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Pela primeira vez, BC reconhece que inflação ficará acima do teto da meta em 2016

Se a projeção, de 6,6%, se confirmar, será o segundo ano seguido em que o teto da meta do governo será superado, o que obriga o presidente do Banco Central a se explicar em carta aberta

Bernardo Caram, Célia Froufe e Eduardo Rodrigues, O Estado de S. Paulo

31 Março 2016 | 09h03

BRASÍLIA - Pela primeira vez, o Banco Central reconheceu que a inflação deste ano vai estourar o teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 6,5%. Segundo o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado nesta quinta-feira, o IPCA de 2016 ficará em 6,6%, e não mais em 6,2% como constava do documento de dezembro, pelo cenário de referência. No cenário de mercado, a taxa projetada passou de 6,3% para 6,9%.

Se a projeção se confirmar, será o segundo ano seguido em que o teto da meta será superado, o que obriga o presidente do BC a se explicar em carta aberta. Em 2015, o IPCA ficou em 10,67%, o maior porcentual desde 2002. Desde 1999, os presidentes do BC tiveram de redigir esta explicação, encaminhada ao ministro da Fazenda, em quatro ocasiões: 2001, 2002, 2003 e 2015.

A nova previsão vem mais alta, apesar de o BC ter a expectativa de uma inflação menor nos próximos meses, se apoiando em um processo de grande desinflação, em especial dos preços administrados. A valorização do câmbio também tem indicado no início deste ano que pode colaborar com esse cenário. Para o primeiro trimestre do ano, o IPCA acumulado em 12 meses deve ter alta de 9,5%, segundo o RTI. No segundo, a taxa projetada pelo BC é de 8,7% e, no terceiro, de 8,0%.

Segundo o documento, o ainda elevado patamar da inflação é reflexo dos processos de ajustes de preços relativos ocorridos no ano passado. Mas o BC também atribui a persistência inflacionária ao processo de recomposição de receitas tributárias observado nos níveis federal e estadual no início de 2016. Por isso, avalia a autoridade monetária, a inflação mostra resistência. 

O relatório também traz a avaliação da diretoria do BC de que as atuais condições da economia brasileira "não permitem trabalhar com a hipótese de flexibilização monetária". 

O novo documento ampliou o rol de incertezas associadas ao balanço de riscos. No relatório de dezembro, o BC destacava incertezas apenas com relação à velocidade do processo de recuperação dos resultados fiscais e à sua composição, mas agora também citou incertezas "quanto ao comportamento recente das expectativas e das taxas observadas de inflação, combinados com a presença de mecanismos de indexação na economia brasileira".

A autoridade monetária, porém, voltou a garantir que adotará as medidas necessárias de forma a assegurar o cumprimento dos objetivos do regime de metas. Ou seja, circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), em 2016, e fazer convergir a inflação para a meta de 4,5%, em 2017.

No último Relatório de Mercado Focus, a mediana das previsões do mercado para o IPCA de 2016 caiu para 7,31%. Apesar de o levantamento ter mostrado a terceira semana consecutiva de queda das estimativas dos analistas do setor privado, a taxa ainda está acima do teto da meta para o ano, de 6,50%.

O diretor de Política Econômica do BC, Altamir Lopes, avaliou que o controle da inflação é um ajuste que ainda está em andamento, mas cujos benefícios já começam a ser colhidos. Ele também reiterou a expectativa de desinflação de 2 pontos porcentuais no primeiro semestre, sustentada por uma desinflação mais consistente no setor de Serviços.

"O mercado já começa a comprar a nossa expectativa. A desinflação contratada é muito significativa", afirmou, ao comentar o relatório. "Temos uma desaceleração bastante marcada de preços administrados e a as expectativas de mercado já mostram uma desinflação bastante significativa em 2016 e 2017", acrescentou.

Inflação de 2015. Como de praxe, o primeiro Relatório Trimestral de Inflação de março traz a decomposição da inflação do ano anterior. Desta vez, no entanto, por causa do descumprimento da meta de inflação de 2015, o teor principal do documento foi adiantado na carta aberta ao ministro da Fazenda, que o presidente do BC, Alexandre Tombini, precisou escrever por ter falhado em sua missão.

Pelo documento, o IPCA de 10,67% do ano passado (a meta previa um limite superior de 6,50%) teve como principal vilão os preços administrados, responsáveis por 4,21 ponto porcentual (pp). 

Em seguida, os preços livres responderam por 2,97 pp e o câmbio, por 1,57 pp. Já o choque de oferta contribuiu com 0,86 pp da alta e as expectativas, com 0,73 pp. A participação da inércia foi de 0,33 pp. 

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