálculos da RC Consultores. É a primeira vez que tanto a produção como a receita serão recordes. Se as previsões se confirmarem, serão R$ 14 bilhões adicionais de receita em relação à safra passada e um acréscimo de 8 milhões de toneladas de grãos. Do lado do produtor, o cenário é favorável porque se trata da segunda safra consecutiva em que há recuperação da atividade, depois do fundo do poço atingido em 2006. Do ponto de vista macroeconômico, a projeção afasta para 2008 o risco de alta de preços dos alimentos, o vilão da inflação deste ano. A projeção de safra da RC supera as estimativas iniciais do governo. Nas contas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de grãos 2007/2008 deve oscilar entre 134,9 milhões e 138,3 milhões de toneladas e superar o recorde atingido na safra 2006/2007, de 131,5 milhões de toneladas. Para o diretor da consultoria e responsável pelas projeções, Fábio Silveira, as estimativas do governo estão subestimadas. "O levantamento foi feito em setembro, quando parte dos produtores ainda não tinha definido o que plantar." Silveira, que levou em conta nos cálculos os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os preços coletados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o vigoroso ritmo das vendas de insumos até agora, acredita que esse volume possa até ser superado. De janeiro a agosto, as vendas de fertilizantes, por exemplo, cresceram 44,8% em relação a igual período de 2006, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Em oito meses, foram entregues aos agricultores 14,508 milhões de toneladas, ante 10,021 milhões no mesmo período de 2006. Desse total, mais da metade (52%) do volume de fertilizantes é destinado ao plantio de soja e milho, diz o diretor-executivo da Anda, Eduardo Daer. "A indústria de fertilizantes trabalha com a perspectiva de um ano recorde para a venda de adubos", diz Daer. A projeção é encerrar o ano com 24 milhões de toneladas - em 2006, foram 20,9 milhões de toneladas. "É um crescimento significativo. Imaginávamos que haveria uma recuperação da agricultura de grãos, porém num prazo mais longo." Avaliação semelhante é feita por Gilberto Zago, vice-presidente para o segmento de máquinas agrícolas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A entidade acaba de ampliar de 28,4% para 40% a projeção de crescimento de vendas de máquinas agrícolas no mercado interno. A estimativa inicial - vendas de 33 mil máquinas em 2008 -, foi revista para 36 mil. Em 2006, foram vendidas 25,7 mil. De janeiro a setembro, o crescimento foi de 43,1% ante 2006. "É um número impactante", diz o executivo. As estatísticas do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag) revelam que, de janeiro a agosto, as vendas de defensivos acompanharam o ritmo de fertilizantes e máquinas e cresceram 44% ante 2006. O Sindag pondera que 2006 foi um ano fraco, por isso a taxa de crescimento é expressiva. De qualquer forma, em relação a 2005, um ano de melhores resultados para a agricultura, o acréscimo foi de 14%, aponta a entidade. A dobradinha soja e milho deve impulsionar o desempenho da safra de grãos, aponta Silveira, da RC. Segundo ele, a soja e o milho juntos devem responder por 80% da produção e mais de 75% da receita prevista. O patamar das cotações dos grãos no mercado internacional mudou desde o segundo semestre do ano passado, quando os EUA revelaram a intenção de produzir álcool a partir do milho. "Esse cenário fez com os preços da soja, do milho e do trigo ficassem hoje acima da média histórica", diz o superintendente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Ricardo Cotta. Em 12 meses até outubro, o preço da soja subiu 75% em dólar na Bolsa de Chicago. A cotação do milho subiu 48% em dólar no mesmo período, enquanto o preço do trigo subiu 116%. Segundo Cotta, as cotações desses grãos devem ficar acima da média histórica nos próximos dois anos em razão da menor oferta de produtos por causa do uso do milho para obter álcool, combinado com o aumento da demanda da China. Silveira destaca que o episódio do etanol obtido a partir do milho fez com que o Brasil tivesse representatividade no mercado internacional com esse grão. A expectativa para este ano é de que a exportação brasileira de milho atinja 9,5 milhões de toneladas, um recorde, observa. Segundo o economista, o trigo tem sido uma das revelações das últimas safras. A produção atingiu o pico de 6 milhões de toneladas em 2004, caiu para 2 milhões em 2006 e agora, pela segunda safra consecutiva será de 4 milhões de toneladas, mas com um crescimento de 50% na receita. "O trigo vem renascendo. É a segunda safra consecutiva de recuperação de receita", observa. Em contrapartida, as projeções da consultoria mostram uma estagnação na produção e recuo na receita do feijão e do arroz. Porém, como são produtos voltados para o mercado doméstico e não há tradição de exportação, o impacto da alta desses grãos no mercado internacional é nulo.

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