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Pela derrubada dos juros

Ideia repassada pelos que poderão ser os responsáveis pela política econômica do governo Temer não tem a ver com o mergulho dos juros na marra, mas com a criação prévia de condições para isso

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2016 | 21h00

As primeiras manifestações que nos chegam dos círculos mais próximos ao vice-presidente da República, Michel Temer, nos dão conta de que um dos mais imediatos objetivos da política econômica a serem perseguidos pela nova administração - se, evidentemente, a presidente Dilma vier a ser afastada - é o de providenciar queda consistente dos juros básicos (Selic), hoje nos 14,25% ao ano, entre os mais altos do mundo.

Como entre as principais propostas de política econômica alternativa apresentadas pelo PT está a pronta derrubada dos juros, pode haver quem imagine que, afinal, há aí uma coincidência de intenções-chave. Mas não é bem assim.

A proposta do PT quer a derrubada imediata dos juros sem a criação anterior de condições para isso, como aconteceu em 2013, o que seria um desastre porque estimularia o consumo numa situação em que a economia não aguentaria. Seria como levar um atleta que ainda se recupera de lesão a disputar uma final de 100 metros rasos.

A ideia que começou a ser repassada pelos que poderão ser os responsáveis pela política econômica do governo Temer não tem a ver com o mergulho dos juros na marra, mas com a criação prévia de condições para isso.

A condição essencial consiste em obter o recuo da inflação de maneira que não sejam necessários juros tão altos para promover a convergência em direção à meta, hoje de 4,5% ao ano.

O empurrão inicial morro abaixo já foi dado. A inflação pode agora recuar porque boa parte do ajuste mais pesado - as correções dos preços administrados, que engloba as tarifas de energia elétrica, combustíveis e condução urbana - já foi realizada. Mas a inflação continua excessiva, principalmente porque a desordem das contas públicas (crescimento da despesa maior do que o crescimento da arrecadação) continua sendo a principal usina de aumento de preços. Não está claro como o governo Temer pretende enfrentar o rombo fiscal que agora pode estar à altura dos R$ 140 bilhões por ano. As primeiras ideias a respeito disso envolvem providências que definam um teto para a dívida pública e certa desvinculação de despesas sociais na execução do Orçamento. Mas, por enquanto, são apenas idéias.

Outro instrumento que pode ajudar a derrubar a inflação é uma nova queda das cotações do dólar. Nos primeiros anos da administração Lula, quando Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central, o real forte (baixas cotações do dólar) foi usado como âncora para segurar a inflação.

Nesse ponto, o pressuposto é o de que seja liberado o gênio da lâmpada que devolverá a confiança à economia, e que, a partir daí, certa massa de dólares aporte no Brasil, fator que pode resultar na derrubada das cotações do câmbio. Nessas condições, o recuo dos preços da moeda estrangeira concorreria para baratear o produto importado e ajudar a segurar a inflação. O problema aí é encontrar o nível ideal de valorização do real que não comprometa nem a competitividade nem as exportações.

CONFIRA:

Fundo do poço?

Quem examina os números de março (aumento de 1,4% da produção industrial em relação a fevereiro) pode ficar com a impressão de que o fundo do poço foi atingido. Mas é prematuro tirar uma conclusão assim porque não há ainda indícios suficientes de que isso esteja acontecendo. Em todo o caso, a provável mudança de governo pode espraiar uma onda inicial de confiança, se os atuais impasses estiverem sendo devidamente atacados. No entanto, para que isso se transforme em mais consumo e mais produção, seria preciso que, antes, o nível de renda fosse restabelecido.

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