Pelo conjunto da obra

Dilma está sendo alijada da Presidência pelas opções equivocadas e pelos graves erros que cometeu

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2016 | 05h00

A presidente Dilma tem razão quando afirmou na sua Mensagem ao Senado Federal e ao Povo Brasileiro, divulgada dia 16, que está sendo afastada do governo “pelo conjunto da obra”.

Ela não está sendo condenada – e cassada por dez anos – apenas porque pedalou à vontade na administração das contas públicas e porque incorreu em crime de responsabilidade, apontado pela Constituição e pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Ela está sendo alijada da Presidência pelas opções equivocadas e pelos graves erros que cometeu.

Nem ela nem a administração que conduziu foram vítimas da crise global, como sempre afirmou, para tentar justificar o desastre. Foi vítima dela própria, na medida em que produziu diagnósticos distorcidos e sérias falhas de pilotagem da política econômica.

A Nova Matriz Macroeconômica que pretendeu induzir investimentos e aumento da produção a partir de crescimentos artificiais de consumo, baseados em desonerações, isenções tributárias, subsídios, reservas de mercado e créditos favorecidos, foi o fracasso já conhecido.

O País mergulhou na maior depressão de sua história. O PIB encolheu por três anos consecutivos, se incluirmos este 2016 que ainda não acabou. A inflação saltou para a casa dos 10% ao ano. O desemprego foi a 11,3% da força de trabalho. O rombo do setor público saltou para R$ 170 bilhões, neste ano. Os títulos do Brasil perderam o grau de investimento e continuaram sendo rebaixados pelas agências de classificação de risco.

A indústria sofreu longo processo de desmanche. A Petrobrás foi submetida a saques sistemáticos, sem que a presidente Dilma os tivesse coibido – e continua ela dizendo que não sabia de nada. Além disso, a própria Petrobrás teve seu caixa desidratado em pelo menos R$ 70 bilhões pela política deliberada de achatamento dos preços dos derivados. Pelas mesmas razões, o setor elétrico entrou em colapso.

Depois de defender essa política devastadora ao longo do processo eleitoral de 2014 e de negar-se a adotar políticas de austeridade, a presidente Dilma desdisse o que disse, nomeou o ortodoxo Joaquim Levy para o comando da economia e deu o cavalo de pau que o próprio PT considerou operação de estelionato eleitoral.

Não faz sentido afirmar que, apesar de tudo, cerca de 30 milhões de brasileiros foram resgatados da pobreza. Eles passaram temporariamente a consumir iogurte, a comprar TV de tela plana e telefones celulares. Viraram consumidores episódicos, mas não puderam desfrutar de melhores condições de educação, saúde e saneamento, desdenhadas pelo governo Dilma porque essas políticas não dão retorno eleitoral imediato.

Os produtos que as camadas mais pobres consumiram por alguns meses foram alijados do carrinho do supermercado, em consequência da dilapidação do poder aquisitivo pela queda de renda, pelo desemprego e pelo excessivo endividamento.

Em outras palavras, o governo Dilma não garantiu melhora sustentável das condições de vida dos mais pobres. Tivesse garantido, estariam eles nas ruas e nas praças públicas pedindo sua absolvição no processo do Senado e sua volta ao governo. Nem para eles há conjunto de obra a defender.

CONFIRA 

Ainda não deu certo

A política de metas de inflação funciona para as grandes economias? Na verdade, não tem funcionado nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) em 2012 passou a trabalhar com meta (informal) de inflação de 2,0% no período de 12 meses.

 

Risco de deflação

Mas não vem conseguido cumpri-la. Apenas em curto período de 2012, a meta foi atingida. Embora os juros estejam em torno de 0,25% ao ano, a inflação dos Estados Unidos vem se mantendo entre 0,9% e 1,4% ao ano. Baixar ainda mais os juros não obteria inflação mais alta, objetivo destinado a fugir do risco de deflação.  

 

É para mudar?

Diante do insucesso, os especialistas divergem. Alguns pedem aumento da meta para algo como 4,0% ao ano. Outros sugerem que seja abandonada a meta de inflação e adotado o sistema de meta de crescimento do PIB. A presidente do Fed, Janet Yellen, admite que está estudando as sugestões. 

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